Por Raquel Setz
Os fãs de Itamar Assumpção podem respirar aliviados: a tão aguardada Caixa Preta será lançada ainda no fim desta semana. Além de todos os álbuns da carreira do artista, que faleceu em 2003, a caixa ainda trará dois discos de inéditas: ¨Pretobrás 2¨, produzido por Beto Villares, e ¨Pretobrás 3¨, produzido por Paulo Lepetit e gravado com a banda Isca de Polícia. E é ela quem iniciará os shows de lançamento da caixa. Na sexta-feira, dia 15 de outubro, sobe ao palco da choperia do Sesc Pompeia para apresentar o repertório integral do lendário disco de estreia de Itamar, “Beleléu Leléu Eu”. A formação atual da Isca conta com pessoas que tocaram com Itamar em diferentes épocas: Suzana Salles e Vange Milliet nos vocais, Luiz Chagas na guitarra, Lepetit no baixo, Marcos Costa na bateria e participação especial do guitarrista Jean Trad. A +Soma acompanhou um pedaço do ensaio, no qual o grupo tocou as inéditas “Anteontem” e “Tenho medo”, e aproveitou para bater um papo sobre os shows, o disco novo e o legado de Itamar.
Qual a importância do disco “Beleléu”, o que ele tem de especial na música brasileira?
Paulo: Ele continua moderno. Vanguarda é justamente isso: adiantado no tempo.
Suzana: A linguagem Isca ta lá já. Ali foi o começo de tudo: do jeito do Itamar de compor em cima da linha de baixo. E essa linguagem foi se desenvolvendo ao longo do tempo.
Chagas: Esse disco é o resumo do que viria.
Marcos: É cada vez mais prazeroso pra gente tocar esse repertório, porque a gente nunca toca igual. Tem essa estrutura, essa base, mas sempre tem alguma coisa que a gente faz diferente, existe uma liberdade pra criar em cima que é sensacional. A gente nunca vai enjoar de fazer esse trabalho, dá pra tocar esse repertório durante 60 anos.
Chagas: Porque é vivo.
Vange: Cada um lembra um pedaço de um arranjo da sua época e no final a gente acaba criando uma outra coisa que é um mix disso tudo.
Sobre o disco novo: o material que vocês tinham pra trabalhar em cima era de gravações do Itamar com violão?
Paulinho: Voz, violão e o clique.
Suzana: E tinha a alma.
Paulo: O jeito dele compor era muito modular, a base se repete sempre. A gente botava o clique, ele tocava um pouquinho e falava “Já deu, né? Agora você corta, põe em loop por três minutos e meio, quatro minutos”.
Vange: Esse jeito já rolava antes de existir loop. Quando a gente ia ensaiar para um show, ficava tocando, tocando, um mesmo pedaço e tendo ideias: “Ah, aqui podia ser assim, ali assado, a batera podia fazer tal coisa...”.
Chagas: E era assim no show também. Ele descia pra conversar com a plateia e a gente ficava meia hora tocando o mesmo pedaço. (risos)
Paulinho, quando você foi criar os arranjos você tentou imaginar como o Itamar faria ou fez o seu arranjo?
Suzana: Não precisa nem imaginar...
Paulo: Foram tantos anos trabalhando junto e se envolvendo, a linguagem foi sendo construída nesses anos. Só de ouvir o violão dele, a gente já enxerga os arranjos: o ritmo, as frases já estão lá.
Chagas: O Itamar chegava com o violão, tocava e a banda fazia o arranjo. Então foi idêntico, só com a diferença de que ele morreu há sete anos.
Marcos: Com o tempo a gente sabia mais ou menos como funcionava e as ideias vinham. Às vezes também ele vinha do nada e falava “Faz tal coisa”. E ficava um negócio genial. Aquilo sozinho ficava horrível, mas com a banda toda tocando junto ficava sensacional. Então era sempre uma surpresa.
Até hoje os ensaios da Isca têm essa mesma dinâmica?
Chagas: Têm. Ele (aponta pra Paulinho) faz o Itamar, tem o poder de veto. (risos) Depois que o Itamar morreu, fomos ensaiar eu, o Paulinho e o Gigante (Brazil, baterista que tocou na Isca e morreu em 2008). Foi a coisa mais engraçada do mundo: vieram os três meio tristes, de óculos, grisalhos. Pensei: “Eu vou cortar os pulsos, isso aqui ta um tédio”. Em dois minutos, éramos três moleques tocando.
Não é estranho tocar, ensaiar sem ele?
Vange: Não. Justamente porque já faz um tempo que a gente faz esse som sem ele, a gente não parou.
Paulo: Continuamos levando a obra. Não é aquela coisa “morreu, morreu. Acabou, ninguém mais toca”.
Chagas: Ou então toca igual. A gente podia tocar com nostalgia, mas não tem a menor nostalgia. O barato é que a gente sempre fala dele, sem querer: “O Itamar ia achar isso aqui uma merda. Ele ia reclamar disso aqui”.
Vange: E também tem um público novo. A gente não fica tocando pras pessoas que iam ver o show lá não sei quando. Vai uma molecadinha. Aliás, cansa de acontecer de virem perguntar: “Vocês têm disco?”. Porque é gente que não conhece, e pira naquele som como uma novidade.
Chagas: A gente tocou no Grazie a Dio e uma senhora falou pra Suzana que a gente era a melhor banda cover do Itamar que ela já viu. (risos) Aí ouviu-se da Lapa ela (Suzana) gritando: “Mas nós somos os originais!”.
Ouvi algumas músicas dos discos novos na página do SESC. O Pretobrás 3 é a Isca com o Itamar, o outro disco, produzido pelo Beto Villares, achei meio estranho...
