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Tue: 11-23-10

+Entrevista: Jim Avignon, por Raquel Setz

(Entrevista publicada na +Soma 20 Out-Nov 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)    

Jim Avignon
Artista/Fingidor

Por Raquel Setz . Fotos por Fernando Ferreira Martins

Depois de dez minutos de entrevista com o artista alemão Jim Avignon, em passagem por São Paulo para expor no evento MCD Lab #2, ele confessou que talvez estivesse mentindo. Não foi exatamente uma surpresa: pesquisando sobre ele, encontrei duas ou três versões diferentes de como se tornou artista e por que adotou um codinome francês - e uma delas parecia bastante fantasiosa. Mas, conforme a entrevista seguia, fui me encantando com sua simpatia e seu espírito leve, e ficou difícil acreditar que ele poderia estar tirando uma com a minha cara. Senti que Jim mais omite do que mente - ao não dar respostas completas sobre tudo, cria pedaços de realidade que parecem conflitantes e até absurdos. Porém, se conseguirmos coletar e encaixar todos esses fragmentos, vemos que eles formam uma história consistente. Assim, depois de mais de uma hora de conversa (que flutuou por temas como mercado de arte, morte e Kraftwerk), creio ter descoberto a verdadeira história de Jim Avignon. Ou uma deliciosa mentira.

Você diz que sua inspiração vem do que vê nas ruas, no metrô. Viu alguma coisa que te inspirou aqui em São Paulo?

Para ser sincero, desta vez ainda não tive tempo de ver nada. Mas, quando estive aqui dois anos atrás, fiquei dez dias, andei bastante. E o que vi naquela época continua sendo uma inspiração.

Conheceu a arte de rua de São Paulo?

Visitei algumas galerias, a Choque Cultural. E só de caminhar pela cidade você vê a arte de rua. Aqui vocês têm um jeito muito particular de desenhar sinais (pichações), que não vi em nenhum outro lugar do mundo. É muito especial. Acho triste a linguagem da arte de rua ter se tornado a mesma em todos os lugares.

Você faz arte de rua?

Fiz um pouco em Berlim. Até pintei o Muro quando ele ainda existia.

Como era viver em Berlim quando o Muro estava lá?

Isso pode soar estranho para você, mas todo mundo que estava em Berlim quando havia o Muro aproveitou o momento. Não era uma cidade de negócios, não dava para ficar rico, mas se você fosse para Berlim não precisava servir o exército e até podia ganhar um dinheiro extra do governo. Muitas pessoas livres, muitos artistas, iam para lá e curtiam o fato de ter um muro em volta da cidade, mantendo-as afastadas de todo o resto, da vida da qual elas não gostavam.

As autoridades deixavam pintar o Muro?

Nem ligavam. Berlim nos anos 80 era um "faça o que quiser", tanto que metade das casas eram squats (imóveis abandonados que são ocupados pela população).

Quais artistas e bandas surgidos em Berlim naquela época você considera especiais?

Berlim era o QG de muitas bandas punk e new wave. Havia uma atitude de que, quanto menos você soubesse tocar um instrumento, melhor. As pessoas experimentavam muito e faziam coisas novas. No começo dos anos 90, Berlim era a capital da música eletrônica. Havia muitos espaços vazios que você podia transformar em clubes: era só alugar um lugar grande por quase nada, montar um bar, convidar uns DJs e fazer uma festa. Por quase dez anos foi possível fazer isso sem enfrentar nenhum problema legal.

Você começou a pintar em casas noturnas.

Sim.

Li que antes disso trabalhou com pessoas idosas.

Virar artista não era a minha ideia desde o início. Trabalhei em um hospital para pessoas idosas. Eu gostava desse trabalho. Elas tinham todo o suporte técnico e médico, mas estavam totalmente entediadas, nada acontecia em suas vidas. Minha parte era dar um pouco de diversão a elas. Mas tive problemas com meu chefe e fui demitido. Me mudei para Colônia e comecei a desenhar. Aí aconteceu um acidente. Eu frequentava um bar por lá, e o dono me disse: "Merda! Um artista me prometeu uma exposição, mas desapareceu". E eu falei: "Posso montar uma exposição em dois dias". Fui para casa, fiz dez pinturas grandes, levei para o bar e pendurei nas paredes. Por coincidência, era época da Feira de Arte de Colônia. Um cara foi ao bar e comprou todas as pinturas. Quando fui até lá de novo, pensei que tivessem tirado os quadros. Então o dono me disse: "Vendi tudo. Está aqui o seu dinheiro". Me sustentei por seis meses com essa grana. Pensei: "Talvez esse seja um jeito de viver do qual eu possa gostar", e continuei.

