Por Arthur Dantas Na edição 10 da revista +Soma há uma matéria sobre um dos maiores nomes da história da música instrumental moderna no país - o Grupo Um. Para realizar a matéria, falei com os irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazário. Abaixo, as entrevistas na íntegra.
Eu queria que você falasse sobre a gênese do Grupo Um. Vocês tinham uma educação musical mais formal? Qual eram as perspectivas musicais naquele momento e o que levou vocês a essa direção mais free jazzística?
Lelo . Bem, eu e o Zé sempre estudamos música erudita desde muito cedo, tanto com professores particulares como em Conservatórios (as escolas de música da época). O Zeca Assumpção havia se formado na Berklee School of Music, em Boston, EUA, e o Mauro Senise havia estudado com o Paulo Moura e a flautista Odette Ernest Dias. Todos nós sempre gostamos de jazz, que é uma música muito rica e complexa, que permite a criação de estruturas formais, escritas, mas que admite elementos criativos que dependem do momento em que são tocados. Braxton, Taylor e Coltrane trilharam este caminho, bem como diversos outros artistas que admirávamos. Tínhamos o cuidado de nunca copiar e o resultado do trabalho mostra isso.
A música brasileira já havia encontrado o jazz, de forma mais nítida em forma de bossa nova e depois em grupos da segunda leva da bossa nova que criaram o que ficou conhecido como bossa-jazz. O Grupo Um foi um novo passo nesse sentido, porque unia a música brasileira mais de experimentação com o free jazz. Você acha que houve uma continuação nesse sentido ou há um lapso pós-Grupo Um?
Lelo . Acredito que houve uma continuação. Hoje vejo muitos músicos que têm uma formação erudita sólida mas também se interessam em tocar a música instrumental nesse formato mais jazzístico, como o André Mehmari, ou músicos que pesquisam outras maneiras de combinar o lirismo com as formas rítmicas brasileiras, como o Benjamin Taubkin e a Orquestra Popular de Câmara. Eu mesmo, continuo expandindo os horizontes das minhas músicas, inserindo muitos elementos novos, além dos sons incríveis dos mais recentes sintetizadores virtuais. Certamente, muitos outros artistas tentaram caminhos mais experimentais, mas não conseguiram divulgar seus trabalhos. A mídia escrita se tornou especialista em dedicar grandes espaços nos cadernos de cultura para artistas da indústria do entretenimento e muito pouco espaço para artistas que se dedicam a abrir caminhos (e horizontes). Vivemos este paradoxo: a mídia escrita e televisiva dá grande importância a coisas sem valor do ponto de vista artístico (mas com algum valor comercial) e pouquíssima ou nenhuma importância a coisas de alto valor artístico. A internet está mudando tudo isso.
Bem joven você acompanhou verdadeiros ícones da música mundial como Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal e gravaram pelo selo Lira Paulistana. Isso me leva a duas questões distintas: como vocês dialogavam com o cânone da música instrumental brasileira, onde insere-se Gismonti e Paschoal, e qual a relação com artistas mais identificados ao que ficou conhecido como vanguarda paulistana dos anos 80, representado por artistas como grupo Rumo, Arrigo Barnabé e Itamar assumpção, por exemplo?
Lelo . O Hermeto é uma pessoa muito calorosa e gentil, sempre nos tratamos mutuamente com muito respeito e admiração. Acho que a nossa passagem pelo seu grupo trouxe novos elementos à música que ele fazia, da mesma forma que a sua experiência e conhecimento nos enriqueceram bastante. Com o Egberto se deu o mesmo, acredito. Com relação ao Lira Paulistana, é preciso lembrar que o Lira, na época, era apenas uma minúscula gravadora que lançava artistas com trabalhos de produção independente. Existiam alguns idealistas ali que realmente ajudavam os músicos em toda essa parte de produção e divulgação dos trabalhos vinculados à gravadora. Entretanto, quando o Lira foi “encampado” pela gravadora Continental, acabou se tornando uma pequena subsidiária da companhia, nada mais. Com relação à vanguarda paulista de 80, sou amigo de vários artistas como o Arrigo e a Ná Ozzetti, mas todos eles estavam trabalhando para criar, principalmente, canções de vanguarda. Nós nos dedicávamos a criar música instrumental.
O país está vivendo uma retomada da música instrumental brasileira como fazia tempo não ocorria. Você tem acompanhado algo dessa movimentação.
Lelo . Bem, com a comunicação se desenvolvendo cada vez mais entre as pessoas, é natural que existam cada vez mais grupos musicais de todas as tendências. O Brasil sempre teve músicos excepcionais e continuará a ter sempre estes talentos. Tenho, no entanto, observado em muitos músicos jovens um comportamento padrão de tentar repetir o que já foi tocado (e muito bem tocado…) no passado. É como a discussão entre Miles Davis e Wynton Marsalis, o primeiro um criador incansável e o segundo um repetidor incansável. Eu gostaria que os músicos cada vez mais tivessem o espírito do Miles - estudar todo o passado e absorvê-lo, para depois apresentar um trabalho que traz algo de novo à cena musical. Repetir é necessário para aprender, mas é sempre desejável que se traga algo que foi criado e não copiado.
