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Fri: 11-12-10

+Entrevista: Thomas Campbell, por Lucas Pexão

(Entrevista publicada na +Soma 19/Sep-Out 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)   

Escavador Positivo
Uma entrevista com Thomas Campbell

Por Lucas Pexão . Retrato Flávio Samelo

Quando surgiu a possibilidade de trazer artistas americanos para a edição paulistana da TRANSFER, mostra da qual sou curador, Thomas Campbell estava no topo da minha lista, assim como na do co-curador americano Christian Strike, um dos criadores da exposição itinerante Beautiful Losers (um dos eixos temáticos da TRANSFER). Ambos concordamos: Campbell é um dos principais expoentes de toda uma nova geração de artistas. Amo sua arte, sem dúvida, mas o mais interessante de tê-lo em um projeto sobre arte urbana e contemporânea, passando por skate e pelo espírito Do It Yourself, talvez seja o seu pioneirismo e a sua identificação com o universo abordado pela exposição.

Thomas Campbell é um skatista californiano que fazia fanzines e foi parar na redação da "Transworld Skateboarding", a maior revista de skate do mundo (pelo menos durante o fim dos anos 80 e a década de 90, período em que trabalhou lá). Da redação, passou à fotografia e entrou para o time dos escritores-fotógrafos da revista, viajando pelo mundo para produzir conteúdo de skate para as páginas da revista e influenciar gente de todo o planeta, pois a "Transworld" tinha uma forte distribuição internacional. Vale notar que seus textos raramente falavam de aspectos atléticos do skate, e sua fotografia sempre ia muito além das manobras, com paisagens que aproximavam a revista de uma "National Geographic".

O estilo de reportagem de Thomas e seus amigos ia do diário, escrito na primeira pessoa, a textos mais literários, na pegada do jornalismo Gonzo (Hunter S. Thompson, via C. R. Stecyk III), ilustrados por imagens fascinantes de jovens aproveitando a vida e quebrando as regras. Ainda nesse período, Campbell fundou o selo de música independente Galaxia, para difundir ele mesmo a música de seus amigos, entre eles skatistas-músicos como Tommy Guerrero e Ray Barbee. Na Galaxia, ele e outros amigos, como Margaret Kilgallen (RIP) e Barry McGee, criavam as artes para as capas dos discos.

Paralelamente, Thomas começou a fazer suas primeiras exposições de arte, com fotos, pinturas e esculturas, na mítica Alleged, galeria independente de Aaron Rose em Nova York e embrião da megaexposição itinerante e do documentário "Beautiful Losers". Seu trabalho como cineasta também partiu de uma relação da fotografia com o skate, principalmente com "A Love Supreme", um retrato em movimento do skate na Nova York de 1995 ao som de duas das músicas mais importantes da história do jazz, "Acknowlegement" e "Resolution", do disco ‘A Love Supreme" (daí o nome), gravado em 1964 pelo quarteto de John Coltrane. O filme foi patrocinado pela hoje famosa Supreme Skateshop, o que também é um bom indício da maneira particular e bem-sucedida como Campbell obtém patrocínios para seus projetos.

Além de morar em diferentes cidades (incluindo Nova York) e países (como Marrocos e Espanha), e de vagar pela Europa e Oceania, Thomas Campbell também conheceu muitos lugares viajando em função do skate, do surfe ou da arte, como Madagascar, Indonésia, Sri Lanka e África do Sul. Atualmente, está afastado da indústria do skate e encontrou na arte contemporânea e seu mercado uma via confortável para seguir criando. Como artista, pôde manter todas as suas pesquisas e seus experimentos ao mesmo tempo, pontuando sua trajetória com exposições como Sing Ding Aling, no museu holandês Het Domien, em 2006, onde mostrou suas pinturas, suas esculturas, seus trabalhos em tecido e suas fotos e seus filmes, além de transportar seu ateliê inteiro da Califórnia para colocá-lo no espaço expositivo na forma de uma instalação (todo o processo está registrado no belo livro de mesmo nome, lançado pelo museu).

Conversei com ele por telefone algumas semanas depois de sua passagem por São Paulo, onde fez uma instalação complexa como representante beautiful loser da TRANSFER, e por San Francisco, onde esteve fazendo a mixagem do novo disco da banda Mattson 2, que será lançado em breve pela Galaxia. Campbell estava de volta a sua casa, em Santa Cruz, perto de uma floresta, onde fica seu ateliê-garagem entulhado de obras, fotos, pranchas de skate e surfe e, em frente, uma pequena rampa de skate.

