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Fri: 03-13-09

+Soma 10: Rappin Hood e Parteum

Rappin Hood e Parteum: Experimentações e Inovações
Por Arthur Dantas . Fotos Fernando Martins

Abaixo, na íntegra, a entrevista com os irmãos Rappin Hood e Parteum, astros da décima edição da revista +Soma.

 

ParteUm . Meu avô, quando foi registrar meu pai, não botou sobrenome nele, porque a maioria dos negros no Brasil carregam o sobrenome do senhor de terras. Por intermédio de um tio, cheguei na fazenda onde os meus antepassados trabalharam, em Dois Córregos, interior de São Paulo. Por causa do meu avô, já nascemos livres.

Qual tua formação escolar.

ParteUm . Fiz colegial técnico em administração e cursei a faculdade de Publicidade por três anos, fui para o skate, morei no exterior e depois, quando voltei, já fui trabalhar com música.
Hood . Tenho superior incompleto três vezes (risos). [Faculdade de] Música primeiro. Mas em casa rolava um “grilo”, porque meus pais não viam música como profissão. Fui fazer Educação Física, mas era muito longe e coincidiu com o lançamento dos meus primeiros trabalhos. E comecei Administração na UniPalmares, que tá trancada, mas eu ainda vou voltar. Era muito corrido, uma vez me peguei cochilando no volante.

Quem foi o MC de cada um de vocês que fez você cantar rap?
Hood . No Brasil foi o Thaíde, sou fã mesmo. Conheci o Thaíde e DJ Hum em um evento aqui perto [da Vila Arapuá, Zona Sul de São Paulo] e eles que me chamaram pra ir na São Bento. Internacional, com certeza, é o Chuck D. do Public Enemy.
ParteUm . O meu é mais complicado, porque no primeiro vídeo de skate da Plan B nem tocava rap – quase não tinha skatista que escutava rap. Os Hyerogliphics eu gostava muito. Até no primeiro single deles eu descobri esse lance de vários MCs de vários lugares cantando juntos. Nesse som, tinha o Dell, o Casual, o Souls of Mischief. Em 94 quando escutei o primeiro single do Nas, em 1994, fiquei louco! Comprei em Los Angeles, em fita k7, junto com o single do Jay-Z, o “Dead Presidents” com outra base. Porque naquela época, era difícil ter informações, eu colava no Centro [de São Paulo], numa loja onde [o rapper] Xis trabalhava pra comprar os discos. e, por conta de vídeo de skate, eu ficava voltando a fita e não era por causa de manobra, mas sim do som que estava tocando naquela parte. Antes do Nas, lembro muito do Slick Rick, do LL Cool J, do Chuck D, e muito do som “My Philosophy” do Boogie Down Production, que passava em um programa de clipe da TV Manchete. E a gente tem um tio mais velho que curtia um som, sempre estivemos rodeados de música. Eu ia em uma feira livre com meu pai e escutava Tião Carrero e Pardinho e chegava em casa e meu irmão me apresentava um Funkadelic, entendeu? E eu aprendi a ter esse lance de comprar discos com ele [Hood]. Muitas vezes ele saía para ir nos bailes e eu ia escutar os discos dele.

Então ele é mais velho mesmo?
Hood . Porém, com o espírito mais jovem (risos).
ParteUm (com ar de contrariado) . O (Afrikaa) Bambataa falou que eu era o mais velho...

Você começou fazendo rap quando?
ParteUm . Bem antes dele [Hood] imaginar que eu estava fazendo (risos). Eu lembro quando ele chegou com uma bateria eletrônica em casa. Porque os mesmos caras que hoje vendem chocolate no centro, vendiam bateria eletrônica. Parecia uma MPC, ligava no auxiliar do 3 em 1 e saía batendo. Em casa tinha um piano em casa da minha irmã mais nova. Às vezes eu vinha a pé com o Chaves da pista de São Caetano e acompanhava algumas aulas da minha irmã. Olhando um pouco mais adiante, eu peguei um décimo terceiro e dei um teclado pra minha irmã que até cheguei a usar em disco.

