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Wed: 11-04-09

Exposição Virtual: Fabio Zimbres

Desenhos de Sucata

 

 

 

 

Por Tiago Mesquita . Fotos Marina Camargo

 

Contar a piada: Meio

Em 2000, Fabio Zimbres lançou um daqueles divertidos livros animados, em que as figuras se mexem enquanto folheamos rapidamente. Trata-se de uma narrativa muito simples, na verdade uma gag, típica de antigos programas humorísticos. Acredito que a pequena peça seja exemplar da linguagem de Zimbres nos desenhos, quadrinhos e ilustrações.

O livro dedicava-se ao decoro, aos bons costumes e ao respeito ao próximo. Não por acaso, foi intitulado Bem Educado. O artista gosta do assunto. Tanto que reuniu alguns dos seus desenhos e pinturas em um volume chamado Guia Prático de Boas Maneiras. Alguns de seus personagens, como Hugo, das tiras do álbum Vida Boa (2009), e Alcides, em Música Para Antropomorfos (2007) perdem um tempão escutando ou se auto-punindo pela inadequação às regras do "bom comportamento".

Em Bem Educado, dois personagens de chapéu se encontravam e se cumprimentavam. Um deles era a caricatura do homem sem qualidades. Desenhado esquematicamente, não tinha maiores características e nem detalhes que o singularizassem. Por isso, poderia estar tanto na margem direita superior de um convite de festa junina, como ocupar a estampa daqueles belos pijamas confeccionados na cidade de Borda da Mata (MG). Tal como as figuras egípcias nos hieróglifos e nas tumbas da antiguidade, era desenhado com a cabeça de perfil, o corpo de frente e os dois pés, lado a lado, idênticos, sem parte de dentro e nem parte de fora. Era uma forma idealizada, sem carne nem particularidades. Zimbres não dava pista de quem era o sujeito, mas colocava botõezinhos no que parecia ser sua camisa e um chapéu na sua cabeça. O figurino transformava aquelas formas simples e dóceis, aquela silhueta achatada, com membros como apêndices, em um caipira, vestido como os homens de respeito se apresentavam no Brasil antes da década de 50 e continuam a se apresentar nas zonas rurais. Diante dele, um robô, feito com peças quadriculadas, de chapéu na cabeça e sunga nas partes pudorentas. Ele aparecia de frente, olhando para nós, que manuseamos o caderninho, e não voltava o olhar para o seu interlocutor.

Como muitos dos personagens de Zimbres - sejam eles humanos, cachorros que falam, vestem terno, desenhos que se destacaram do papel - o robô parecia uma montagem de blocos coloridinhos a andar pelas ruas. Mecanicamente, guardava semelhanças com o homem, e fazia um gesto banal, mas recomendável quando alguém que merece respeito aparece diante de você. O caipira tirava o chapéu da cabeça e saudava a máquina, demonstrando cortesia. O robô, tão simples e cortês quanto seu interlocutor, notava a boa vontade e repetia o cumprimento. Notávamos aí que o decoro era um gesto automático, como se o robô estivesse aprendendo a ser gentil - ao retirar o chapéu, retribuindo uma gentileza, ele não notava que tirava fora sua cabeça. A máquina pifava e o caipira se assustava com o suicídio cometido pelo robô em nome dos bons modos. Como boa parte das histórias de Zimbres, o desfecho era ao mesmo tempo trágico e cômico.

De forma condensada, o trabalho parece revelar alguns assuntos recorrentes na obra do artista. O primeiro, e mais evidente, é colocar, em um espaço meio indistinto, figuras que não parecem pertencer ao mesmo mundo. Ninguém espera que um robô conviva com um caipira a ponto de cumprimentá-lo na rua. Outra coisa que interessa Zimbres é remover a cabeça e outras partes do corpo de seus personagens. Agora mesmo, em 2009, ele mostrou uma série de desenhos à caneta em que figuravam disquetes, fitas cassete e outros objetos desmontados. As peças, afastadas umas das outras por linhas tracejadas, pareciam disponíveis para fazer qualquer coisa. Como em suas histórias, ele desmonta e remonta, faz da narrativa o que quer.

 

Desmontar: Começo

Em outros momentos, Zimbres deu sentidos diferentes à mutilação. Começamos do meio, então voltemos ao começo.  Ainda na década de oitenta, Zimbres editava a revista Animal junto com Newton Foot, Priscila Farias e Rogério de Campos. Já no primeiro exemplar, ilustrava o índice com uma série de nove desenhos em que aproveitava a cabeça de um rato e a colocava sobre nove corpos diferentes, separados à mesma distância; um padrão de fazer inveja a quem arranja as prateleiras dos melhores supermercados e a qualquer artista do minimalismo.

A cabeça de rato se parecia muito com a cabeça do Mickey, mas sem os traços de neotenia que nos fazem ver no personagem de Walt Disney uma figura bonitinha que nunca envelhece. Em cada uma de suas nove aparições, o rato era uma coisa diferente. Surgia com a blusa do Pato Donald e os membros inferiores de um rato de esgoto; com as luvas e sapatos do Mickey, mas nu, com o sexo exposto; como robô, executivo, super-herói, super-herói decadente e dançarina havaiana.

Ao deslocar uma parte do corpo de um ícone dos quadrinhos e montá-lo nas partes de outros personagens, Zimbres subvertia o sentido daquelas figuras e mostrava a que a sua geração vinha. No seu desenho, o rato continua a ser Mickey, mas menos idealizado e mais trágico, como se tirasse a fantasia e largasse com ela toda a segurança de um desenrolar previsível e feliz. Agora a vida dele era vivenciada como a nossa. Essa nova abordagem dos personagens e das narrativas dos quadrinhos era almejada por boa parte dos autores e editores da Animal. Figuraram, naquelas páginas, gigantes como Vuillemin, Andrea Pazienza, Jaca, Gary Panter, Filipo Scozzari etc. Buscavam uma renovação da narrativa e do desenho nos quadrinhos. Desde o uso de balões até a disposição dos quadros na página, tudo podia ser repensado.

