Editora 34 . 2008
O incômodo causado pelo olhar fixo e faiscante de um gato. A calma mortiça do teto de um quarto de hotel, cujos padrões previsíveis do acarpetado serpenteiam pelos corredores impessoais. A memória de Ramiro, personagem do livro de estreia do escritor Chico Mattoso, se constrói como blocos numerados, antes e depois do início, do zero.
Exilado há três longos meses em um hotel, Ramiro boceja e alterna estudos meticulosos das nódoas respingadas nas paredes com observações profundas acerca de maçanetas. Ramiro se despe, toma longas duchas no box e, como que perdido numa sala de espelhos, se vê refletido, longe de si. Nesse universo desterrado, toda sorte de hóspedes rasteja e deixa um lastro de restos de falas, de piadas de firmas, de um mundo inventado, alheio, morto. Com um roupão atoalhado, Ramiro se arrasta pelo hall de entrada e norteia-se aleatoriamente com cacos de lembrança intricadas: uma punheta acobertada pela sombra da caixa d’água, as pernas gelatinosas da avó, a morte de Nestor, os gemidos da antiga namorada, que um dia o levou a acreditar no acaso. As reminiscências do personagem insistem em se infiltrar nas brechas do algodão de um lençol branco, certeira, como o naco de luz que alimentava o estômago seco de Meursault, de O Estrangeiro de Camus. A precisão desconcertante, a delicadeza ressecada e tudo o mais que, às avessas, evoca a vida em Longe de Ramiro é o que torna este romance tão precioso. Tradutor, roteirista e editor da revista Ácaro, Chico Mattoso nasceu em 1978 em Paris, mas sempre viveu em São Paulo. Também publicou contos em algumas coletâneas, como Antologia Bêbada e Parati Para Mim.
Por Natércia Pontes