E qual era a formação do teu pai?
ParteUm . Ele era gerente de distribuição da Melhoramentos. Sempre trabalhou em multinacionais.

Eles foram para o interior né? Essa casa que o Hood mora era dos seus pais.
Hood . Isso, a casa onde fui criado.

Você mora aonde. São casados, tem filhos?
ParteUm . Moro na Vila Mariana, sou casado e tá pra nascer o primeiro.
Hood . Sou casado e tenho um garotão, Martin, de seis anos.

E o que seus pais escutavam em casa?
ParteUm . De tudo.
Hood . O primeiro disco que eu tive do James Brown foi minha mãe que me deu. Conheci em casa George Clinton. Quando veio a fase de Afrika Bambataa, Grandmaster Flash, foi que eu saquei que queria fazer aquilo.

E eles apoiavam você?
Hood . Eles não ligavam, mas sempre tinha aquela desconfiança de achar que aquilo não é sério.
ParteUm . Quando tinha uns 14 anos meu pai falou: “legal que você anda de skate, você tem um patrocinador que não te paga nada, sou seu pai e vou sempre te ajudar, mas você tem que começar a ganhar dinheiro pra saber como é a vida”. Aos sábados, ele falava que eu podia andar de skate o dia todo, só que em algum momento eu tinha que ir até o trabalho dele e passar algumas horas ajudando ele.
Hood . Quando comecei a trabalhar, era algo que eu queria, com 14 anos. Sempre passei férias no interior, na casa dos meus avós. Meu avô tinha um escritório, e às vezes pedia pra fazer algum serviço de banco e tomei gosto por trabalhar. Quando voltei, uns amigos estavam trabalhando em uma confecção e acabei arrumando um trabalho lá. Foi meu primeiro emprego registrado e eu nem falei pra minha família.
ParteUm . Lembro que ele chegou no fim do mês com um monte de disco em casa, e minha mãe perguntou de onde ele tirou dinheiro daí contou que tava trabalhando.
Hood . Foi bom porque aprendi a correr atrás das coisas. Não posso falar que tenha me faltado alguma coisa, porque meu pai lutou, podia não ter um Adidas, um Rainha, mas eu tinha um kichute para andar. Mas quando você começa a ir pros bailes, descobrir a vida, você entende que tinha que ter seu dinheiro.

Você viveu a época da São Bento? É verdade que você quase esteve na primeira formação do Racionais?
Hood. Eu ia lá desde os 14 anos. É verdade. Foi assim: tinha várias equipes de baile e muitos concursos de rap. E tinha um baile da Zimbabwe no Viola de Ouro onde teve um concurso para escolher quem iria gravar o Consciência Black Vol. 1, que foi onde saiu os primeiros fonogramas do Racionais. Naquele época, o KL Jay chegou e falou que ia tocar comigo, porque eu não tinha DJ. E ele tocava com o Edi Rock, faziam uma dupla, e tocava com o B.B Boys, que eram o Mano Brown e o Ice Blue. Se eu tivesse gravado naquele disco, talvez seria o quinto elemento do Racionais. Mas ficou uma puta amizade com eles, já matei a vontade de gravar com eles etc

O seu pai era bem rígido né?
Hood . Pra caramba!
ParteUm . É até hoje. Ele tem o “poder da sugestão” [título de uma música do ParteUm]. Nunca fala a mesma coisa duas vezes. Lembro que teve um campeonato que eu teria que trabalhar no banco no outro dia cedo. Ele foi me buscar, era bem tarde, em São Caetano. Ficou quieto o tempo todo e só falou “amanhã você pega carona comigo pro trabalho”. Beleza. Seis da manhã, só entrou no quarto e falou, vou contar até três... três. Tá bom, levantei (risos).
Hood . Era tão rígido que, se você tirasse 9,5 em uma prova, teria que tirar 10. Se tirasse 10, falava, “mas você é negro, tem que tirar 11”. Esse é meu pai. Tive uma fase conflitante com ele, hoje em dia não; é um diálogo mais tranquilo.

