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Fri: 07-24-09

Exposição Virtual: Billy Argel

 

Só os mortos não reclamam

Por Tiago Moraes

Adherbal “Billy” Argel era, até alguns anos atrás, um herói praticamente esquecido. Uma injustiça para alguém que criou, praticamente sozinho, toda a estética do skate, do surf e do punk no Brasil na década de 1980.

Lembro até hoje da sensação incrível que era, no auge da minha pré-adolescência, entrar em uma loja de skate e olhar para aquelas paredes imensas, forradas de shapes incrivelmente coloridos, com desenhos de cruzes, adagas, dragões, morcegos, caveiras e todos os tipos de monstros e criaturas bizarras. Billy sabia como ninguém representar graficamente a verdadeira atitude e rebeldia que o skate representava, em um mercado em que muito se copiava e pouco se criava.

Aprendi com o skate e com o punk-rock muito mais do que qualquer professor poderia me ensinar na escola, e o mais interessante é que a arte sempre esteve presente nisso tudo, seja na capa de um disco, num pôster de show ou na parte de baixo de um skate.

No ano passado, no suntuoso espaço Santander Cultural em Porto Alegre, um dos segredos mais bem guardados da arte underground brasileira foi finalmente revelado para o mundo. As artes de Billy, que antes eram literalmente massacradas em corrimãos e bordas até praticamente sumirem, ganharam agora status de obra de arte.

Quando que você começou a desenhar skates?

Eu já desenhava desde moleque. Foi uma coisa natural, eu ficava desenhando na classe – quando você não tem muita motivação na aula, fica desenhando. Já tinha feito algo embaixo de um skate, mas nada sério. Quando eu vi os skates da Dogtown, achei do caralho. Aquelas cruzes eram um símbolo muito forte.


Como rolou o seu primeiro desenho para um shape? Foi o model do Porquê para a Urgh, não foi?
Foi. Conheci o Porquê na época da Wave Park, quando deram esse apelido. Ele ficava o dia inteiro na pista fazendo perguntas do tipo “por que essa roda é boa?”, “ah, porque é boa”, “mas por que é boa?”, “porque tem rolamento?”, “por que isso?”, “por que aquilo?”, e a gente “Ô, Porquê, dá um tempo”. Outro dia ele apareceu com o irmão, aí todo mundo falou, “esse aí então é o Poisé”. O pessoal não perdoava (risos). O Porquê me deu o shape e falou: “o model não está definido, mas eu quero que você faça um desenho”. Eu topei, só que trabalhava numa agência e não dei muita atenção. Eu ia fazer quando tivesse uma folga. Um dia ele me ligou e perguntou se já estava pronto. Eu disse que sim. Aí ele disse: “tô passando aí, o shape já vai ser lançado e estamos em cima da hora”. Peguei um papel na hora e desenhei umas caveiras. Fui colocando embaixo do vegetal, copiando com um pincel, escrevi o Porquê, fiz a outra cor no pincel, com traços grossos. Pra época ficou muito bom, tanto é que o Jorge [Kuge, dono da Urgh!] me encomendou uma nova série logo depois.

Foi aí que começou a Highgraph?
Isso, eu saí da agência e montei o estúdio. Aí não parou mais de chegar trabalho. Também montei uma marca, a Mr. Fink. A minha ideia era vender por reembolso postal, em revistas como a Bizz. A marca vendia bem, chegou até a ser vendida na [extinta rede de lojas] Fruto Verde. Eu atendia muitas marcas de skate e surf, como Urgh!, Lifestyle, Caos, Stanley, Superphen, Cush, Anarquia, Slide, Varial, Billabong, Mango. Pensei “eu entendo desse mercado, sei do que ele precisa: de tudo que é contrário, contracultura”. Na época eu nem sabia o que era isso, mas eu vivia, saca? Depois chegamos até a trabalhar para empresas maiores, como a Vasp e a Hobby (antiga rede de clubes esportivos de São Paulo). Tinha umas dez pessoas comigo, mas o meu negócio era o skate. Quer coisa melhor do que fazer o que gosta e ainda ganhar uma grana?

Os caras pagavam bem por esse tipo de trabalho na época?
Pagavam, a gente vivia bem. Eu costumava dizer que brincava de ganhar dinheiro. Além de ter uma demanda muito grande, o mercado estava favorável, e nossos trabalhos efetivamente faziam as vendas aumentar, então os caras sempre voltavam. Além disso, rolava identificação, porque a gente falava a mesma língua.

Você ia atrás de trabalho ou essas marcas vinham até você?
Elas vinham. No começo simplesmente não tinha concorrente. Depois começou a pintar gente querendo ensaiar algumas coisas no computador, e eu falava: “meu, o negócio é fazer na mão mesmo!” Mas a real é que eu também queria ter um computador, só que não tinha grana, nem sabia onde comprar. E eu sempre pirei em letras, para mim a tipografia é 80, 90% do design. Então [com o surgimento do computador], eu pensei: “agora vou poder pegar todos esses livros de fontes, jogar no computador e sair escrevendo o que eu quiser”. E agora a minha pira é criar fontes. Fiquei uns seis meses só fazendo fonte, sem botar a cara fora de casa. Queria fazer uma quantidade legal e sentir a resposta na internet. Tenho muitas inéditas, estou para montar um site.