Minha primeira dúvida era sobre sua relação com a música e o seu selo. Ele explicou que mantém a Galaxia há mais de uma década, praticamente sem ganhar nem perder dinheiro, com um grande suporte do público japonês. Sobre sua função, além de escolhas de bandas, discos e artes: "Eu dirijo o fluxo. Meu trabalho é dirigir o ônibus sonoro até o lugar em que a música soe bem. Tenho uma visão externa. Às vezes os músicos estão tão mergulhados nas suas composições que não conseguem entender o que está acontecendo.

De fora eu consigo dizer, ‘cara, isso tá chato'." Esse processo aparece bem no DVD "How Did", que acompanha o disco "Ray Barbbee meets The Mattson 2" (Galaxia, 2008). Além de um making of do álbum, o filme mostra como Thomas encontrou esses prodígios do jazz que, não por acaso, são irmãos de Micah Mattson, assistente do artista que veio ao Brasil ajudar na sua instalação para TRANSFER. Detalhe: antes de se quebrar todo, Micah era integrante da equipe Zero Skateboards (ele aparece nos dois primeiros vídeos da marca).

Eu também queria entender a transição do escritor para o artista visual. "Escrever é usar outro motor, diferente de pintar. Escrever de verdade. Eu ainda escrevo, gosto muito de escrever cartas, mais líricas, com fluxo livre de pensamento. Não escrevo mais histórias como escrevia antes. Na minha melhor fase, no contexto de escrever para revistas, foi um período interessante. Quando você está no seu melhor momento em algo, é porque está praticando bastante. Gosto do estilo com que as pessoas escrevem em revistas de skate nos Estados Unidos, principalmente na época em que eu estava fazendo isso."

Ainda assim, suas pinturas e esculturas carregam palavras e pequenas frases, muitas vezes dentro de algo como balões de histórias em quadrinhos se projetando da testa ("terceiro olho") de seus personagens. Sobre essa possível relação, ele conta: "Nunca pensei nisso. As HQs que eu fiz eram tão horríveis que eu tento esquecer. Estou interessado em arte que carrega emoções e ideias. Às vezes, a melhor maneira de comunicar pensamentos, ajudar as pessoas a se movimentarem com o trabalho, é incluir texto. Não entregar tudo, mas jogar com frases e palavras que façam as pessoas ter um diálogo consigo mesmas. Por outro lado, também acontece um diálogo comigo mesmo."

Quanto à ideia de narrativa em sua produção, outra possível relação com os quadrinhos, ele comenta: "Sempre penso em narrativas no meu trabalho. Minhas ideias são como placas de estrada. Afirmações curtas, ou movimentos que criam um processo de pensamento. É mais como uma ideia que faz referência ou examina a si mesma". Essas "placas" podem dizer para olhar a sua volta, aproveitar os amigos, aproveitar o mar e seguir em frente. Definitivamente, as afirmações de sua arte são positivas.

O universo paralelo de Campbell, ou T. Moe (ou T. Muck, etc), como geralmente assina, emana energia positiva, impulsionada por um enorme sentimento de gratidão por estar vivo. "Sou grato por ter uma conexão com a natureza e observar sua profundidade. Isso me inspira muito. É meio psicodélico. Se você se abre a essa percepção, é algo além da compreensão (risos)." Sobre a transposição desse sentimento para sua produção, ele comenta: "Acho que um dos meus trabalhos como artista é refletir coisas para mim e para as pessoas. Tento ser um minerador. Um escavador de afirmações positivas. Ver o mistério da vida e mostrar os pontos positivos. Ser negativo é muito fácil. Ser positivo, tentar evocar um movimento positivo, é provavelmente uma das coisas mais difíceis que você pode fazer."

A percepção de Campbell é claramente influenciada pela convivência com a imensidão do oceano, pelo ato de navegar sobre ondas em uma longa prancha, assim como contemplar e registrar o lado mais artístico da performance do surfe. Nos últimos anos, Campbell deu mais atenção para essa que é uma de suas raízes e fez três filmes de surfe, "The Seedling" (1999), "Sprout" (2004) e "The Present" (2009), sempre embalados pelo melhor som instrumental da Galaxia.