E na escola?
Hood . Ele era bom aluno.
ParteUm . Ele não queria saber de escola. É estranho que eu não me sentia bem na escola. Tinha mais de mil alunos e só dois negros – meu irmão já tinha saído da escola.
Hood . Fui convidado a me retirar (risos).
ParteUm . No skate comecei a me encontrar, aquele era o meu lugar. Andava com o Tarobinha, o Chupeta, o Mancha, o Alê Vianna, o Digo, o Bob; cada um tinha uma história diferente, vinha de um lugar diferente, mas no skate era todo mundo igual. Na escola não tinha isso. Eu lembro até hoje o dia que xavequei meu pai para comprar um Airwalk, igual do Tony Hawk. Foi bem na época que saí desse colégio e fui para um mais humilde, perto da minha casa. No novo colégio, todo mundo reparava no meu tênis, lá no São Francisco não: todo mundo tinha um igual ou melhor. Tava tentando entender a dinâmica das relações em sociedade nessa época. No bairro também rolava essas coisas porque não era todo mundo que era pobretão.

(Nós saímos de onde estávamos e passamos para uma área coberta em função da chuva que começa. Uma mãe traz seus dois filhos pequenos para abraçar o Rappin Hood, que conhecem da TV)

É legal ser herói da molecada na quebrada?
Hood . É muito bom. O legal é que hoje posso tocar pra 10, 20 mil pessoas, como foi agora em Belo Horizonte. Em Porto Alegre, fiz o Teatro Opinião lotado. O legal é poder ainda andar no bairro numa boa, falar com as pessoas.

Eu li em algum lugar que seu pai era um cara politizado.
Hood . Na verdade é o meu avô, pai da minha mãe. Ele foi perseguido pela ditadura do Vargas, teve o nome no DOPS, chegou a ser candidato a vereador em Araraquara, participava do Movimento Negro, então sempre fomos criados na mesma disciplina. Como sou neto mais velho, é quase uma sequência dos próprios filhos. Mas era uma cobrança boa, porque cresci em um ambiente militante.

A questão da negritude era muito discutida em casa?
Hood . Abertamente, era um assunto muito discutido em casa.

Para muitos jovens negros o rap foi o lugar onde teve essa consciência de si mesmo.
Hood . O rap foi um casamento perfeito, entende? Quando aconteceu a morte do Marcelo, no Metrô, só porque cantava rap, meus pais tiveram medo e falaram “para com isso, vai te trazer problemas”. Pra nós o rap foi a fome com a vontade de comer, um encontro perfeito.

Como foi a convivência de vocês dois?
Hood . Na infância foi bem tranquilo. Já na adolescência tivemos uma fase bem distante, de um estar fazendo uma coisa e o outro não.
ParteUm . Tinha o lance de cada um querer seu espaço também. A maneira como cada um foi criado foi diferente, até por ele ter sido o primeiro filho, o primeiro neto. Chegou um momento que não conseguíamos nem conversar.

E quando voltaram a se falar?
ParteUm . Quando voltei dos Estados Unidos, em 1999. De 1995 a 99 foi uma fase turbulenta. Lembro que teve um aniversário dele que eu não liguei e ele me ligou nos Estados Unidos. Daí meu pai nos Estados Unidos me chamou, falou que meu irmão tava no telefone e falei “É engano, meu irmão nunca me ligaria”. Mas nesse dia a gente conversou. Coincidiu com a separação dos meus pais, eu tava na faculdade, não lembro o que aconteceu.
Hood . Foi na época que assinei com a Trama. e o primeiro disco, de 2001, já teve produção dele.

