(Entrevista publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
O Soul Profundo de Aloe Blacc
Por Daniel Tamenpi . Colaboração de Rudah Ribeiro . Fotos Dan Monick
Aloe Blacc destacou-se no começo dos anos 00, ao lado do produtor Exile, no Emanon, um dos principais grupos do chamado indie rap. Em 2006, caiu nas graças da Stones Throw, lançando-se em carreira solo como cantor de soul e R&B no disco' "Shine Through". Hoje, é um dos principais destaques do selo com o excelente "Good Things", produzido por Leon Michels (do El Michels Affair, Menaham Street Band, The Dap Kings e outros), que traz uma das melhores tracks do ano, "I Need A Dollar". A música tornou-se tema da nova série da HBO, "How To Make It In America", e hit no mundo todo com dezenas de remixes. Multi-instrumentista, produtor, cantor e MC, Aloe Blacc nasceu na Califórnia, mas carrega com orgulho suas raízes panamenhas, sempre mesclando versos em espanhol em suas canções. Fã devoto da música brasileira, o cantor conversou com a SOMA antes de embarcar para uma turnê europeia, e já de olho em shows no Brasil.
Acompanho seu trabalho desde a parceria com o Exile no Emanon, em que você tinha um papel mais de MC. Como foi esse processo de mudança de rimador pra cantor de soul clássico?
A mudança aconteceu aos poucos, com o passar do tempo. Eu costumava acrescentar melodias a algumas rimas e refrões nas músicas do Emanom. Mas foram as melodias vocais que gravei com o Oh No que chamaram a atenção da Stones Throw. Eles me escalaram como cantor e eu lancei "Shine Through", quase sem rimas e bem pesado nas melodias.
Como começou a sua relação com a música e posteriormente com o hip-hop?
Toco trompete e escrevo rimas desde os 9 anos de idade. Quando conheci o Exile, no colegial, comecei a gravar músicas e produzir minhas próprias faixas também. Criamos uma mixtape chamada "Imaginary Friends" nessa época, que correu o mundo e nos ajudou a ganhar reconhecimento internacional.
O Emanon era um grupo independente, em que você e o Exile faziam tudo. Como é ser independente nos Estados Unidos, e quais são as principais diferenças agora que você tem uma base na Stones Throw?
Acho que ser independente é a melhor maneira de começar a carreira na música. Você tem que se esforçar muito, mas isso foi natural pra mim, porque desde os tempos da escola a música sempre foi o meu hobby. Trabalhar como um artista contratado tem algumas diferenças e vantagens, porque existe uma equipe de pessoas que ajuda na parte de marketing e até na preparação do lançamento dos álbuns, o que torna as coisas um pouco mais fáceis. Mas isso só funciona de verdade se a musica for boa.
E como aconteceu a sua entrada na Stones Throw?
Eu conheci o Oh No numa turnê pela Europa, e rolou uma sintonia muito boa. Começamos a gravar juntos quando voltamos pros Estados Unidos. Em seguida ele me convidou pra cantar no seu disco, e o Peanut Butter Wolf (o cabeça da Stones Throw) gostou do resultado. Ele me pediu pra gravar um single como cantor, indo mais pra essa pegada do soul.
"Ser independente é a melhor maneira de começar a carreira na música. (...) Trabalhar como artista contratado tem algumas diferenças e vantagens, porque existe uma equipe de pessoas que ajuda (...). Mas isso só funciona de verdade se a musica for boa."
O seu primeiro álbum, "Shine Through" tem um ecletismo muito grande, com referências latinas, brasileiras, jamaicanas e várias outras. Você acha que é um disco que definiu a musicalidade do Aloe Blacc?
Sim! Foi essa a minha intenção. Como era o meu primeiro álbum solo, mais pessoal, quis compartilhar muitas das minhas influências e ideias. É um disco que apresenta a minha personalidade musical pros ouvintes.
Você cita Tom Jobim e a bossa nova na faixa "Whole World", e homenageia Milton Nascimento em "Nascimento (Birth) - Scene II". Que importância tem a música brasileira na sua formação?
Passei bastante tempo ouvindo diferentes estilos da música brasileira e me tornei um fã de carteirinha. Admiro muito a paixão e o intelecto por trás da música de vocês. Os ritmos e as melodias formam combinações avançadas, que eu não escuto com frequência em outros estilos. Arthur Verocai e Jorge Ben estão no topo da minha lista de heróis musicais.
