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Thu: 11-04-10

+Entrevista: Garage Fuzz, Por Marcos Diego Nogueira

(Entrevista publicada na +Soma 19/Sep-Out 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)  

RESPEITO É PRA QUEM TEM

Por Marcos Diego Nogueira . Fotos de Arquivo Pessoal e Fotos de Show Fernando Ferreira Martins

 

As luzes do clube enfumaçado se apagam, e o público presente, com as bebidas nas mãos, começa a caminhar em direção ao palco. Os mais afoitos se aglomeram à frente, formando uma camada de fãs ardorosos que se destaca dos admiradores mais tranquilos (mas não necessariamente menos ardorosos) da banda, que nesse momento impõe seus instrumentos. "Boa noite, nós somos o Garage Fuzz", anuncia Farofa, o vocalista, que prontamente recebe a resposta da plateia: um uivo de aprovação.

Estamos em São Paulo, onde mora Farofa (também conhecido como Alexandre Cruz, ou Sesper), momentos depois deste bate-papo com a +Soma. Mas poderíamos estar em qualquer lugar do Brasil. Quem sabe Santos, onde moram Wagner Reis, Fernando Basseto, Fabrício DeSouza e Daniel Siqueira, o restante do quinteto. Não importa. O fato é que a banda comove - como se diz - do Oiapoque ao Chuí.

Também, pudera. Em vez de tentar produzir hits consecutivos em busca de uma paixão passageira, o Garage Fuzz toma outro caminho, construindo um relacionamento de amor duradouro com o público, por meio de lançamentos selecionados (são apenas três álbuns de estúdio) e apresentações ao vivo de respeito em, precisamente, dezenove anos de existência.

O setlist é variado, e empolga desde quem nasceu depois do surgimento da banda até os mais antigos, que acompanham o grupo antes mesmo da época em que a multinacional Roadrunner soltou pelo mundo "Relax in Your Favorite Chair" (1994), o disco de estreia, com pedradas como "It's Funny", que em seus pouco mais de dois minutos de duração provoca uma avalanche de jovens subindo e pulando do palco, enquanto a banda se diverte aos risos. Em 1998, veio Turn the "Page...The Season is Changing", com destaque para "Observant" e "Stream". "The Morning Walk", o trabalho mais recente, é de 2005, e sua faixa-título trata do quanto é importante, nos dias atuais, termos um tempo livre para nós mesmos.

Em todos esses anos, por incrível que pareça, a única baixa na formação da banda aconteceu apenas no ano passado, quando o guitarrista Nando deu lugar a seu xará, Fernando, que ainda nem entrou em estúdio com o Garage Fuzz. "No início foi estranho, porque o Fernando procura as notas de um jeito diferente do Nando. Agora está muito tranquilo, a gente nem se olha mais enquanto toca", explica Wagner Reis, o companheiro de guitarras.

Mesmo sem grandes mudanças no escrete, é perceptível a evolução sonora ao longo dos três discos citados acima, assim como nos EPs lançados pelo grupo: "Confortable Dimensions" (1997), "Instant Moments" (2001) e "Working on Title" (2002), um split com o Solea.

E, mesmo levando em conta a tal evolução da banda underground mais respeitada do Brasil, ainda fica difícil definir qual é a sonoridade do quinteto. Música para skatista? Indie rock? Guitar? Hardcore melódico? Para sanar essa e outras dúvidas e curiosidades, nada melhor do que recorrer ao cara que, de boné na cabeça, pernas arqueadas e costas curvadas, canta suas últimas palavras antes de deixar o palco ovacionado pelas dezenas de fãs suados e satisfeitos com a alquimia entre seu vocal e as guitarras melódicas, o baixo pulsante e a bateria energética que preenchem com propriedade as vastas lacunas do rock independente atual.



O Garage Fuzz tem duas características marcantes: é difícil rotular o seu som e é pouco comum uma banda ser respeitada por várias tribos diferentes. A que você atribui isso?

