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Wed: 11-17-10

Futurível: Gil + Macaco Bong

Por Raquel Setz . Fotos por Alisson Louback

Letra de ponto de terreiro cantada em estilo rap sobre uma base rítmica de maracatu acompanhada por guitarra, baixo e metais. Ao fundo, projeções de vídeo misturando imagens de um grupo de samba de coco, símbolos do candomblé e grafismos psicodélicos. Logo na primeira música (executada por DJ Tudo e Sua Gente de Todo Lugar com participação da atriz Paula Pretta nos vocais), o show Futurível mostrou que o que se veria no palco do Auditório Ibirapuera naquele domingo nublado de véspera de feriado não seria apenas uma série de apresentações musicais, seria uma verdadeira apoteose tropicalista. Idealizado por um dos pais do movimento, Gilberto Gil, Futurível marcou o encerramento do Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia ao mesmo tempo em que abriu o II Fórum da Cultura Digital Brasileira. Além de provar que a misturança defendida pela Tropicália no fim dos anos 60 é a realidade concreta da cultura brasileira em 2010.

Acompanhado por DJ Tudo e Sua Gente de Todo Lugar, Gil subiu ao palco e cantou a emblemática ‘Chiclete com Banana'. No meio da música, um som diferente começou a brotar da plateia: era a Banda de Pife Princesa do Agreste, tradicional grupo de música regional de Caruaru, que vinha se atrelar à geleia geral e emendar a bela ‘O canto da ema'. Depois, a Banda de Pife ficou sozinha sobre o palco, apresentando suas próprias composições e contando as histórias curiosas e engraçadas que havia por trás de cada uma delas. Era lindo ver o VJ Scan dançando empolgado atrás de seu laptop. Futuro e passado se encontrando no presente e ainda fazendo a maior farra. Um dos melhores momentos de Futurível foi em ‘Briga do cachorro com a onça'. Começou como mais uma música tradicional da Banda de Pife, até que DJ Tudo e cia. voltaram, e a guitarra elétrica de um se fundiu tão bem com os pifes e a percussão do outro que deixaria qualquer nacionalista purista (eles ainda existem?) roxo de vergonha.

Em seguida, foi a vez do Macaco Bong dar as caras. O trio de rock instrumental de Cuiabá é, atualmente, a banda que acompanha Gilberto Gil. Mas seria injusto chamar o Macaco Bong de banda de apoio. O trabalho desenvolvido com Gil é muito mais de colaboração e parceria, tanto que clássicos como ‘Aquele Abraço' e ‘Cérebro Eletrônico' ganharam arranjos totalmente diferentes. Estão mais duros, sem o suíngue e a alegria dos originais. O que não é um problema, é apenas uma outra forma de se encarar o material musical - e que, inclusive, pode explicitar o conteúdo melancólico antes escondido atrás do arranjo festivo de ‘Aquele Abraço'. Teve também ‘Batmacumba', ‘Vitrines', ‘Palco' e ‘Essa é pra tocar no rádio', executadas com várias formações diferentes: ora a banda de rock era acompanhada por pifes, ora por percussão e metais, ora só pelas palmas da plateia.

No fim, todo mundo se juntou para fechar a noite com uma música instrumental. Peraí, fechar a noite? Nada... a Banda de Pifes ainda saiu em cortejo pelo auditório e a folia acabou em uma linda ciranda no hall da construção projetada por Niemeyer. Brasil é isso aí. E aquilo outro também.