Você chegou a estudar música né?
Hood . Eu estudei trombone. Mas meus pais nunca encararam aquilo como um possível trabalho.
ParteUm . Eu sempre toquei bateria. Tem um lance que é a evolução dos pais. eles aprendem também a educar os filhos. Porque meu irmão ficou pedindo um trombone por anos e demorou anos para ganhar. Minha irmã, a caçula, pediu um piano e ganhou na hora.

Você ainda toca trombone?
Hood . Toco, claro. Ontem mesmo tava assistindo um especial do Raul de Sousa, apareceu vários trombonistas famosos, o François que tocou no meu primeiro disco. Inclusive eu gosto de escutar música instrumental, jazz.

Nunca teve no horizonte a possibilidade de tocar outros estilos musicais?
Hood . Eu cheguei a tocar em grupo de samba, mas me adaptei melhor fazendo rimas. Tocando trombone eu não aguentava mais tocar música clássica. escutava James Brown, aquele trombone do Fred Wesley, e era aquilo que eu queria. Por isso misturo rap com todo tipo de música. teve uma fase que o rap era só bumbo e caixa mesmo e um sample. Desde aquela época já achava que musicalmente tinha que trabalhar mais o som, essa é a minha meta.
ParteUm . Já produzi algumas bandas de rock, fiz remix pra Nação Zumbi, pro Tom Zé. Cresci com amigos de banda de rock, aquela coisa forte do [extinta casa noturna paulistana] Der Temple, Mickey Junkies, Garage Fuzz, Tube Screamers, No Violence... Sempre tive em casa disco do Suicidal Tendencies, Adolescents, tenho muita coisa do Fugazi até hoje, sempre gostei de Rollins Band. Com todo esse trabalho de produção que eu tenho não posso me fechar em um lugar só. ficar parado em um lugar só não é bom e nossa própria formação ajudou nisso. Esperam um certo comportamento do rap, a mídia não tá preparada para um cara que tenha discernimento para lidar com outros estilos musicais, espera que seja muito bom em algumas coisas e raso em outras.

