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Tue: 09-15-09

Exposição Virtual: Fefê Talavera

 Lil Monsta – Entrevista com Fefê Talavera

Por Tiago Moraes

Todo mundo tem seus monstros. Sentimentos como medo, raiva, e culpa que, para não serem somatizados e atingirem proporções gigantescas, precisam ser exteriorizados de alguma forma.

Fernanda Salinas Talavera, ou simplesmente Fefê Talavera, usa a sua arte para colocar para fora todos os seus, e pouco a pouco vai se libertando de sentimentos que a cutucam e incomodam.

Brasileira de raízes mexicanas, essa artista de 29 anos formada na FAAP, e pós-graduada nas ruas, reside atualmente em Madri com o marido, o também artista francês Remed. Mas seu espírito livre e inquieto faz com que possa ser encontrada em qualquer parte do mundo, seja pintando um muro na Itália, expondo num museu em Ottawa ou cantando num palco para milhares de pessoas na Malásia.

 

Você se lembra de quando e como começou a se interessar por arte?


Sempre me interessei, desde pequena, meu pai costumava me ensinar a pintar com aquarela e pastel seco. Eu ficava maravilhada com as cores, os cheiros e a facilidade que ele tinha pra fazer qualquer coisa. Acredito que tenha sido o meu maior exemplo. Os meus pais sempre me apoiaram, a casa deles é cheia de arte. Também tive aula com a Leda Catunda, foi com ela que fiz meu primeiro quadro, e depois de um tempo me interessei em começar a fazer coisas na rua…

Você se formou em artes plásticas na FAAP, uma das escolas de arte mais tradicionais e renomadas do país. Paralelamente, experimentou muito nas ruas, e se envolveu com a cena de arte urbana justamente em um momento em que o graffiti tradicional começou a dividir os muros com outros tipos de intervenções. O que você aprendeu de importante na faculdade que nunca aprenderia na rua e o que aprendeu na rua que nunca aprenderia numa faculdade?

Aprendi que para ser artista você precisa ser livre, não precisa de uma faculdade. Ela me limitou muito, eu entrei lá livre e saí completamente bloqueada. Você até aprende coisas importantes, como História da Arte uma pequena noção das técnicas, mas é só isso. De resto, eu me irritava muitíssimo em ter que fazer o que o professor queria e não o que eu queria. Quem é ele para dizer se minha arte está certa ou errada? Na FAAP está cheio de professor/artista fajuto, muita panelinha, muita arrogância, muito conceito…blah!! Não aguento!!!
Já na rua é outra história, não existem regras. Se você quiser expor seu trabalho você vai lá, faz e pronto, está lá, à disposição de quem quiser ver. A quantidade de gente que vê o seu trabalho é enorme, e o mais legal é que não é só a galera que frequenta galerias de arte, mas o jornaleiro, a senhorinha que lava os banheiros do hospital, o porteiro, e até mesmo o curador da Bienal. Na rua a gente tem mais possibilidades de aproveitar o espaço, de fazer cada vez maior e de experimentar diferentes tipos de superfícies.
 


Você teve uma fase bem marcante com os seus bichos (ou monstros) tipográficos, feitos com tipos recortados de cartazes de lambe-lambe, e com isso conseguiu respeito e reconhecimento não só na comunidade de arte urbana como também entre os tipógrafos. Fale um pouco dessa fase e do que essas criaturas representavam para você.


Fazer os bichos tipográficos para mim foi um grande passo na minha carreira de artista. Comecei pintando em pôsteres velhos e colando na rua, daí percebi que esses pôsteres por si só já eram uma obra de arte. Aquelas letras tinham vida para mim, eram tão bonitas que eu comecei a recortá-las em grande quantidade e, como eu já fazia os monstros, resolvi tentar com a colagem, e deu certo. Essa fase foi super boa, porque foi a época em que conheci os meus mais queridos amigos. O Flip me convidou pra expor na Most, foi a minha primeira individual, e na sequência as coisas começaram a acontecer. Comecei a fazer mais exposições na Choque Cultural, e depois começaram as rolar os convites para exposições no exterior.


Você ainda pretende acordar essas criaturas de novo um dia ou aquilo foi só uma fase que não pretende retomar?

Claro, elas continuam vivas, só preciso arranjar um tempo para cortar letras – demora muito e eu me desespero. Gosto de mudar sempre, de descobrir novas técnicas, de ir reciclando tudo que eu já fiz.

Li em algum lugar que esses seus monstros são a sua maneira de exteriorizar toda a raiva, o medo, os sonhos e desejos. O que deixa você com raiva hoje? E com medo? Com o que você mais sonha? E o que mais deseja?