Acredito que hoje, assim como o Grupo Um em sua época, haja muitos músicos querendo criar realmente, que depositam suas energias fundamentalmente no ato musical em si. Acho que há um ambiente desfavorável criado pela crítica especializada que cada vez mais joga lado a lado com a indústria de entretenimento. Havia um clima favorável à artistas como Grupo um e Arrigo Barnabé, por exemplo, na década de 80, não? Gostaria que comentasse um pouco.
Lelo . Sem dúvida. Esse dueto crítica-indústria se tornou o paradigma das editorias de cultura (e de outras áreas também) dos jornais, infelizmente. Na década de 80, artistas como nós, Arrigo ou a Divina Increnca, tinham matérias de página inteira no Jornal da Tarde, por exemplo, quando fazíamos uma temporada de concertos. Hoje, a mídia funciona mais como um folheto de propaganda da indústria.
O que fez com que se encerra-se a trajetória do Grupo Um? Há a possibilidade de uma volta, nem que seja para dar a chance a nova geração de ver o grupo em ação?
Lelo . Acho que todos os músicos tinham necessidade de desenvolver projetos pessoais e o trabalho no Grupo Um exigia uma grande dedicação e muitos ensaios, pois as músicas não eram fáceis de se executar. Creio que a possibilidade de uma volta sempre existe, já que estamos todos vivos, com saúde, continuamos amigos e tocando cada vez melhor.
Quais são suas pesquisas musicais no momento? Que tipo de música lhe interessa atualmente e há projetos para 2009?
Lelo . Hoje gosto muito de pesquisar as novas tecnologias aplicadas à música, os softwares voltados para a criação de música e gravação. Tenho um estúdio de masterização (que é o último processo da finalização de um CD, antes de ir à fábrica) e gosto muito de trabalhar como engenheiro de som. Aprecio toda música que seja feita com inteligência e emoção. Esse é o binômio para a criação de qualquer obra artística de valor. Para 2009, já estou gravando as composições do meu novo CD, com uma infinidade de sons eletrônicos e alguns solistas convidados.
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Entrevista com Zé Eduardo Nazário.
A 'Barraca de Percussão' foi uma invenção tua?
Zé . Comecei a trabalhar com percussão por volta de 1967, dando umas canjas num lugar chamado "Totem", logo depois montei com o Guilherme Franco o primeiro grupo de percussão contemporâneo do qual tenho notícia aqui no Brasil, que usava uma vasta instrumentação, com baterias, instrumentos de escola de samba, berimbaus, tabla indiana, instrumentos de teclado tipo vibrafone e marimba, instrumentos de efeito, sinos, cowbells, tumbadoras, caxixis, etc... O que havia antes era a formação tradicional de orquestra sinfônica, com tímpanos, caixa, gongos, teclados, triângulo, etc ; e algumas peças de compositores de música contemporânea que usavam às vezes instrumentos pouco comuns, junto a esse "set". Alguns percussionistas e grupos de percussão europeus também faziam uso de alguma instrumentação diferente da tradicional. Os primeiros percussionistas brasileiros que ficaram conhecidos por usar esse tipo de instrumentação mais abrangente e misturando instrumentos brasileiros no jazz, foram o Airto Moreira e o Dom Um Romão (com Miles Davis e Weather Report), lá por volta de 1970. O Guilherme Franco também foi para os Estados Unidos em 1972 e usou essa parafernália com o McCoy Tyner e o Keith Jarrett, mas até aí ninguém tinha montado (que eu saiba) uma barraca do modo que eu fiz no grupo do Hermeto em 1973. Era uma barraca igual às das feiras livres, enorme, e isso ocorreu devido à necessidade de ter no lugar certo determinado instrumento para ser usado em um arranjo numa determinada hora, misturada aos instrumentos brasileiros e à bateria, o que a caracterizava como um "set" original. Nunca tinha visto nada igual à barraca que montei, com sucata industrial, tachos e leiteiras de ferro e outras coisas que "viravam" instrumentos, em volta da bateria, mas sei que depois de alguns anos usando e aperfeiçoando meu equipamento, muita gente passou a usar também, virou moda, em todo lugar tinha lá o percussionista ou o baterista com a barraquinha brasileira de percussão do lado. Acho que se eu tivesse patenteado, teria ficado rico (ha ha ha).
O grupo um usou a bagagem do samba/jazz e expandiu a música instrumental brasileira levando para uma direção mais afeita ao free jazz. Pensa que houve uma continuidade nessa tradição mais experimental na música instrumental brasileira?