Chegamos em um ponto que acho interessante no trabalho de vocês. Ambos quebram paradigmas, a expectativa dos outros. Porque o Hood é um rappoer super identificado com o cânone do rap nacional, que é mais sisudo, aquele lance gangsta, e tem um som diferente. O ParteUm é da periferia, conhece o rap dali mas é muito admirado pela turma do rap underground, mais do centro da cidade. O que levou cada um para cada lado?
ParteUm . Eu chamo de rap alternativo. Porque rap underground é um lance que todo mundo gosta e ninguém compram. Quando vejo ele conversar com o Kleber (KL Jay), com o Brown – e eu já vi isso diversas vezes na minha vida -, tem um negócio que é verdadeiro... Quando ganhei o Hutus (a maior premiação do rap nacional), eu ganhei o prêmio das mãos da Dona Ivone Lara e fiquei lembrando do disco Pirinpimpim que tinha uma música da Dona Ivone Lara e eu: “Caramba, acabei de ganhar um prêmio da Ivone Lara”. Ganhei os parabéns da Fernanda Lima, do Otto (apresentadores da premiação), e depois os parabéns do meu irmão, do Bill, do Brown e do Smoke do Doctor's Mcs que chegou e falou “ó, você pode não atenção para o prêmio que tá ganhando, mas eu passei da lata B para a lata A na São Bento junto com seu irmão, parabéns”.
Hood . Era a divisão entre os rimadores mais conhecidos, o MC Jack, Thaíde e os que tavam começando. Tinha o JR Brown que era um líder lá e que nos avisou da nossa promoção. Foi aquele “Puta, vamos cantar agora com os caras de lá?”. Foi louco.
ParteUm . Sabendo de toda essa história do rap, não posso fazer as coisas de qualquer jeito, com qualquer um. Foi bom ouvir do Smoke aquilo, não peguei mal. O rap novo não tem mais isso, esse amor, esse carinho um com o outro. Não tem mais. Se alguém chegar e falar que tem é mentira.
Hood . A primeira geração de rappers sofreu demais para conquistar as coisas, então quando um vencia, era a vitória de todo mundo.
ParteUm . E não tem mais isso . O fato de trabalhar com estilos diferentes tem a ver com a minha criação, tem a ver com o fato de ter estudado em escola de padres jesuítas onde era um dos únicos negros na escola, e mais ainda tem a ver com o skate. O Mark Johnson fala que o skate é uma das poucas coisas que você consegue executar exatamente aquilo que você pensa. É uma boa definição. Eu descobri quem eu era no skate.
Hood . Skate é o esporte da rua mesmo. Eu só não andei porque tinha medo de me machucar. Eu tive um [skate clássico da marca] Bandeirantes, mas nunca me adaptei. Tem um lance que o rap perdeu um elo, porque cresceu muito o movimento. Tive a oportunidade de bater lata com o MC Jack, com o Thaíde., trocar idéia com o Nataniel Valêncio, JR Brown, Grandmaster Ney, Nelson Triunfo e eu era um garoto da quebrada. Mas tive um link direto com esses mestres, com esses professores. Era um time só. O rap cresceu tanto que a motivação é diferente, o mundo é mais difícil. Mas gosto do momento de hoje, porque hoje as pessoas sabem o que é um MC, o que faz um DJ, já tem um respeito. Teve gente que morreu só por cantar rap.
ParteUm . Do meu jeito eu falo disso. Tem uma letra que eu falo “a única polícia que eu respeito tem o Sting no vocal. Eu não escutei rap nacional da mesma forma que as outras pessoas. Eu ouvia o Thaíde, passava um dia ele tava na porta de casa. O pessoal falava do MRN e o DJ deles é meu primo. O mesmo com o SP Funk, o Preto Bomba andava de skate comigo.
Hood . Mas eu sei um grupo que você curtia, que te fez olhar o rap diferente (ParteUm fica com uma cara de intrigado). Vítima Fatal!
ParteUm . (risos) Nem A nem B nem C, só se for D. Eu tava vendo tudo aquilo conhecer. Talvez eu seja a parte errada disso tudo. Pra mim, eu participava de tudo aquilo do meu jeito. Eu falei uma vez pra ele: “tem um monte de coisa que os caras do rap não falam”. E ele falou “Então porque você não faz?” Eu fiquei quieto. Ele só descobriu dois anos depois que eu tava fazendo bases porque o [MC] Espião apareceu com uma demo do [grupo] Rua de Baixo que tinha uma base que ele curtiu. “Pô, meu irmão tá fazendo base? É mentira!” (risos).

E porque você não mostrou pra ele?
ParteUm . Se seu irmão é o Rappin Hood, o que você vai mostrar de rap pra ele?
Hood . Eu achei legal, mas só fui levar a sério que ele tava fazendo rap quando chegou com uma groove box em casa. aí vi que o bagulho era sério (risos). Daí a gente sentou e teve uma conversa séria, expliquei várias coisas do meio do rap pra ele.

Você tem fama de ser um cara que conduz bem a carreira, mas ser irmão do Rappin Hood já te ajudou a evitar várias “roubadas” né?
ParteUm . Qualquer base que eu faça, por mais despretensiosa que seja, eu sempre penso “meu irmão é o Hood, não posso fazer qualquer coisa”, sabe? Tem sempre um controle de qualidade na minha cabeça.
Hood . (fala orgulhoso) Mas é legal quando ele chega e fala “ó, essa base eu fiz pra você (risos)”. Ele sabe bem do que eu gosto.
ParteUm . É um trabalho sob medida. Por isso que é difícil sair por aí fazendo produção em série. Gosto de quem faz isso, como os Neptunes, o Timbaland, o J.Dilla – que poderia ter ficado bem maior. Produtor de rap que eu sigo é o DJ Rafa, porque é uma escola de produção, Consciência Humana, Baseado nas Ruas... Às vezes tô no estúdio e tá sentado ali do lado o DJ Rafa e o Vander Carneiro. O Vander fez a plástica do rap nacional.
Hood . O Vander deu a cara de toda a primeira geração do rap daqui.
ParteUm . O Beto Vilares, o DJ Luciano, produziu o MV Bill, [a faixa] “Us Guerreiro” do disco do meu irmão. O estilo dele muda muito rápido e tá aí faz tempo. Era um dos narradores do primeiro programa de rap, quando tinha 8, 9 anos. Tem que jogar mais luz nele, é um cara muito sangue bom, muito talentoso.
Hood . O DJ Rafa e o Luciano são DJs de escolas diferentes e eles se dão muito bem.
ParteUm . Esses produtores dessa época não falam mal um do outro. Para você ter uma ideia, quem me deu de presente a produção da música “Falcão” do MV Bill foi o meu irmão e o DJ Luciano, porque falaram que tinha a minha cara.