A gente sempre foi meio mal interpretado, em todos os períodos. Quando a onda era guitar, a gente era considerado punk - isso nos anos 1990. Apesar de a gente escutar Dinosaur Jr. e Sonic Youth, os caras falavam que a nossa influência era Misfits, coisas assim. Aí, quando fizemos uma coisa mais influenciada pelo hardcore californiano, que estava mais em evidência por causa dos vídeos de skate, falavam que a gente era muito guitar - isso em 93, 94. Então a gente nunca se preocupou em tentar se encaixar num rótulo. E crescer em Santos com uma galera que era muito desencanada desses lances ajudou também. Todo mundo escutava de tudo, de Barão Vermelho a Napalm Death, e não estava nem aí. Isso ajudou a renovar o público e criou uma certa credibilidade. Claro que isso gera consequências. Não adianta você ficar pensando assim e olhando pra grama do vizinho sendo mais verde. Você tem que se impor nas suas escolhas.

São duas décadas de banda. Quais foram essas escolhas?

Teve a evolução do nosso público. Ele foi se renovando, e isso fez a diferença dos anos 1990 pra esta década. Se a gente ficasse numas de manter o público, talvez a banda estagnasse. Mas a gente enxerga o lance de tocar mais pela amizade do que pra fazer sucesso e viver exclusivamente da música. Desde o "The Morning Walk" até esses projetos atuais (os recém-lançados CD e DVD ao vivo Definitively Alive), tudo é feito mais pra banda do que pra gravadora vender.

"The Morning Walk" foi o divisor de águas?

Acho que nos primeiros dez anos você ainda tem aquela inocência, tudo é novidade, a coisa tem mais poesia. Depois chega um período em que você já conhece o jogo, então só mantém o que prefere. A gente formatou a banda num esquema em que todo mundo conseguiria tocar feliz. Tem aquele lance mínimo pra gente fazer e beleza. Não existem sonhos ou esperanças de ser um lance melhor. O que a gente tem hoje em dia já está legal.

Quais são as condições básicas pro Garage tocar?

Todos os custos de passagem, estadia, rango... Não é nada de outro mundo, pode ser em um esquema bem low profile, com hotelzinho-manicômio, restaurante por quilo e um cachê mínimo pra custear isso, que beira o simbólico. A gente está nessa porque curte, fica feliz de ver a reação da molecada quando volta pra determinada cidade. Os caras falando: "Puta, achei que vocês nunca mais fossem voltar aqui". Esse tipo de coisa é que é legal.

Já tocaram no exterior?

A gente fez uns shows na Argentina que o Boom Boom Kid agitou, e agora no ano que vem, depois que gravar o disco novo, queremos fazer uma turnê nos EUA. Nós recebemos muitas correspondências de lá da Europa, muito porque saíram os discos pela Roadrunner e a OneFoot Records. Hoje em dia a internet ajuda bastante a continuar esse contato com o público que conhece a banda há um tempão.

Pouca gente toca com a mesma galera por tanto tempo. Você sente uma evolução? Como era tocar no início e agora?

Em 91 a gente ainda era bem moleque, 19 anos mais ou menos, era menos responsável com a vida e acabava tretando mais, por ser cabaço e não saber as coisas. O período entre 94 e 97 foi um amadurecimento, quando a gente lidou com uma gravadora. Nessa épocas já fomos sacando qual era a nossa. E depois disso, de 2000 em diante, a gente já encarava tudo numas de "vamos nos entender melhor, adaptar as coisas" - isso foi na época do primeiro disco ao vivo ["3500 Days Alive", de 2001]. Ajuda também o fato de que todos já se conheciam antes de formar a banda. Pra você ver, o Nando saiu dessa formação original por um lance de trabalho, uma opção que todo mundo respeitou, e colocamos o Fernando porque era um cara que ensaiava em uma banda de hard rock junto com a gente antes de existir o Garage - ou seja, ele tem uma ligação. O engraçado é que na equipe também é assim. Não muda o roadie, é o mesmo há anos, e o motorista da van também. A gente acaba criando um vinculo com a galera. Nunca houve um empresário, sempre foi o Fabrício que marcou todos os shows. Essa parte de logística está funcionando, e a gente sempre confiou nele. Isso ajuda a manter a saúde da banda.