Zé . Na verdade a linguagem do samba/jazz era uma coisa da década de 1960, da minha infância e início de adolescência, quando eu ouvia muitos discos de jazz e música brasileira, e foi a música que toquei no início da minha carreira. Mas a partir do nosso trabalho com o Hermeto (Lelo, Zeca e eu), passamos a pensar numa estética diferente, que embora possa ser relacionada ao "free jazz", tinha aspectos bem particulares, tanto na parte melódico/harmônica, quanto na rítmica, que determinaram primeiro a surpresa com que fomos recebidos no meio musical e depois o sucesso e o reconhecimento que obtivemos e do qual continuamos gozando até hoje.
O Brasil tem uma escola de grandes baterista/percussionistas, como Édison Machado, Dom Um Romão, Hélcio Milito, Jackson “Mamão” Conti, Nenê, Airto Moreira e Naná Vasconcellos. Destes músicos quais te inspiram ou sente ligado de alguma forma?
Zé . Respeito a todos igualmente, cada um com seu estilo e concepção musical, alguns são ou foram também próximos como amigos, e como citei na primeira resposta às suas perguntas, são aqueles que me causaram as primeiras impressões ao ouví-los os que ficaram como raíz daquilo que me possibilitou crescer na minha profissão, e criar minha própria maneira de tocar. Desses que você citou, Edison Machado e Dom Um Romão foram os que primeiro me inspiraram, ao ouvir suas gravações na época da "bossa nova".
Eu queria que você falasse sobre a gênese do Grupo Um. Vocês tinham uma educação musical mais formal? Qual eram as perspectivas musicais naquele momento, o que levou vocês a essa direção mais free jazzística, com uma aclimatação bem peculiar do trabalho de artistas como Anthony Braxton, Cecil Taylor e Coltrane, por exemplo.
Zé . Meu primeiro instrumento foi o piano (clássico), depois tive cerca de dois anos de aulas de percussão sinfônica. Comecei tocando profissionalmente aos treze anos nos principais shows musicais da televisão, em 1965. Ouvia muita música brasileira, jazz de todos os tipos e música erudita, e a experiência de tocar com grandes músicos também foi muito importante como aprendizado. O Brasil sofreu uma ruptura cultural e política com a ditadura, e as perspectivas musicais e artísticas foram alteradas, ninguém escapou a essa readaptação. Foram necessários vários anos para que o meio musical brasileiro voltasse a produzir uma música instrumental de boa qualidade, mas não comparo o trabalho do Grupo Um com o de nenhum outro artista ou grupo, pois nós também os influenciamos (seria muita ingenuidade não considerar que os músicos estrangeiros sempre foram bem informados sobre o que estava acontecendo por aqui), e considero o nosso trabalho bastante original, pois já naquela época (anos 60), com a bossa nova, e desde então, foram os músicos de outras partes do planeta é que se voltaram para o Brasil como fonte de influência. Nós (brasileiros) é que estávamos criando algo novo. O Grupo Um foi fruto de uma época onde havia necessidade de criar, talvez porque houvesse muita imitação ao nosso redor, e tinhamos que deixar algo relevante para as próximas gerações. Nesse aspecto tenho a convicção de que fomos bem sucedidos.
Você tocou com Hermeto Pascoal na metade dos anos 70, gravou com Toninho Horta e no clássico álbum 'Imyra Tayra Ipy' do Taiguara. O que dessas experiências você levou adiante no Grupo Um?
Zé Eduardo .Todas as experiências profissionais pelas quais passei foram importantes, pois me deram a oportunidade de atuar e observar, extraindo delas o melhor proveito possível, tanto para minha vida profissional quanto para minha evolução como ser humano, trago-as comigo sempre, inclusive as que tive com o Grupo Um e todas as outras que vieram depois, nesses últimos trinta anos.
Quais são suas pesquisas musicais no momento?
Zé Eduardo . Bom, o último cd que gravei foi em Boston, "Encounterpoint", com o guitarrista e professor da "Berklee", John Stein. Lançado no segundo semestre de 2008, nos Estados Unidos, esse trabalho está entre os CDs de jazz mais tocados nas rádios norte-americanas e foi apontado pelo jornal "Tribuna da Imprensa" do Rio de Janeiro como um dos dez melhores cd's de jazz de 2008. Estou preparando um novo cd, "Poema da Gôta Serena e Outros Poemas", que será lançado em breve pela gravadora "Editio Princeps", que inclui o material do vinil original de 1982, com vários "bônus", cobrindo um período que vai de 1977 a 2004, com gravações inéditas do Grupo Um, Grupo Experimental de Percussão de São Paulo, Duo Nazario com Teco Cardoso e Quinteto ZEN.
Saiba Mais:
http://nazario.atspace.com/
http://www.editioprinceps.com/