Depois da desilusão romântica de "Aurora Prisma" (2003), do cinismo insolente de "Grandes Infiéis" (2005), da ironia patética de "Tribunal Surdo" (2007), do sarcasmo religioso de "A Redenção dos Corpos" (2008), e de renunciar às guitarras e ao nome que o consagrou no circuito independente nacional, num projeto precocemente abortado (batizado como Agravo), o Violins voltou à vida, depois de morto e enterrado por quase um ano inteiro. Em "Greve das Navalhas", quinto disco da banda, o vocalista, guitarrista e principal compositor do quarteto, Beto Cupertino, moveu o foco do apocalipse místico de "A Redenção dos Corpos", dando lugar a um apocalipse mais natural e humano ("Tudo está melhor agora/ Que o mundo acabou lá fora/ E a gente vai poder reinventar a roda.").
Ao mesmo tempo em que experimenta novos limites líricos, apertando rimas tortas numa métrica formal, Cupertino também carrega nas guitarras distorcidas (mas sem desprezar o requinte das melodias) e ensaia alguns poucos ataques de agressividade "clássica", em refrões berrados que endereçam referências aos Deftones, numa espécie de conexão improvável com a calamidade pós-moderna descrita elegantemente num tom perdido entre o escárnio e a esperança, encoberta pela sombra sutil e perturbadora de um corrosivo humor negro.
"Greve das Navalhas" marca o retorno de uma das bandas mais relevantes do novo rock goiano, ainda tão comprometida com a intensidade de melodias e compassos quanto com a qualidade literária de suas pequenas epopeias catastróficas.
Por Higor Coutinho