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Thu: 01-14-10

Kiko Dinucci . Na Boca Dos Outros

Desmonta . 2009

Bastaria para Kiko Dinucci ser apenas o talentoso compositor que é para torná-lo referência de boa música praticada em São Paulo e, por extensão, no Brasil. Chamá-lo de sambista– ainda que o rótulo seja pertinente – é diminuí-lo. O álbum Na Boca dos Outros vem para concretizar uma percepção a respeito de suas aptidões e colocar em cheque determinados matizes de seu trabalho. Kiko vive a contemporaneidade – não se atrela a tradições estáticas, mantém o ouvido esperto e aberto, e se joga por aí, o que se comprova por sua participação em um grupo de samba e quetais, um trio de afro jazz, um duo de cabaré, improvisos e até um surpreendente grupo com o MC Sombra, por exemplo. A tônica é a generosidade e a amplitude desses voos: falta ego e sobram recompensas para todos os envolvidos. Mas, obviamente, seu talento e sua verve lírica, tão atrelada à enviesada tradição que comporta desde o escritor João Antonio até o gênio Itamar Assumpção, se adaptam melhor a alguns contextos do que a outros. Em um álbum em que o compositor se arrisca em tantos gêneros e um tanto cansativo (14 faixas), vêm à tona tanto o brilho como os deslizes. Como Itamar, suas composições brilham nas vozes femininas: na abertura fantástica com “Ciranda Para Janaína” (Fabiana Cozza), “Partida em Arujá” (na voz de sua contumaz intérprete Juçara Marçal) ou em “Bom Jesus da Cabeça” (Alessandra Leão, que lançou belíssimo álbum também este ano). O ponto alto do trabalho é “Forró do Homem-Bomba” (escrita em parceria com o grande Douglas Germano), na qual o gênero de Gonzagão encontra ressonâncias em uma queda livre violenta cuja grandiloquência encontra porto seguro na voz de Marcelo Pretto. Abstenho-me de apontar as falhas – Kiko Dinucci é um talento novo tão estimulante que não merece censuras.

Por Arthur Dantas