No disco "Shine Through" você se mostrou não só um cantor, mas também um produtor de talento. Por que demorou tanto pra expor essa faceta?
Eu sempre produzi, desde quando comecei a fazer rap, mas no Emanon o Exile era o produtor e eu o MC. Ao longo dos anos, criei músicas que nunca lancei. "Shine Through" é uma compilação do meu trabalho ao longo desse período.
Suas raízes são latinas, e você mostra isso nas músicas. Por que você faz questão de manter isso no seu trabalho?
Nos Estados Unidos, todos são de algum outro lugar. Nossos ancestrais são imigrantes, seja pela escravidão forçada ou pela fuga da opressão. Acho importante compartilhar essas raízes como uma marca cultural para os fãs, que podem aprender algo novo. Meus pais deixaram o Panamá pra buscar uma vida melhor, mas, apesar de o movimento pelos direitos civis terem tornado as coisas mais fáceis pros negros, isso não se estendeu pra além das fronteiras do sul.
O processo de escrita entre rimas e canções é diferente. Como funciona isso pra você?
Acho que gastar um tempo pra aprender a compor músicas de verdade fez de mim um um MC melhor. Eu e o Exile estamos pra lançar um novo álbum do Emanon, chamado "Birds Eye View", em que faço os dois estilos na mesma escala, em rimas e canções.
Na minha opinião, "I Need A Dollar" é a melhor track de 2010 até o momento. A letra fala sobre sentimentos relacionados ao desemprego e a falta de esperança pro futuro. Qual foi a sua inspiração na hora de compor?
A minha inspiração foi o espírito negro do sul dos Estados Unidos. Eu estava escutando muitas músicas de chain gang workers (prisioneiros que tinham como punição trabalhar acorrentados uns aos outros em serviços braçais pesados), que criavam as suas canções de trabalho a partir de hinos religiosos. As letras são bem pessoais também. Eu tinha acabado de perder o meu emprego de consultor de negócios em uma empresa. Juntei todos esses sentimentos e saiu esse som.
Como rolou de ela virar tema da série "How To Make It In America", da HBO? Você acha que o seu trabalho ganhou mais visibilidade depois disso?
Na verdade, o disco "Good Things" já estava gravado e finalizado fazia alguns meses. A HBO entrou em contato com a Stones Throw procurando uma música. A partir de uma compilação de artistas do selo, eles selecionaram "I Need a Dollar". Foi ótimo! Com certeza meu trabalho ganhou mais destaque depois disso, nos Estados Unidos e também nos outros países onde a série está sendo exibida. Eu gosto do programa, e acho que os brasileiros vão gostar também.
O seu novo disco foi produzido pelo Leon Michels e pelo pessoal da Truth & Soul Records, que, apesar de ter o hip-hop como influência, são músicos e produtores com outra linha de pensamento. Como foi trabalhar com eles?
Foi muito fácil. Eles têm um ótimo conhecimento sobre a música soul e seus diversos estilos, além de estarem fazendo grandes trabalhos nos últimos anos. Acho que o som que fizemos juntos é clássico e atemporal.
Tanto o "Shine Through" como o "Good Things" não foram lançados oficialmente no Brasil. As pessoas conhecem os seus discos através dos downloads ilegais na internet. Ao mesmo tempo, a Stones Throw é uma das gravadoras que mais combatem esse tipo de divulgação. Qual é a sua opinião a respeito disso?
Seria melhor que as pessoas achassem uma forma de comprar as músicas, mas, se não tem distribuição, então tudo bem. O que eu quero é fazer as pessoas ouvirem e gostarem da minha música. No fim, a indústria e os consumidores vão acabar desenvolvendo uma relação de trabalho positiva, que vai permitir que os artistas se sustentem e que os fãs curtam a música de uma maneira acessível. Acho que, talvez, no futuro, a música vai ser grátis pro público e paga pelos anunciantes.
Como fã do Brasil e da nossa música, você já tem alguma previsão de quando vai vir ao país?
Estou ansioso para visitar o Brasil. Espero que um promoter entre em contato comigo pra fazer shows, porque a música soul é amada em todos os lugares, e eu quero mantê-la viva. O meu objetivo é, além de cantar as minhas composições, difundir a música dos grandes artistas do soul que não estão mais vivos, como Marvin Gaye, Donny Hathaway e Sam Cooke.
Saiba mais:
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