Qual foi a sensação quando você viu alguém usando um shape que desenhou pela primeira vez?
Sabe o que eu pensava? Eu quero mais! Queria ver a minha parede cheia de skate. Coleciono várias coisas, como você pode ver: guitarra, anel de caveira, moto, lata de spray. Acho que é um pouco de medo, porque quando eu era moleque não tinha as coisas. Lembro que a gente já passou dificuldades – não fome, mas saía do colégio pago e ia pro do governo, não tinha grana pra comer lanche no recreio.

Quais eram suas maiores influências e inspirações na época?
Sem dúvida alguma todas as artes do Jim Phillips para a Santa Cruz, as da Powell... Meu estilo até hoje é o que eu via quando moleque, arte que pegava na veia mesmo. Eu gostava de coisa horrorosa, impressionante. A revista Heavy Metal, que veio quando eu já era adolescente, tinha tudo que estava rolando de mais foda: Moebius, Ranxerox... Era a bíblia do desenho. Na época não tinha internet, precisava juntar uma puta grana para comprar um livro e ter acesso. Outra influência sem dúvida foi o Big Daddy (Ed Roth), com aqueles carros envenenados, os dragsters e o Rat Fink. E depois veio o punk.

Como foi a tua incursão no punk?
Foi uma coisa de identificação mesmo. Lembro quando eu li a primeira matéria sobre os Sex Pistols, na Manchete, falando de um novo fenômeno na Europa. Vi as fotos dos caras e falei “caralho”. E não era aquele som pesado, hardcore, que veio um pouco depois. Era um som mais com ideias. Nessa época eu estava ligado numa coisa mais imediata, eu vinha do rock pesado anterior ao metal e percebi que tinha a ver com os desenhos em nanquim do punk. Foi um negócio do caralho, você via um Duane Peters, um Steve Olson Olson (skatistas ligados ao movimento skate-punk). Eu já gostava de All Star, e os caras usavam. Quando você vai ver, está tudo interligado.

E aí você já quis montar banda, tocar?
Eu queria tocar Black Sabbath, mas como andava com os punks não podia falar que gostava de Ozzy, AC/DC. Só que eu gostava muito. Depois de um puta tempo, fiquei sabendo que os punks que andavam comigo também gostavam de Sabbath, só que ninguém falava. Nessa época não podia, senão você era execrado (risos).

E de bandas nacionais, o que você curtia?
Ratos de Porão foi uma puta referência pra mim, Olho Seco, Desordeiros, Fogo Cruzado. Sabe o que foi legal do punk? Foi a primeira galera que eu vi fazer sem ter condição nenhuma. Todo mundo pode fazer o que quiser, basta querer!

Teve um período em que você se afastou um pouco da cena. Algum motivo em especial?
Não foi nada com relação à minha arte, foram problemas pessoais. Nem gosto muito de falar disso. Fui embora porque me decepcionei com muita gente, mas quero deixar claro que não foi nada em relação à minha arte e ao skate. Foi um lance muito foda, de traição mesmo. Não que eu tenha raiva de alguém hoje, mas algumas pessoas não precisavam ter feito o que fizeram. Mas acho que o mais legal de tudo é que eu dei a volta por cima e hoje acredito nas pessoas como acreditava antes. Acho que a verdade prevalece sempre. Eu fechei a Highgraff, mandei todo mundo embora, vendi meu apartamento e fui pro interior. Fiquei numa fazenda, junto com os peões, trabalhando, dormindo cedo, acordando de madrugada. Apartava o gado, levava pro leilão, ia comprar alfafa no Paraná... Mudei completamente de vida. Continuei desenhando, só que para aquele mercado: fiz logotipo de Haras, fiz logotipo da Rádio Cultura de Dois Córregos, que é o mesmo até hoje, fiz o logotipo da prefeitura.

E Floripa, foi depois disso?
Isso, quando nasceu meu segundo filho. Eu já estava de volta, trabalhando com várias marcas de novo – Billabong, Stanley. O pessoal da Stanley estava em Floripa e eu ia lá duas vezes por ano. Aí meu casamento não deu certo. Já tinha nascido o segundo filho, eu tinha um apartamento, estava estruturado de novo. Fiz uma mala de roupa e fui pra lá dar um tempo. Acabei ficando quase 5 anos.

Você acompanhava o que estava rolando por aqui?
Não. Não que tenha esquecido, é difícil esquecer a origem. E eu tinha um patrimônio, minha mãe sempre morou aqui e cuidou das minhas coisas. Tenho originais guardados, fotolitos, letrasets, até xerox. Procurei sempre ser correto, não tenho vergonha de nada que fiz. Meu espaço já estava conquistado, não tinha que provar nada pra ninguém, sacou? Então eu pensei, “as próximas gerações vão escrever a história delas”. Agora eu voltei porque conheci o Farofa, Danielone, você, Pexão.