Eu vejo que a galera do tal rap alternativo como você fala assim como o do rap nacional não se ligam muito, tem uma cisão. Vocês não tem isso.
Hood . Eu sou um cara que gosto de experimentar muito e gosto de coisas variadas. Se estou com o pessoal do Mzuri Sana, o povo do Pentágono, eu tô muito bem; com minha madrinha Leci Brandão e meu padrinho Almir Guineto, eu tô bem também. Essa semana cantei com o Thaíde e foi muito bom também. Eu gosto de transitar e musicalmente experimentar. Eu quero fazer rap mais conservador, bumbo e caixa e voz bem na cara mas também quero fazer um lance doidão. Eu gosto disso. Quero mostrar propostas diferentes para cada público diferente. A virada de página que eu tentei fazer com meu trabalho, dar uma cara mais brasileira pro rap, eu acho que fui vitorioso. Mas eu acho legal fazer o rap puro também. Cada música tem uma vida diferente. Eu sou um cara da experimentação e meu irmão um cara da inovação.
ParteUm . Nunca imaginei colocar ele e o Iggor Cavalera no mesmo som (“Definição”, do último CD do Mzuri Sana).
Hood . Eu também nunca imaginei participar no disco solo do Andreas Kisser, sabe? Música proporciona isso pra gente.

Quando você lançou o primeiro single com o PosseMente Zulu ainda pegou o auge do rap nacional, de inserção na mídia, de vendas. O Fabio já pegou uma outra época, onde as coisas estão por se definir. Você que pegou as duas fases, como vê essa época?
Hood . Eu acredito que o rap brasileiro, como falou o Nelson Sargento em relação ao samba, agoniza mas não morre. O rap ainda tem muito pra gerar, vão surgir novos grupos, novas propostas e vão alcançar ainda mais pessoas que nós alcançamos. Mas não vai ter nunca mais a parceria que nós tivemos, o engajamento que tivemos, o compromisso e a luta. E eles não tem que carregar essa carga, tem mais que fazer música, desencanado. Cada um tem um peso e um tamanho dentro do rap. O que eu não posso fazer não é necessariamente o que outro não pode também. Vai acontecer muita coisa ainda. Uma vez perguntei para a Leci (Brandão) o que ela achava dos grupos de samba romântico, essas coisas aí. E ela me surpreendeu, porque falou que gostava, que achava importante, porque muita gente que começa a escutar samba ali vai conhecer ela, um Almir Guineto, um Martinho da Vila, um Jorge Aragão depois. Administrativamente, depois de várias lições, estamos nos preparando para coisas maiores. Porque quando minha geração começou, éramos todos administrados por outras pessoas, nada era nosso. tinha outros selos, por outros empresários, outras equipes de baile etc. Hoje não: somos pais de família, somos homens, temos selos, somos empresários.

