Por Marina Mantovanini
“Eu quase mudei de profissão porque achava muito difícil trabalhar no meio das artes plásticas. Arte é um saco. É uma competição, é só isso.” Foi esse sentimento que levou a artista plástica Mônica Nador, 54 anos, a largar o circuito fechado das artes para levantar uma outra bandeira: a da socialização das técnicas de pintura entre os moradores das periferias.
É no JAMAC, sigla para Jardim Miriam Arte Clube, na divisa de São Paulo com Diadema, que Mônica lembra sua trajetória: as visitas do artista Alfredo Volpi ao ateliê de seu pai em São José dos Campos, o curso de artes plásticas na FAAP e a mudança do bairro de classe média-alta da Vila Madalena para viver e montar seu projeto de vida na periferia. “Antes de vir para cá e colocar em prática as minhas ideias, eu me reuni durante um ano na casa do Mauro, que é uma das lideranças do bairro, para explicar o projeto, mostrar as minhas intenções e conquistar a confiança. Não dava apenas para chegar, chegando. Eu queria mesmo é que eles participassem de tudo.”
Paredes Pinturas: o Começo
O projeto a que ela se refere é o Paredes Pinturas, que começou a ganhar vida em 1996, quando a artista leu, no curso de pós-graduação da ECA, o texto O Fim da Pintura, do crítico norte-americano Douglas Crimp. O documento faz uma análise sobre o esgotamento das relações do mercado das artes e sobre o futuro das obras versus museu. “Quando me formei na FAAP, saí de lá e fiquei tentando ser artista. Fazia exposições, participava do circuito, mas tinha uma preguiça... Não entendia muito bem as regras. A realidade não tinha nada a ver com o que eu havia estudado. Fiquei maluca: não sabia se meu trabalho era bom porque era bom ou se valia alguma coisa porque um dia no futuro iria valer. E quando caiu a ficha de que eu ia criar obras para ficarem guardadas em um museu, sem que elas tivessem feito um percurso na sociedade, eu realmente não consegui mais pintar telas por dez anos. Fiquei em estado de choque.”
Jardim Miriam Arte Clube
Foi aí que a artista, de sólida formação esquerdista, resolveu transformar os muros e as paredes das periferias ou regiões bem pobres no seu ateliê a céu aberto. “Antes de ir para a FAAP, estudei arquitetura por três anos na antiga Faculdade de Urbanismo Eumano Ferreira Velos, em São José dos Campos. Era um ensino baseado no modelo marxista, tinha uns puta professores de sociologia, história e filosofia que jogavam a gente no meio da periferia para enxergamos o que realmente acontecia no país. Ali eu construí uma relação forte com habitação popular e, antes de montar o JAMAC, saí para pintar casas em Tihuana, no México, em assentamentos do MST, em uma favela em São José dos Campos e em algumas cidades do interior do Nordeste.”
As primeiras experiências de embelezar lugares degradados e caóticos e aumentar a auto-estima dos moradores deu certo. “O pessoal do bairro acabava participando do processo de criação. Eu sempre perguntava o que eles queriam na parede da casa deles e pintava em cima das ideias trocadas.” Esse intercâmbio reviveu a necessidade de compartilhar conhecimentos com quem não tinha chances de frequentar uma escola de arte. “Senti que precisava viver na periferia para que os moradores se integrassem ao projeto. Eu queria fazer o Paredes Pinturas com gente do bairro. Então abri o JAMAC, que é um espaço de experimentação cultural e artística, e comecei a dar aulas de estêncil ao pessoal da comunidade.”
Estêncil, café filosófico, literatura e debates
A partir da linguagem da pintura e com a intenção de desburocratizar a arte, Mônica escolheu o estêncil pela variedade de possibilidades que a técnica abre: “O estêncil é mais simples, e você pode pintar de pano de prato a muro de museu. É importante ensinar algo que possa se tornar uma profissão. Se eles quiserem fazer um dinheiro com isso, rola. Para completar, sempre tive uma conexão com a coisa do padrão, tipo pintura islâmica. Foi o casamento perfeito”.
Sem perder o bom humor, Mônica ainda abre as portas do JAMAC para um café filosófico mensal com apresentações de literatura, palestras e debates e pretende transformá-lo em um ponto de cultura. “No ano que vem, queremos montar uma estamparia para os alunos do projeto.” Enfrentando obstáculos tremendos, mas muito satisfeita com as escolhas que fez, a artista conseguiu transformar o JAMAC no que ela queria: um local de passe livre para a comunidade do Jardim Miriam.
Saiba Mais:
Jamacdigital.wordpress.com