A maneira de olhar e registrar a vida na Terra, sempre chamando atenção para a beleza e os aspectos positivos de estar vivo e, como ser humano, poder desfrutar do planeta, às vezes me fazem pensar em Thomas Campbell como um alienígena (não, ele não é verde). "Sempre pensei nos humanos como um tipo de experiência. Qualquer coisa que você imagine que possa existir no universo provavelmente é possível. Possibilidades infinitas proporcionam possibilidades infinitas. Eu não me vejo como um alienígena, mas o que me empolga é não fazer parte da semana de trabalho padrão, do dia-a-dia." Ok, talvez a situação atual dos humanos é que não seja tão humana, e é isso que ele quer influenciar positivamente: "Meu trabalho, como artista, é refletir o que vejo, ou incorporar o que vejo no meu trabalho.

E o que vejo são muitas pessoas dentro de padrões profundos, formados por normas culturais. E também vejo um padrão muito intenso da existência natural. E um mundo incrivelmente diverso e profundo. Vejo que os padrões, as visões e as normas culturais da sociedade tendem a não perceber a profundidade do mistério do organismo, do planeta, do universo. Porque eles estão presos nos seus objetivos e suas preocupações monetárias. Eu não me sinto como um alienígena. Só estou olhando pela janela, que na verdade são meus olhos."

Então pergunto o que , na sua posição de ser humano com um ponto de vista singular, ele vê pela frente. "Sendo realista, o que eu vejo é que esse planeta está sempre em um ritmo de mudança constante. Acho que tem muita mudança pela frente. Um dia as reservas de petróleo vão acabar. Não podem durar pra sempre. Acho que as coisas vão ficar bem mais regionalizadas. A vida de cada um vai precisar ser mais centrada em torno de onde você mora. Cada um tem suas conclusões, cada um está em pontos diferentes de seus ciclos e processos de aprendizagem. Então é difícil ter uma ideia muito rígida de como as coisas poderiam melhorar. A Terra é tão diversa, tem tanta gente." Essa constatação levou nossa conversa para sua recente passagem pelo Brasil. "Ir a São Paulo, foi tipo ‘Cara, isso é insano, uma porrada de gente'. É fascinante. Isso abre sua cabeça ainda mais para pensar ‘Uau, quanta gente existe neste planeta'. É selvagem. Um organismo selvagem. É difícil fazer uma projeção do que seria certo para cada uma dessas pessoas. O que eu sei é que moro em uma floresta. Gosto da vibração de morar no campo. E para mim fica mais fácil ver a conexão com a natureza. Também gosto da energia das cidades, mas, para a vida diária, prefiro estar fora delas."
Ficamos flutuando entre assuntos, indo e voltando. Com Thomas Campbell as coisas avançam de uma maneira particular, relaxada e consciente de que todas as partes de cada processo devem ser aproveitadas. E agora? "Estou trabalhando em uma série nova de esculturas em bronze, usando porongos. Eu corto eles, coloco massa e outros materiais em cima e faço um molde. Vou ficar um tempo nas esculturas e pintando. Além disso, trabalho com uma marca, a Gravis, e estou fazendo um pequeno livro para eles com meus trabalhos dos últimos dez meses, provavelmente com fotos da TRANSFER."

Ele também contou do novo filme que está no forno, um aguardado retorno audiovisual ao skate na forma de road movie/documentário envolvendo piscinas vazias e encontros de diferentes gerações. Retorno como cineasta, pois o skate esteve sob seus pés ao longo de todo caminho até hoje, inclusive em São Paulo, onde foi um dos primeiros a experimentar e acertar manobras na arquitetura skatável da TRANSFER. E foi só lá no Parque Ibirapuera, onde acontece a exposição, que ele conseguiu andar, pois sua instalação ocupou 99% do tempo nessa primeira vinda ao Brasil.

O trabalho de Campbell foi uma grande cabeça de madeira pintada, com um "balão", também de madeira, suspenso por cabos onde se lê "fuck yeah", saindo do terceiro olho do personagem. Ali está a influência do oceano em suas pinceladas fluidas, as cores e formas orgânicas da natureza, as transições das rampas de skate de fundo de quintal, construídas com a melhor técnica aleatória de um skatista-marceneiro, e o prazer de fazer algo com os amigos, como o assistente Micah e o novo amigo artista/skatista/arquiteto brasileiro Mateus Grimm.
Um trabalho exaustivo, com acidentes de percurso (os cabos romperam e o "balão" se espatifou uma hora antes da abertura da exposição), mas que acabou dando certo e teve um processo de criação tão inspirador quanto seu resultado final. O que ficou de sua primeira passagem pelo Brasil é difícil de traduzir, mas é sem dúvida positivo.

 

Saiba mais:
www.thomascampbell-art.com