Qual disco de vocês mais vendeu?
Hood . O primeiro Sujeito Homem vendeu 150 mil cópias. E já tava na época da pirataria.
ParteUm . O que mais vendeu foi meu solo e chegou agora em 5 mil cópias. Tem mixtape minha que já vendeu quase isso. Mas não me preocupo com os números. Não posso pensar em números da mesma forma que ele, eu falo com menos pessoas mesmo. Cada artista acha suas limitações e não dá pra ser o melhor em uma coisa só, até porque faço várias coisas. O Mzuri Sana já abriu para meu irmão, 7, 8 mil pessoas. Dá tudo certo: “levanta as mãos para o alto” e todo mundo levanta, funciona. Só que quando ele entra, até a tia do Sarapatel lá no fundo começa a pular (risos). É o carisma do cara, não adianta. A nova geração acha que vai ser melhor porque rima mais, tem o beat mais louco… Você ganha até o terceiro, quarto capítulo, mas e depois? Eu já tenho uma estrela na família, então meu caminho é outro. Talvez eu faça mais alguns discos solo e continue com o Mzuri Sana, mas é isso.

Tem alguém que você ache que tem essa estrela, esse carisma?
ParteUm . Não.
Hood . O Johnny MC tem muito carisma e tá vindo com disco. Quando ele passa, até cachorro cumprimenta ele, todo mundo gosta dele (risos). Mas como o Sabotage, acho difícil vir outro. Mas isso que estamos falando pode dar a impressão que só nós somos competentes. Não é isso. São momentos diferentes e vai ser difícil surgir pessoas com essas mesmas características. Hoje não existe mais uma estrela, não funciona mais assim.

Não tem uma má vontade da imprensa com o rap? Porque tirando o Rappin Hood, o MV Bill, o Marcelo D2 e o Racionais, dificilmente você vê algo relacionado ao rap.
(Os Dois, empolgados): Tem!
Hood . e não é só na escrita, é na imprensa em geral. A gente ainda tá estereotipado, tem muita barreira pra quebrar. E tem o lance que há portas que só abrem para uns e não para outros.
ParteUm . Não dá pra trabalhar em bloco.
Hood . Tem lugar que só aceita o MV Bill, tem lugar que só me aceita. Temos que quebrar esse tipo de coisa.
ParteUm . Aqui, agora, estamos fazendo um lance muito positivo, porque já dei algumas entrevistas por aí que esperam que eu tenha o comportamento do meu irmão e vice-versa. Minha gerente do banco me viu na TV Cultura. E falou: não sabia que você fazia rap, mas nem fala palavrão”. E eu: “Não, rap é rap: ritmo e poesia”. Não vá me dar crédito maior ou menor porque meu rap não tem palavrão, entendeu? Esse é o problema com a nova geração. Porque eles tão fazendo coisas diferentes, mas fazem a mesma coisa que a geração antiga, a mudança é natural. Desde quando o Bambattaa começou a ouvir Kraftwerk.
Hood . O que meu irmão tá falando é que a nova geração do rap tem que parar de competir. Sabe quando o rap naciuonal foi mais forte? Quando tava todo mundo na merda por igual. Porque um vibrava com a vitória do outro.

Nem tem mais dinheiro no meio.
Hood . Não tem. Antes rolava show com 10, 15 bandas, ia todo mundo que gostava de rap. Era os bailes do Projeto Rap, Geledés, da extinta revista Podicrê. Foi esse trabalho de formiga que nos trouxe até aqui. Em 1993, Segundo show que eu fiz na favela de Heliópolis, chamei o Racionais e montamos o palco na mão. Se a molecada de hoje tivesse essa visao de dar a mão um para o outro, se aliar, o papo era diferente.
ParteUm . É aquela coisa do punk, do faça-você-mesmo.
Hood . O que acontece hoje é um pouco previsível. Teve um problema administrativo, de saber distinguir movimento sociopolíticocultural e indústria cultural. O movimento é revolucionário, mas a indústria precisa divertir. Muitos consomem música pra se divertir, não só como uma coisa panfletária. No rap a militância atropelou a diversão, daí vieram outros estilos que tomaram esse lugar, como o funk carioca. o povo brasileiro é quente, gosta de dançar. Agora o rap tá achando um meio termo, com discurso e música pra se tocar na pista, para tirar um lazer. Esse é o momento do rap. O Brown ter ido no (programa) Roda Viva, um cara que quase nunca fala, é um pouco reflexo disso tudo.