A Transfer, por sinal, foi uma das maiores, senão a maior mostra de arte urbana no Brasil até hoje. Você teve uma forte participação nela. Fale um pouco a respeito.
Ali havia pessoas que vivenciaram aquela época, mas do outro lado. Achei legal a oportunidade de poder mostrar o lado de quem produziu, e a razão disso. Não fui com o intuito de vender um produto a mais para um moleque, porque a melhor fase da minha juventude foi fazendo tudo aquilo. Hoje, eu me sinto novamente na melhor fase da minha vida. Estou com dois filhos crescidos, meu! Um está com 23, outro com 16, e eles estão na rua. Isso é tudo fruto do quê? De um sonho de criança.

Eu, que comecei a andar de skate em 85, 86, fui profundamente impactado pela sua arte e pela estética de skate que você ajudou a moldar. Antes de presenciar isso na Transfer, você tinha noção da força das coisas que tinha criado e do impacto que isso teve em toda uma geração?
Eu sabia que tinha, sim, exercido algum impacto. Mas não tinha noção do quanto. Na abertura da Transfer eu não conhecia ninguém, não tinha nem convite. Cheguei e falei "sou o Billy, tô entrando aí". Entrei e não dava pra andar lá dentro. Dei uma volta, vi as minhas coisas, um monte de gente olhando, apontando. Pensei, “Não é possível que essas pessoas tenham isso na história delas”. Depois encontrei o Herbert [Baglione], que veio, me abraçou e começou a me apresentar para todo mundo – para o Trampo, para o Kiko (Nunca), Tinho. Só passando por uma experiência dessas pra ter noção, me emocionou muito mesmo. Quando eu vi, estava que nem popstar, um monte de holofote, câmeras, tirando foto com artistas consagrados.

Quais outros artistas dessa nova geração você admira?
Sou fã do Sesper, Speto, Pato, Tinho, Herbert... Tem um monte de gente.

E lá fora?
Robert Williams, Rick Griffin, esses caras pra mim estão no céu. Quando eu era moleque, fiz uma viagem e voltei com um livro do Griffin. Vi aquele livro com um olho na capa e falei: “Olha só, igual ao que eu faço! Esse livro é meu!” Foi um negócio impressionante!

A receptividade que você teve na Transfer te deu um gás pra falar “agora é hora de fazer uma produção nova, cravar de vez meu nome nessa história que está rolando e crescendo?”
Nos últimos anos, experimentei bastante com novos estilos, tentei fórmulas mirabolantes, mas a real é que não posso sair do meu riscado, sabe? Estou fazendo produções novas, lógico, mas um tipo de desenho que eu sei fazer – usando novas influências, técnicas, mas tem aquela espinha dorsal. O meu estilo é o meu estilo, eu não vou mudar. Fiz umas experiências, simplifiquei, e agora voltei a criar nessa pegada mais old school mesmo, preto no branco.

Hoje, não dou tanto valor para exposição na mídia, essas coisas, mas sim para amizades verdadeiras. É muito fácil se perder, como eu já me perdi, envolto em ego, essas besteiras de querer ser melhor que os outros. Precisa tomar muito cuidado com isso, porque a fama é efêmera. O principal é a arte em si, que tem que vir da alma, ser visceral. Fazer um bonequinho qualquer, um personagem, qualquer um pode. É só um desenho.

Qual a importância do Farofa (Sesper) nessa sua nova fase?
Pô, o cara é foda! Ele me levantou de verdade na época que eu mais precisava, me fez ter coragem de sair de um emprego em que eu estava ganhando uma puta grana, mas estava infeliz. O Farofa chegou e disse: “Mano, você tá perdendo tempo!” Eu não entendia o que ele falava, mas a real é que eu estava vivendo que nem um merda. Perdi minha mulher e de repente me vi sozinho – voltei de Floripa, com dois filhos pra cuidar e completamente sem nada. Vendi minhas coisas lá, paguei as contas e vim embora. E pra aprender a ser pai? E de repente o Farofa chega do nada, falando um monte de coisas... O cara me deu uma lição de vida muito fodida, começou a me apresentar coisas, pessoas, me deu uma aula sobre a importância do meu trabalho. Foi quando eu vi que estava longe, enterrado numa firma, resignado.

Que tipo de mensagens você quer passar com a sua arte?
Não que eu seja um cara pessimista, me considero mais para realista, e eu vejo que o buraco é bem mais embaixo. O maior problema que vivemos hoje é a quantidade de gente no mundo: merda pra caramba, poluição pra caramba, não tem emprego para todo mundo, não tem comida para todo mundo. Eu não tenho nenhuma mensagem mirabolante para passar, meu berço é o punk, o inconformismo. Só os mortos não reclamam, já dizia aquela música do Lobotomia.


Saiba mais:
billyargel.com
billyargel.blogspot.com