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Tue: 11-09-10

Karina Buhr . Eu Menti Pra Você Independente . 2010

Escapando à tradição, Karina Buhr inaugura sua carreira solo longe do regionalismo aberto que orientou sua trajetória à frente do Comadre Fulozinha. Mas, aparentemente, o caso é menos de negação que de libertação estilística, e um breve perfume nordestino ainda se faz presente em alguns dos melhores momentos de "Eu Menti Pra Você".

Em meio a batidas incomuns, a cantora pavimenta uma via de mão dupla entre intenções vanguardistas e uma arrojada veia pop, ora jogando uma luz feminina e pós-moderna sobre aquela cadência invertebrada da escola de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé ("Telephonen" e "Soldat"), ora experimentando o cruzamento de conceitos contemporâneos ("Ciranda do Incentivo" trata a polêmica das leis de incentivo à cultura sob o batidão iconoclasta do funk carioca), ora sinalizando certa inclinação latina (em "Solo de água Fervente", o embalo sensual da salsa surpreende o tema numa síncope inesperada saborosa), e ainda reivindica seu direito ao ócio, no reggae rasteiro "Plástico Bolha", onde procrastina, manhosa: "Hoje eu não tô a fim de corre-corre e confusão/ Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha."

Em sintonia com sua geração, que aprendeu a desrespeitar o passado em nome de sua própria personalidade contemporânea e assumir o pop como uma influência tão (ou mais) importante que o cânone sagrado da MPB, Karina Buhr se equilibra habilmente entre o antes e o depois, reproduzindo em "Eu Menti Pra Você" a virtude combinada de cada um dos dois.

Por Higor Coutinho