Como é o cotidiano de vocês?

Cara, eu não ensaio muito, sou o mais preguiçoso há décadas. Sei que tenho que tentar sempre fazer o bagulho direito ao vivo, mas os caras são muito mais dedicados à banda do que eu. Eles ensaiam duas vezes por semana, estão sempre fazendo música nova. Hoje em dia todos têm trabalhos paralelos: o Fabrício tem produção de show, o Wagner trabalha com exportação de café, o Daniel no fórum trabalhista, e o Fernando tem um estúdio. Eu trabalho com essa parte de design. Então a banda é um lance que a gente respeita, é uma parada que a gente curte fazer, e fico feliz de estar em um show com mil ou com dez neguinhos.

E pra fazer as músicas?

Geralmente alguém das cordas - baixo ou guitarras - traz as bases, e a música vai sendo feita sem vocal. Isso até desenvolveu um estilo próprio pro Garage, porque não tem a melodia vocal logo de cara, então os caras têm que ficar enchendo de melodia a música pra suprir essa falta. Quando eu vou fazer o vocal, já tem muita coisa desenvolvida, e nessa tenho que fazer algo que não seja parecido com o que já está criado. Então a preguiça do vocalista desenvolveu mais as melodias nas cordas. E eu curto os resultados, acho que o melhor até agora foi o "Morning Walk", um disco que a gente ficou uns três anos fazendo e, quando gravou, foi quase um mês direto, sem estresse, tudo com calma. Tinha disco que a gente fazia o vocal em dois dias e gravava treze, quatorze músicas. Nesse foram doze, uma por dia. Essas coisas fazem a diferença. Mas nós não somos muito xiitas, hoje em dia estamos indo mais pra esse lado digital mesmo, programas como o Pro Tools etc.

E já estão na pegada de gravar outro?

Já temos umas dez músicas. Acho que o desafio não é só fazer um disco, mas fazer algo original em cima do que já foi feito antes, não se repetir. Essa é a nossa preocupação. Acho que, pro próximo, esse lance vai ficar nítido, até pela mudança de guitarrista, e pelo período que a gente passou escutando outras bandas. Na época do "Morning Walk", a gente estava ouvindo Pinback o dia inteiro - os dois primeiros principalmente -, Minus the Bear e outras bandas que soam diferente da levada do Garage, mais rápida, mais rock. Isso influenciou o nosso som, por exemplo, no lance de colocar 500 bases, 300 notas. Acho que o próximo material vai ser uma volta a um rock com mais repetição de base.

Pra uma banda independente, como é lançar um disco hoje em dia?

Pra um próximo lançamento a gente já pensa num formato em vinil, pra quem gosta mesmo de comprar o álbum, e focar também no download e na venda digital. Acho que é viável. Pra gente parece meio complexo comprar música pela internet, mas na gringa eu vejo que isso já rola. Tem gente escutando som pelo eMusic, por exemplo. Você paga 20 dólares por mês e se mata de baixar disco. É o futuro, não tem como fugir. Acho que pegar música de acervo não seja pirataria, e sim um modo de educar as próximas gerações a escutar música boa. O formato de venda funciona com discos novos. Logo que você lança, tem uma procura, e se você trabalhar direito consegue fazer uma venda. Funciona muito mais pra bandas que têm a prioridade na música, não na estética. Claro que ainda tem que fazer uma cota mínima de CD, mas nossas conversas vão por esses caminhos. A música digital fez com que eu me desprendesse dos meus discos. Você abre um iTunes e vê que consegue ouvir um ano inteiro de música sem repetir nenhum som. (Risos)

Hoje em dia banda brasileira que canta em inglês não é muito bem vista...