Em uma entrevista, você disse que quando era mais novo mentia sobre o lugar onde tinha nascido...

(Interrompendo) Eu ainda minto! Quando respondo a uma pergunta sobre minha vida artística, tento ser sério, mas quando é sobre minha vida pessoal - que é algo completamente distinto -, posso criar identidades falsas. O fato de ter nascido aqui, ali ou acolá não interfere no meu trabalho. Se você pesquisar na internet, vai achar dez lugares diferentes onde nasci, dez idades diferentes. Eu gosto disso. Porque às vezes você lê sobre alguém e cinco minutos depois já sabe tudo sobre a pessoa. Gosto de ser um pouco misterioso.

Talvez você esteja mentindo para mim.

Sim, talvez.

Gostaria de conversar sobre seu conceito de "cheap art" (arte barata). Não sei como é na Europa, mas aqui no Brasil muitas pessoas compram obras não porque gostam de arte, mas porque querem fazer um investimento.

Acho que é assim no mundo todo. Acredito que a arte é bela demais para ser só um investimento. A arte deve servir as pessoas. Às vezes faço coisas de graça. Fiz uma instalação que era uma cabine de fotografia. A pessoa entrava e eu fazia um desenho dela. Escaneava a imagem e mandava para a impressora. Em cinco minutos, o desenho saía pela máquina. Às vezes faço coisas que custam 20 euros. Não sei por quanto tempo vou conseguir continuar, porque tenho que trabalhar dez vezes mais do que teria se vendesse por um preço alto. Mas gosto da ideia de que a maioria das pessoas que compra minhas obras não tem muito dinheiro. Elas compram porque gostam, não como investimento.

Em 1992, na Documenta de Kassel, você fazia uma pintura por dia e as destruía no fim da tarde. Qual era o significado por trás disso?

A Documenta é um dos raros eventos em que pessoas que não têm ligação com o meio artístico veem o que está acontecendo no mundo da arte. Não é uma coisa comercial. As pessoas geralmente não entendem de obras de arte, sabem apenas que são muito caras. Então começam a se sentir inferiores, pequenas e burras. Acredito que todas todos têm a capacidade de ver a beleza de uma obra de arte, mas muitas se sentem inferiores e burros e acabam não deixando o coração entender. Foi uma ideia simplória, a minha, mas queria fazer algo que criasse valor comercial e logo suprimisse esse valor. A ideia da pintura ficou na mente das pessoas, e elas puderam levar pedaços como souvenirs. A mensagem era: "Aqui está alguém que não quer criar valor, quer te contar algo". E as pessoas podiam participar, pular nas obras.

Elas se divertiram destruindo as pinturas.

Durante alguns anos depois disso, toda vez que eu ia fazer uma exposição, alguém me perguntava se ia destruir minhas obras no final. Não sou um destruidor, e inclusive odeio isso, mas naquela época usei esse expediente para mostrar como é idiota ver apenas o valor comercial na arte.

Como você trabalha? Tem assistentes? Faz diversas pinturas simultaneamente?

Não tenho assistentes. Sempre esperei que alguém pedisse para ser meu assistente, mas isso nunca aconteceu. Eu trabalho em séries. Quando planejo uma exposição, gosto de fazer tudo novo, não uso pinturas antigas. E quero que os trabalhos estejam em uma mesma família de cores. Rascunho as imagens e então uso as mesmas cores em todas as pinturas, para que elas combinem entre si.

Existem alguns elementos que aparecem muito em seus trabalhos, como o esqueleto. Há algum significado especial nisso?

É um personagem que representa a morte, ou a possibilidade da morte.

Mas ele está sempre sorrindo.

Significa que você não deveria temer a morte. Minhas imagens mostram um mundo não tão divertido de um jeito divertido. Talvez seja uma comparação besta, mas é meio como os filmes do Charles Chaplin. Espero que minhas obras possam fazer as pessoas sorrirem ou rirem dos problemas que têm na vida.

Em uma outra entrevista, você disse que, quando faz uma obra, considera mais importante tirar uma foto dela e colocar num livro do que manter o original.

