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Wed: 12-01-10

+Entrevista: Vhils, por Natalia Lucki

(Entrevista publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)    

A Manutenção do Efêmero - Uma Entrevista com Vhils

Por Natalia Lucki . Fotos Divulgação

Vhils é o pseudônimo do português Alexandre Farto, rebento mais novo de uma família de peso. Ao lado de nomes como Banksy, JR e Blu, ele faz parte da equipe do agente Steve Lazarides. Aos 23 anos, trocou Portugal pela Inglaterra. Em sua busca pela individualidade, ironicamente escolheu Londres para viver, onde se formou no Central Saint Martins College. Criador de um método único, Vhils trabalha a efemeridade dos materiais, com obras em permanente transformação. Em vez de pintar, usa ácido e água sanitária para remover pequenos pedaços da parede. Em suas escavações da figura humana, imagens de pessoas comuns são reveladas, como se ele desvendasse as camadas que a vida em sociedade acrescenta à nossa personalidade. Um vandalismo poético, quase ideológico.

De onde surgiu seu interesse pelo graffiti?

Meu background artístico foi o graffiti. Eu tinha cerca de 10 anos quando me interessei, e comecei a pintar na rua com 13, primeiro nas paredes e depois em trens, com amigos ou sozinho. Nesses primeiros anos, pintar trens tornou-se a minha principal atividade, primeiro em Portugal, depois por toda a Europa. A partir de determinado ponto, comecei a ter vontade de partir para outras direções. Encontrei no estêncil uma ferramenta que abria inúmeras novas possibilidades. Mais tarde comecei a explorar outras ferramentas e processos que me permitiram atingir pessoas que não eram do graffiti, um meio muito fechado por natureza.

Você cresceu na margem sul de Lisboa, de onde veio a primeira geração do graffiti português e de onde, ainda hoje, saem os grandes nomes da cena local. Por que acha que isso acontece?

É a parte mais marginalizada na Grande Lisboa. Foi criada como cidade dormitório para a classe operária de várias áreas industriais e navais dos anos 50, 60 e 70. É uma região multicultural e muito voltada para a esquerda e extrema-esquerda. Nos últimos anos, muitas indústrias faliram e desapareceram, deixando todos os problemas relacionados. Essa pode ser uma das razões.

O Visual Street Performance de 2005, o principal encontro de graffiti de Portugal, marcou a virada do seu trabalho. Como aconteceu a transição da pintura em trens para as paredes?

O VSP surgiu de um coletivo de artistas do qual eu fui um dos fundadores. Faziam parte desse coletivo Hium, Time, Hibashira, Ram, Mar e eu. Até então só trabalhávamos na rua, mas decidimos transpor tudo para um espaço interior, numa fábrica abandonada no centro de Lisboa.

Como é a cena do graffiti hoje em Portugal?

Começou tarde, no final dos anos 80, mas tem vários trabalhos que acho únicos, pelo background diferente que o país teve em relação ao resto da Europa. Hoje existem vários nomes fortes, como Caus +-, Klit, Viktor, Pedro Matos, Adres, Tosco, Vulto.

Você começou trabalhando com tinta e sticker, mas desenvolveu uma nova técnica com ácido e água sanitária. Como funciona isso?

Basicamente, o processo é sujar uma superfície e depois limpar com ácido. No meu trabalho, existe sempre um elemento fixo - o estêncil que vou aplicar -, mas também há elementos variáveis, como a natureza dos materiais que vão se transformando e ditam o aspecto final do trabalho. Não sou eu quem determina o aspecto final da obra. Nunca tenho, e nem quero ter, o controle total do que estou fazendo - gosto do inesperado e do aleatório. Me interessa trabalhar com o que não consigo controlar, é esse caráter efêmero que me interessa explorar, a inconstância e a impermanência da matéria. Os meus trabalhos estão em permanente transformação - uma transformação intencional. Todo o campo da ação humana tem sido voltado para a ideia de fixar, criar estruturas que permitam contrariar a mudança, manter. E a natureza é precisamente o oposto, um estado permanente de transformação, mutação, mudança. Minha intenção é não só sublinhar essa condição do efêmero, mas também instigá-la, incentivá-la.

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Como você escolhe os lugares onde trabalha?

São lugares abandonados ou sujos. Quanto mais degradado, melhor. Mas também já fiz trabalhos em lugares de grande movimento, na área portuária de Lisboa, por exemplo.

Quem são essas pessoas que você leva às paredes?