Paulo: É uma outra linguagem, que eu achei bem bacana. São duas visões diferentes a partir de um material semelhante. Tem a minha, mais próxima, porque a gente conhecia...
Suzana: A gente acompanha toda historicidade, desenvolve o que já vinha sendo feito pelo Itamar desde o começo. E a outra é uma visão nova.
Chagas: Acho que o Beto nem chegou a conhecer pessoalmente o Itamar.
Paulo: Gosto muito do som dele. Essa visão completamente diferente vai levar a música do Itamar para um outro público.
Em quais artistas vocês conseguem perceber uma influência do Itamar Assumpção, um legado?
Paulo: Muitos. Desde Zeca Baleiro e Chico César, que assumem que tem influência, até a nova geração: os filhos do Chagas (Tulipa e Gustavo Ruiz), da Alzira Espíndola (Iara Rennó), do Itamar mesmo (Anelis Assumpção).
Chagas: Meu pai, que já faleceu, acompanhou tudo desde o começo. A primeira vez que ele ouviu Racionais ele falou: “Pô, agora eu tô entendendo o Itamar”, porque ele cantava sem melodia.
A música “Anteontem” tem uma letra engraçada/pesada. Essa outra também, que fala de medo. As letras desse disco novo são mais deprê?
Paulo: É porque grande parte dessas músicas foi feita quando o Itamar tinha acabado de passar por três operações. Então, no disco tem uma forte presença disso, mas sempre com humor.
Chagas: Nos shows, na hora da música “Anteontem”, a Elke Maravilha entrava vestida de morte, falando “Itamar, vim te pegar” e ele respondia: “Ainda não, tenho que tocar mais um pouco”. Todo mundo na plateia ficava estarrecido.
Vange: Mesmo esse verso “você não pega mais na minha mão” (da música “Tenho medo”) é porque ele sempre falava: “Na hora que a diretoria lá em cima chamar, não adianta pegar na mãozinha , não. Você vai sozinho”. A primeira vez que ele me falou isso, eu fiquei “Ai, credo!”. (risos)
Marcos: Mas pra quem não sabe da história da doença, essas músicas soam super leves. “Tenho medo” é uma música que é radiofônica pra caramba.
Vange: É uma música de amor.
O Jean até comentou das letras no ensaio. Não sei se você já conhecia..
Jean: Fiquei conhecendo agora. Achei muito pesado também, fiquei triste. Essas músicas são bem fortes. E ele tinha muito tato com as palavras, então ele te deixa pesado levemente. Pesa num grau que você flutua.
Chagas: Por esses dois discos de inéditas dá pra ver que ele era genial. A poesia dele é de poeta, não de letrista de música.
Suzana: Tem uma outra música bem emblemática no CD que é “Eu persigo São Paulo”. É uma confissão. Ele fala que “São Paulo é uma outra coisa/ não é amor exatamente/ é identificação absoluta, sou eu/ eu não me amo, mas eu me persigo/ Eu persigo São Paulo, eu persigo São Paulo/ E que bonita a palavra ‘perseguir’”.
Chagas: É tudo muito profundo. E aí ele começa a discutir sobre a palavra ‘perseguir’ no meio da música. É muito louco. Quem estudou as músicas dele, como o Luiz Tatit, diz que ele foi o primeiro compositor a fazer uma festa numa música: tem várias pessoas ali que se comunicam, dialogam (por isso que tem as cantoras) e a música muda. E então os discos começaram a ficar assim também. Depois não era um disco, era uma trilogia, e agora é uma obra.
Vange: Lembra uma época que ele estava encanadíssimo com o videodisco? Que era um negócio em que cabia muito mais música, bem antes do CD. Ele queria usar o máximo de tempo. e a gente falava: “Itamar, ninguém vai agüentar ouvir tanto”. Show também, ele não queria acabar. Os shows tinham duas partes, com intervalo no meio. O público saía extenuado, Zé Celso era fichinha.
Além de “Eu persigo São Paulo”, quais outras são as favoritas de vocês?
Chagas: “Devia ser proibido”, feita em parceria com a Alice Ruiz, pesa toneladas, porque você lembra do Leminski, lembra dele. A gente fez um show que, depois que acabava, aparecia um vídeo dele cantando. Todo mundo começou a chorar: a plateia, a gente em cima do palco. Mas todas as músicas são bem pop, e isso era já uma idéia dele.
Paulo: A primeira música, “Anteontem”, é uma explicação do CD. Teve que vir a morte pra dizer: “Você pode ser pop”. Na verdade, ele sempre foi pop. A complicação era nos arranjos, a música dele era muito simples. Mas ele dificultava, pra não fazer sucesso. (risos) Quando eu o conheci, no começo dos anos 80, ele falou: “Vou ser como o Cartola, vou fazer sucesso só depois que morrer”. E ele fez uma força danada pra isso.
15 . 10 . 2010
Isca de Polícia e Porcas Borboletas – com Lenine e Bnegão
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br/sesc
16 . 10 . 2010
Anelis Assumpção e Karina Buhr com Serena Assumpção, Arrigo Barnabé, Denise Assunção, Elke Maravilha
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br/sesc
23 . 10 . 2010
Orquídeas do Brasil e Mariela Santiago – com Alzira E., Tetê Espíndola e Chico César
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br/sesc
24 . 10 . 2010
Orquídeas do Brasil – com Jards Macalé e Zezé Motta
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br/sesc
29 . 10 . 2010
Andréia Dias, Kiko Dinucci e Beto Villares- com Arnaldo Antunes e Elza Soares
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br
30. 10 . 2010
Isca de Polícia – com Zélia Duncan e Naná Vasconcellos
Entrada . R$ 28 . 21h30
Sesc Pompeia . Rua Clélia 93 . Pompeia
Mais informações . www.sescsp.org.br/sesc