Para mim, a beleza está mais na ideia da pintura do que na pintura em si. Eu não vou ao estúdio, olho uma tela em branco e tudo se torna mágico. Isso nunca acontece comigo. Eu curto o momento em que observo o mundo, vejo algo aqui e algo completamente diferente ali, estabeleço uma relação entre as duas coisas e isso se torna a ideia para uma pintura. Esse é o momento de beleza. E eu não vendo isso, vendo a pintura na qual essa ideia foi re-trabalhada. Nunca fico triste porque o quadro tem que ir embora.

Me conte sobre seu trabalho com música, a one-man band Neoangin.

Comecei essa banda no fim dos anos 90, em um momento de crise com a pintura. Mas imaginei que fosse durar só algumas semanas. Eu combino música e arte, levo obras para o palco, e meus shows parecem pinturas animadas com música. Muitos dizem que minhas canções são como meus quadros: alegres e divertidas, mas também tristes.

Você compõe tão rápido quanto pinta?

Sim. Colocando a coisa de um modo negativo: eu não consigo me concentrar e continuar trabalhando em uma mesma coisa. Assim que faço uma música, esqueço completamente dela e já vou para uma nova.

Neoangin é o nome de uma pastilha para tosse?

É. As pessoas tomavam muitas drogas quando iam aos clubes e eu nunca usei nada. Então, como ironia, eu carregava essas pastilhas e dizia: "A minha pílula é a maior. Você tem esse ecstasy pequeno? Eu tenho um grande!" Elas são grandes, vermelhas e doces, e não dão barato nenhum.

Que estilo de música você ouve? Quais são suas bandas e artistas favoritos?

Isso muda muito. Gosto do Jonathan Richman. Ele tem quase 60 anos e começou a fazer música punk em 1972, quando todos estavam fazendo rock progressivo riponga. Ele é muito divertido no palco. Gosto do Kid Koala, que faz um hip-hop engraçado, Devendra Banhart...

E Kratfwerk, Can, krautrock?

É muito drama para mim. O Kraftwerk teve momentos incríveis nos anos 70, mas hoje eles parecem personagens de desenho animado. Posso rir deles, curtir, mas o modo como se levam a sério me faz querer fugir. O Can também fez álbuns ótimos nos anos 70, mas conheci alguns de seus integrantes e hoje eles são freaks. Gosto mais da música quando acho que gostaria de conhecer a pessoa que a fez e conversar com ela. E com alguns artistas alemães sinto que a conversa não seria nada divertida.

Quando você esteve em São Paulo dois anos atrás, um canal de TV perguntou o porquê do nome Jim Avignon. E você respondeu que estava em Avignon sem dinheiro nenhum e começou a copiar pinturas de Dalí para vender.

É verdade.

É verdade?! Mesmo?

Sim. Aprendi na escola que sou muito bom de desenho. Sei copiar. Em um aniversário, copiei minhas quinze pinturas favoritas feitas por outros artistas. Com a música é o oposto: para fazer um cover, tenho que ficar horas procurando os acordes.
Passei três meses na França depois de terminar o colégio. Aí meu carro quebrou e eu não tinha dinheiro para voltar. Não queria ligar para os meus pais, mas também não queria arrumar um emprego. Eu tinha comprado um livro com as pinturas do Dalí e comecei a reproduzir a imagens. Havia muitos turistas em Avignon, então consegui uma grana.

Foi antes de começar a pintar em clubes?

Sim. Eu tinha 19 anos. Só fui pintar novamente dois anos depois. Voltei para a Alemanha e trabalhei nesse hospital para idosos. Escrevi contos sobre isso e publiquei como um fanzine em uma loja de livros alternativos. Só que não queria assinar com meu nome verdadeiro. Achei que poderia ter problemas, porque eu falava sobre meu trabalho de um jeito punk: contava que tinha que limpar merda, que ia bêbado. Então assinei como Jim Avignon. Um jornal descobriu esse livro, fez uma matéria grande e meu chefe leu. Foi assim que perdi o emprego.

Mas como ele soube que era você?

Porque no livro eu coloquei o nome do lugar onde trabalhava, então foi muito fácil descobrir que era eu. A partir daí comecei a usar o nome Jim Avignon: primeiro como escritor, depois como pintor.

Saiba mais:
www.jimavignon.com

Jim Avignon veio ao Brasil em outubro participar do MCD Lab 2 /Blind Date Berlim, que contou com curadoria Bungalow e +Soma