Na arte convencional, os artistas representam personalidades que têm alguma importância histórica. Na minha arte, qualquer pessoa tem o direito de ser representada. São pessoas que vejo nas ruas de Lisboa e Londres, e fotografo. Pode ser uma senhora que vejo no metrô, ou alguém que passa por mim na rua. Uso também fotos antigas, que compro em feiras de rua, ou recortes de fotografias de jornal.

"No meu trabalho, existe sempre um elemento fixo - o estêncil que vou aplicar -, mas também há elementos variáveis, como a natureza dos materiais, que vão se transformando e ditam o aspecto final do trabalho. Não sou eu quem determina o aspecto final da obra. Nunca tenho, e nem quero ter, o controle total do que estou fazendo - gosto do inesperado e do aleatório."

A proposta do seu trabalho questiona a relação do indivíduo com a cidade e como ela o descaracteriza no meio da multidão. Como você se mantém fiel às suas origens, morando em uma cidade como Londres?

Às vezes precisamos nos confrontar com o inimigo para sabermos como subvertê-lo. Às vezes precisamos nos deprimir para criar.

Como surgiu o convite para o The Cans Festival (evento organizado por Banksy em 2007, que aconteceu num antigo túnel do Eurostar desativado na Leake Street, em Londres)?

Em 2005, o Tristan Manco foi a Portugal fazer uma palestra, viu meus trabalhos na rua e entrou em contato comigo. Quando cheguei a Londres, ele era uma das poucas pessoas da área que eu conhecia. Pouco tempo depois, fui convidado para participar do picturesonwalls.com, um projeto inglês que reúne o trabalho de vários artistas. A partir do trabalho com o site, fui convidado a participar.

E como foi o contato com o Steve Lazarides?

O Steve entrou em contato comigo depois de uma exposição que fiz em Londres, chamada "Stollen Space". Ele me mandou um e-mail e me ofereceu um lugar na equipe dele.

A parceria que você fez com o JR em Los Angeles rodou os blogs de arte do mundo todo. Como aconteceu esse encontro?

Quando você está em uma galeria, conhece vários artistas, e aqueles que têm visões mais próximas vão se aproximando naturalmente. A nossa maneira de ver o mundo é parecida, nosso trabalho tem uma ligação.

Quem é a mulher da foto?

A foto faz parte do projeto do JR, "Women are Heroes", e foi tirada no morro da Providência, no Rio de Janeiro. A ideia é destacar a pessoa. Cravar o rosto de pessoas na cidade é quase como humanizar o espaço urbano, dar-lhe uma face e, nesse projeto específico, é também uma espécie de emporwement do indivíduo que é representado.

Os ciganos são mal vistos em toda Europa e ainda vivem marginalizados. Você trabalhou com crianças da comunidade de Peso da Régua. Como foi esse trabalho, e como você vê a importância do graffiti para crianças de comunidades menos favorecidas?

O projeto foi feito em 2008, com o Chullage, um rapper cabo-verdiano, e vem de outras parcerias que eu já tinha feito com ele na Arrentela e na Margem Sul. O graffiti acaba sendo uma maneira de as pessoas se comunicarem. É uma forma de expressão e uma ferramenta de comunicação de massa, e ao mesmo tempo te abre as portas para todas as áreas criativas.

"Cravar o rosto de pessoas na cidade é quase como humanizar o espaço urbano, dar-lhe uma face e, nesse projeto específico, é também uma espécie de emporwement do indivíduo que é representado."

Você andou em turnê com o Buraka Som Sistema. Como rolou esse convite?

Já conhecia o grupo há algum tempo, fiz algumas capas para a gravadora deles, a Enchufada. Foi daí que surgiu o convite para produzir os vídeos que passavam nos shows deles.

Em uma entrevista para a agência Lusa você disse que conheceu alguém que supostamente seria Bansky. Como você vê o mistério em torno de sua figura?

A maneira como essa notícia foi escrita leva a crer uma coisa que eu não disse. Já trabalhei em alguns projetos em que ele também estava, mas nunca é só uma pessoa, tem sempre uma equipe trabalhando. É possível que ele seja um deles, mas nunca fomos apresentados diretamente. Acho que o mistério é um dos componentes que torna o trabalho dele especial.

O que achou do filme dele?

Gostei muito. O filme prova como a arte pode ser corrupta. Com um pouco de dinheiro e alguns contatos, você consegue tudo.

Quais são os seus futuros projetos?

Demolir edifícios.

Saiba mais:

www.alexandrefarto.com