Quando o Jello Biafra veio pro Brasil, ele pediu uma demo nossa e falou que o problema é que o nosso nome é na verdade um estilo. O estilo "garage fuzz" existe na gringa. Justamente por causa disso, a gente não mandou porra nenhuma. O lance de cantar em inglês é porque a gente até escutava hardcore em português, mas as bandas que faziam a nossa cabeça eram australianas, da Inglaterra, dos Estados Unidos. Além disso, não tinha essa "polícia" na época ditando que você tinha que cantar em português. A gente ouvia Pixies, Dinosaur Jr., Sonic Youth, Nirvana... A letra não era o mais importante, e sim a música. Não que seja algo descartável, claro. Quando surgiu o Raimundos, houve até quem dissesse que, se cantasse em português, a gente teria mais chances no mercado, mas a gente optou por continuar. E vai ser sempre assim. Acho que eu não mudaria, e nem a banda optaria por isso. Gosto de bandas nacionais que vieram dessa cena, mas que criaram outros projetos pra cantar em português, tipo Hurtmold, Polara. A mesma banda que cantava em inglês cantar em português acho que fica meio artificial.

Você já fez algo em português?

Em 94 a gente cantou uma marchinha de carnaval que ficou ridícula, foi a coisa mais horrível que a gente fez. Talvez se eu montasse um projeto novo eu cantaria em português, mas não sei.  Recentemente, a gente tava viajando na Califórnia e ficou ouvindo música brasileira o tempo todo, coisas obscuras nacionais, como Arthur Verocai, e dava sempre aquela sensação de que estávamos fazendo uma pesquisa musical mais do que escutando música - eu não estou zoando, eu gosto. Teve um outro dia lá que eu estava em uma mostra e tava tocando um Chico Buarque e de repente entrou um cara e tocou Van Halen e parecia que a música brasileira é que era estrangeira. Cresci naquela época dos anos 80 que rolava uma massificação do mercado americano na rádio.

Falando em mercado nacional e cantar em português, gostaria de esclarecer uma lenda: é verdade que o Charlie Brown Jr. certa vez tentou aliciar os guitarristas do Garage Fuzz?

Isso rolou. O Chorão já tentou também gravar a gente, numa época em que estava pensando em montar um selo. Há muito tempo, antes de o Fabrício entrar, o Champignon chegou a ir na minha casa com o Daniel, que era amigo dele, e tocou aquela "(Anesthesia) Pulling Teeth", do "Kill'Em All", do Metallica. A gente falou que ele era bom demais pra tocar com a gente. Não era zoeira. A gente ouvindo Sonic Youth e ele vem solar um Metallica. Era outra história. Depois eles começaram a falar da gente na mídia e, quando o guitarrista deles saiu, eles vieram conversar com o Nando, que não aceitou.

Com 19 anos de estrada, o Garage se meteu em muita roubada?

Gosto de um show que a gente tocou com o Wry em Sorocaba, em 1997, antes de gravar o "Turn the Page". O show foi em um barzinho bem estilo centro de cidade do interior e devia ter umas 30 pessoas. Até lembro que os caras ficaram se desculpando pela falta de público e a gente na boa. Era um monte de engradado de cerveja e a gente tocou o disco inteiro, antes de lançar, naquela noite fria de sábado. Essas coisas que eu acho que vão marcando. Tipo a molecada de João Pessoa que espera até 4 horas da manhã para ver um show do Garage. Tocar com o Fugazi também foi legal, com o Seaweed, Samiam... Essas turnês com bandas que a gente tinha como influência acrescentaram bastante na nossa vida até para desmistificar um monte de coisa. A gente ia vendo que não era tão diferente de coisa que a gente faz aqui.

Vocês foram talvez a atração mais falada do Festival JuntaTribo em 1994.

De tarde, antes do show, teve uma entrevista e acho que naquela época nosso nível de sarcasmo estava alto e eu disse que nosso som era uma mistura de Bad Religion com Scorpions (risos). Então acho que os punks acharam que a gente era "uns comédias" quando na real a gente tinha passado da parte panfletária há pelo menos uns dez anos. Fizemos um cover de Exploited e tacaram lata, ficamos acuados e tocamos o set inteiro. Mas foi bom por dois motivos: para amaciar o couro para o que vinha pela frente e também essa ação ofuscou o lance positivo das bandas que fizeram shows bons e no lugar deram mídia só para nós por causa disso. Saiu em todos os jornais.



 

Saiba mais:

myspace.com/garagefuzz