O que mais me deixa com raiva é a ignorância, a prepotência e a crueldade. Tenho medo da dor de perder alguém que eu amo. Sonho em ter mais paciência com as pessoas… e desejo conseguir sobreviver mais alguns anos fazendo arte.


Sua arte traz influências astecas e maias, e isso faz todo o sentido, já que você tem raízes no México, berço dessas culturas . Por outro lado, você cresceu e passou toda a infância e adolescência em São Paulo. Qual das duas culturas mais influenciou e moldou o seu trabalho até chegar ao que é hoje?

As duas culturas são uma grande influência. Dentro de casa a minha cultura sempre foi a mexicana, já fora de casa foi a brasileira, então fica meio difícil… Mas acho que no geral a cultura mexicana me influenciou mais…


Hoje você mora em Madri. Quais as principais diferenças que você vê na cena cultural de Madri e da Europa como um todo em relação ao Brasil?

A cena cultural aqui é incrível, os europeus têm sorte nisso, têm sempre shows, espetáculos, têm sempre milhões de coisas interessantes para ver, coisa que no Brasil não tem. Acho muito prazeroso sentar num parque super bem cuidado, ir aos museus, no verão tem muita coisa pra fazer, tem cinema ao ar livre, tem pracinha onde todo mundo senta pra bater um papo e tomar cerveja, tem festa de bairro, tem uns lagos para andar de canoa com o namorado…


Você se casou recentemente com o Remed, um francês que também é artista. Onde e como se conheceram? Foi no Brasil ou na Europa?

Nos conhecemos em Barcelona, numa exposição dele na Montana Gallery. Quando vi a arte dele pela primeira vez, me apaixonei pelo traço e principalmente pelas letras e significados. Logo depois a gente foi pintar juntos na rua e foi aí que o nosso amor nasceu.


Vi que vocês têm pintado muito juntos… Não só diversos murais nas ruas como também telas. Como funciona o processo criativo de vocês? E como é pintar em conjunto? Quando você pinta com ele é diferende de quando pinta com algum outro artista?

Pintar com o Remed é bem difícil. A gente é muito diferente, e tem uma grande intimidade de marido e mulher, e esse tipo de intimidade é bem diferente de quando eu pinto com algum outro artista, a não ser que seja alguém muito meu amigo também. A gente sempre briga quando pinta junto, não tem jeito! Eu não entendo por que ele não me deixa à vontade, coisa que com qualquer outro artista não acontece… Sinto que ele não me dá espaço, que é ele que sempre tem as idéias, e quando sinto que estou conseguindo me liberar ele vai e apaga a minha pintura… Que raiva!


Em relação às pinturas que você faz na rua, muitas pessoas relacionam diretamente ao graffiti, quando sei que prefere relacionar o seu trabalho na rua com o muralismo. Fale um pouco sobre isso, explique essa diferença.

A real é que eu nunca fui grafiteira, pintar com o spray para mim é só mais uma técnica como qualquer outra. As pessoas é que adoram classificar tudo, dizer que a Fefê é isso ou aquilo… Eu pinto junto com artistas que grafitam há anos, e nunca pensei em me tornar uma grafiteira, primeiro porque não faço bomb, segundo porque a minha técnica no graffiti é péssima! Também não sigo nenhuma doutrina do graffiti, acho muito pequeno se fechar num mundinho em que você só pinta com essas pessoas ou só escuta esse tipo de música, ou só sai com essa galera… fica muito vazio. É tão mais interessante conhecer outras técnicas, outras culturas, outras ideias, do que ficar nesse círculo vicioso que não ensina nada. Eu não só pinto muro como pinto qualquer suporte que eu encontre. Prefiro ser chamada de artista do que de muralista, ou grafiteira, ou qualquer outra coisa.


No ano passado você fez uma exposição em Amsterdam junto com o Doze Green, uma das maiores lendas do graffiti mundial. Como rolou essa conexão e como foi a experiência?

A conexão que rolou com o Doze foi quando o conheci em Nova York, em uma exposição de que participei junto com outros artistas brasileiros. A gente se viu uma vez e já rolou uma ligação muito forte, então decidimos fazer uma expo juntos. Começamos a trocar ideias pela internet e descobrimos que havia muito em comum no que pensávamos e no que a gente fazia, até que um dia ele me chamou pra fazer uma expo com ele em Amsterdam.
A experiência da exposição com ele foi bem intensa, ele já é mais velho e tem umas manias a que eu não estava acostumada. Como sou uma pessoa de forte caráter, não suportava muita coisa que ele fazia, não estou acostumada com esse tipo de macho e às vezes a gente saía no pau. Passamos um mês trabalhando juntos, e no final deu no que deu… Fizemos uma puta tela legal juntos, mas a relação acabou aí.

