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Tue: 08-18-09

Milo Manara e Hugo Pratt . Verão Índio + André Toral . Os Brasileiros

Conrad Editora . 2009


Há vários pontos de comunhão entre Verão Índio, de Hugo Pratt e Milo Manara, e Os Brasileiros, de André Toral, que justificam uma resenha conjunta das duas obras. E isso transcende o fato de ambas serem novelas gráficas – HQ, cinema ou literatura, o que fica ao fim de cada obra é uma experiência de conhecimento e sensibilidade. De formas distintas, mas com o mesmo apuro de linguagem, os álbuns partem do encontro de culturas diferentes – o choque entre civilizados e “primitivos” – para resolver assuntos caros à poética particular de cada autor.

A conquista do continente americano em Verão Índio (reedição de um clássico 1987, considerado por muitos uma das cem melhores HQs de todos os tempos) é o leitmotiv para Pratt desenvolver uma história primorosa em sua narrativa clássica – e classuda! – e um tanto cínica, que deu status de obra-prima para sua principal criação, a série Corto Maltese. Verão Índio não tem moral possível – agressão física e sexual se unem à falta de razão que a religião comumente desperta no comportamento social. O que por si só seria uma história de fazer inveja a um Joseph Conrad ganhou mais vigor e exuberância no traço insinuante e sensual de Manara – suas mulheres em estado de cio nos deixam perplexos e extasiados em cenas de violência sexual brutal. Assim o paradoxo dos valores expostos duplica-se, e o leitor termina a história desnorteado. Dois artistas em estado de graça, absolutamente.

Toral também não é nenhuma criança – venceu dois prêmios HQ Mix com as graphic novels O Negócio do Sertão (presente em Os Brasileiros) e Adeus, Chamigo Brasileiro – e, manipulando sua bagagem de historiador e antropólogo a favor de pequenos contos vivazes (um contraponto à placidez de tons e traço) que, como diz o autor, “mesmo sendo baseado em fatos reais é tudo mentira, criação subjetiva”, cria histórias feitas para ser lidas com o prazer de quem lê um Pratt, um Hergé ou um Alberto Breccia – todos heróis do autor. Os Brasileiros mostra índios não tão inocentes, não tão subjugados pelo branco, o que por um lado desmistifica a visão corrente e por outro amplia nossa percepção sobre seres humanos tão estigmatizados. Por fim, o que o autor nos comunica, em tom adulto, estimulante e nada afeito aos ditames da HQ estadunidense ou do cinema comercial, é que, no final, um homem é um homem, e o que nos faz humanos é o mesmo que nos torna monstros. Obra crucial para nós brasileiros e desafio para os quadrinistas de hoje. São esses paradoxos, o revés da moeda do maniqueísmo fácil, que garantem a permanência e o desafio proporcionados pelos dois álbuns: Manara, Pratt e Toral nos cativam por nos lembrarem que não somos estúpidos e nos atiram ao desafio de não nos imbecilizarmos.

 

Por Arthur Dantas