Quando você foi no Domingão do Faustão o pessoal pegou mal?
Hood . Se pegaram mal não vieram falar. O que chegou em mim foi só elogio. Eu bati na lata da São Bento, ninguém vai vir falar que eu não lutei. Você ficar exposto em revista e site de fofoca é uma coisa. Você ter um trabalho sério para lançar um disco, ter uma gravadora, uma agenda de divulgação é outra. O rap não tinha essa noção. Era só lançar o disco e ir pra rua. Agora o negócio tá se profissionalizando.

Melhor qualidade do seu irmão:
Hood . A organização.
ParteUm . Poder de síntese.

Pior defeito do seu irmão:
Hood . Ele é tão dedicado que ele cobra todo mundo pra ser igual ele. É muito perfeccionista.
ParteUm . Impaciência (risos).

Melhor som que teu irmão te apresentou:
ParteUm . “Rebel Without A Pause” do Public Enemy.
Hood . O melhor som foi o Nas, Illmatic.

Melhor som do seu irmão:
ParteUm: Gosto muito da primeira versão de “É Tudo no Meu Nome”, com sample do Herbie Hancock.
Hood . “Dragão Mimado”, no primeiro disco do Mzuri Sana.

Um disco, livro ou filme que é a cara do seu irmão:
Hood (animado) . Putz, um filme com a cara do meu irmão é Ao Mestre Com Carinho, com o Sidney Poitier.
ParteUm . O Alienista, do Machado de Assis. Fica procurando a loucura nas pessoas, mas a loucura tá nele (muitos risos).

Como você definiria seu irmão:
Hood . Um cara muito dedicado.
ParteUm . É um mágico, por tudo o que a gente passou, pelo que ele faz. Você vê isso com as pessoas que conversam com ele.

Que time vocês torcem?
Hood . Corinthians, lógico.
ParteUm . Não torço pra nenhum.
Hood . Mentira! É santista (risos). Quando o Santos foi campeão e o Robinho deu aquelas pedaladas, ele vibrou (risos).

Vocês já gravaram com vários músicos. Com quem gostariam de gravar?
Hood . Hoje em dia gostaria de gravar com o Raul de Souza.
ParteUm . Tem vários. Um cara que eu gostaria que produzisse algo, mas já faleceu, era o J. Dilla. Um cara que eu queria trabalhar mas é quase impossível, é o Herbie Hancock.

Um disco de Rock.
Hood . Tem dois discos que escutei muito de rock nacional: Titãs, Cabeça Dinossauro e o primeiro do Legião Urbana. Internacional, um que escutei muito mesmo, é o The Wall do Pink Floyd. Deixa uma menção honrosa para o Living Colour também.
ParteUm . O The Reality of My Surroundings do Fishbone. Rock nacional vou ficar devendo.

Um disco de samba.
ParteUm . O Samba de Roda do Candeia e o Coisas da Vida do Roberto Ribeiro.
Hood . Memórias de um Sangento de Milícias do Martinho da Vila.

Disco de música brasileira.
Hood . Eu sou muito fá do Djavan.
ParteUm . Pô, ia falar ele.
Hood . Um é o Extra do Gilberto Gil e o Luz do Djavan.
ParteUm . É o Luz do Djavan também.

Novos projetos?
Rappin Hood . Sujeito Homem 3 e depois um ao vivo, com DVD. Tudo lançado pelo meu selo, Raízes e distribuído pela Trama. Vão ser 17 faixas inéditas.
ParteUm . A minha mixtape que saiu é um rascunho do meu novo disco. eu tinha 80% do disco pronto, mas agora mudei tudo.

Saiba Mais:

www.rappinhood.com.br/
www.parteum.com/