Pelo seu flickr dá pra perceber que você está viajando muito, pintando com diversos artistas, expondo seu trabalho em diversos países. É a vida que você sempre quis ou ainda falta alguma coisa?

Eu penso que não poderia ser outra coisa na vida senão artista. É o que sempre quis, até de país eu mudei, acho que tenho muita sorte por tudo que tem acontecido… O que falta para tudo sair perfeito mesmo agora é começar a vender mais. A crise aqui na Europa está super forte, então a vida fica bem mais difícil, e não rola ficar trabalhando para os outros de graça, isso eu não faço, exijo o respeito que todo artista deveria exigir sempre.

Você parece transitar com facilidade por diversas técnicas, como o desenho, a pintura, as colagens e os carvings. Tem alguma que é a sua predileta ou depende muito do dia, do humor?

Toda técnica me fascina, e tem aquelas para que a gente leva mais jeito… Acho que vai muito do dia, às vezes só quero desenhar, outras só quero riscar, outras colar… E tem aqueles dias que nada sai do jeito que você quer. Muitas vezes prefiro pintar quando estou muito triste, assim coloco toda a minha energia naquilo.

Fale um pouco do seu projeto musical, Lil Monsta. É mais uma válvula de escape para soltar os monstros, colocar a raiva pra fora?

Total, é mais uma técnica! Mas com música é bem diferente. Eu amo música, e respeito muito. Comecei a cantar porque tinha um namorado que era produtor na Áustria. Ele dividia o estúdio com o Stereotyp, e um dia eles me pediram para fazer um freestyle em português. E eu comecei a rir, sou bem tímida, mas pensei que não tinha nada a perder e tentei. Lembro que sentia as minhas bochechas bem quentes (risos), devia estar roxa de vergonha. E eles gostaram do resultado e mandaram o acapella para uma porrada de produtores pelo mundo. Foi assim que eu comecei, e depois alguns músicos começaram a me chamar pra cantar… Achei tudo isso muita loucura, porque nem pensava nisso, que um dia isso pudesse acontecer.

Qual a influência que a música exerce no seu trabalho como artista? E, agora que você também tem esse projeto musical, o que leva da sua arte para a sua música?

Sempre fui muito ligada à música, sempre gostei de trabalhar com músicos que admiro, como Stereotyp, Al Haca e The Bug. Colaborei com eles fazendo som e arte, às vezes só para uma mixtape, e outras fazendo a capa do disco.
Faço parte de um projeto que se chama Crunchtime junto com diversos artistas de diferentes áreas e de diferentes culturas, e sempre nos reunimos para criar juntos. E não importa se alguém não sabe pintar, ou cantar, ou dançar, todo mundo faz tudo. Basicamente a ideia é se divertir e entreter quem está assistindo. As pessoas que fazem parte desse projeto são muito talentosas, e vale a pena trabalhar com elas porque sempre rola uma troca musical ou artística muito forte.


Você sempre acompanhou de perto a cena underground de música e arte aqui no Brasil. O que tem ouvido e visto de bom e novo aí pelas suas andanças na Europa?

Sempre conheço muita gente por cada lugar que passo. Recentemente conheci duas artistas incríveis, italianas, uma é a Pona e a outra é a Arianna Vairo. Elas são bem jovens, e ambas têm um talento incrível, vale a pena dar uma olhada. Já na música o que eu tô mais ouvindo agora é Major Lazer, projeto do Diplo com o Switch, uma mistura de dancehall com eletrônico. Outros que não saem do meu ipod são o Boxcutter, que é mais tranquilo, tem bastante dub, dubstep, glitch e minimal e o Sa-Ra, mais pro electrosoul, hip-hop, são 3 produtores americanos foda!

O que podemos esperar da Fefê num futuro próximo? Exposições? Shows? Pretende visitar o Brasil em breve?

Brasil sim, possivelmente ainda esse ano. Exposições tenho uma em outubro em Ottawa, na Canteen Gallery, e também uma em Bilbao, na SC Gallery… Sobre shows, nenhum marcado no momento. 

 

Quer mandar alguma mensagem final?

Um “big up” para toda a minha família, para o maridão e para os amigos mais próximos que nunca me abandonaram.

 

Veja e ouça mais:

flickr.com/fefe_talavera
fefetalavera.blogspot.com/
myspace.com/lilmonstaff
crunchtime-records.com