 

Zimbres e seus parceiros de jornada buscavam o mesmo tipo de liberdade narrativa e de desenho livre, sem nem a infantilização do traço nem o kitsch musculoso das revistas de herói. A ideia hegemônica de underground ainda tinha algum sentido contestador. Procurava-se afirmar um gosto que não é o estabelecido e não quer ser refinado, mas que procura contar algo novo, que até então não interessava a ninguém. Mas, ao contrário dos comix dos anos sessenta, que criaram a HQ underground, os quadrinhos de Zimbres não buscavam uma relação com as alucinações e nem com realidades subterrâneas, cheias de aspectos repugnantes, sexo e excrementos. Sua abordagem não era de um realismo ao modo de Daumier ou os Freak Brothers, de Gilbert Shelton. Como na história do caipira e do robô, lhe interessam situações corriqueiras - aliás, absurdas de tão corriqueiras.

 

Uma de suas primeiras páginas, de 1990, foi a série Minha Vida de Cachorro. Nela, um personagem com cara de cachorro e corpo de gente, como o Pateta, aparecia flutuando sob um feixe de luz, como em um programa de TV, e dizia: "levitar é fácil, basta tirar os pés do chão". Nada de fato acontecia e ele não nos ensinava nada.

Em vez de recriar as alucinações, o artista desfazia a ilusão e, com o tempo, passou a se ocupar de ilusões cada vez mais complexas. Fez formas de desenhar mais simples e modos ainda mais sofisticados de dispor as figuras na página. Em 1991, com a Animal na raspa do tacho e o amor no peito, Fabio Zimbres mudou-se para Porto Alegre. Lá, se aproximou das artes plásticas e aprofundou sua pesquisa. Sua abordagem dos quadrinhos passou a lidar com o espaço da página e distribuir narrativas simultâneas, que muitas vezes se sobrepunham umas às outras. As formas de decompor e desconstruir, antes temáticas, passaram a se ocupar com a narrativa e o modo como ordenar a passagem de uma página à seguinte. Por isso, ele passou a se dedicar cada vez mais ao desenho, à pintura e à ilustração.

Curiosamente, o raciocínio trabalhou com algumas questões que perpassaram boa parte da produção pictórica da década de oitenta. Muito da pintura feita naquela época se dedicava a sobrepor e relacionar figuras que pareciam pertencer a momentos diferentes. O trabalho de David Salle foi o exemplo mais caricato desse tipo de trabalho. Lá, duas instâncias de pintura falam de forma cínica sobre uma moralidade sexual. Uma camada é mais realista, outra um desenho transparente que aparece sobreposto à imagem mais convencional. Embora essa sobreposição tenha ótimos resultados na pintura de um Julian Schnabel, considero fraco o modo como Salle associa uma parte à outra. O artista usa uma imagem como espécie de sentido oculto da cena pintada com mais rigor. A figura mais apagada explica e condena a outra.

Salle não inventou isso e nem estava sozinho: era o espírito de uma época, e ótimos artistas brasileiros trabalharam a questão muito bem. No trabalho de Zimbres, acredito que isso tenha aparecido por ele trabalhar no entrecruzar de diversas poéticas. Agora, nada mais distante da produção de Zimbres do que essa intenção didática. O que ele consegue com essa sobreposição é criar associações livres. A ideia, creio eu, veio dos quadrinhos. Como ele tem uma cultura de quadrinhos maior que a biblioteca de Alexandria, seu raciocínio em pintura e em desenho sempre acompanhou uma reflexão sobre a linguagem. O artista também foi editor, por anos, da coluna Maudito Fanzine, em que acompanhava a produção de zines de todos os cantos. Talvez por isso ele tenha encontrado na produção de livros de artista a melhor forma de reunir aquele raciocínio de pintura e ilustração com o das narrativas sequenciais. Já em suas primeiras tiras, havia uma espécie de indefinição do lugar onde acontecem as cenas e uma omissão do que acontece no intervalo entre um quadrinho e outro.

Quando o desenhista começou a trabalhar os seus livros de artista, como Adelante, A Luta Entre o Bem e o Mal e Balanço Anual, os assuntos passaram a ser a forma de o desenho ocupar a página, a falta de sentido de signos soltos e mesmo a tentativa de retirar qualquer sentido moral das figuras. O traço do artista tentava diminuir a zero o grau de interpretação. Não se tratava mais de quadrados que criavam uma narrativa no tempo, mas figuras que ocupavam um espaço e faziam algo naquelas páginas por se associarem de uma forma meio solta.

 

Livros como As Férias de Hércules e o trabalho magistral feito a partir do poema Panamá (2004), de Blaise Cendrars, aproveitam o caráter gráfico e intercambiável das figuras, que muitas vezes são tratadas como caracteres soltos no espaço, que mudam de sentido de acordo com o contexto. Como palavras que, utilizadas em um lugar diferente, aludem a sentidos diversos.  Em seu gibi Música Para Antropomorfos (2007), um homem esquisito é apresentado como um sujeito solitário, a criar bichos de sucata e atribuir vida a eles, e depois é mostrado como um prédio. Torna-se um grande empreendimento imobiliário, onde acontecem golpes de estado, programas culturais e todo o tipo de absurdo da razão.

 

A partir desse momento, o artista estabelece uma relação solta entre os elementos. As cenas são sugeridas, mas cheias de interferências. A ilusão feita e refeita pela proximidade das figuras. Quando refaz as imagens de Cendrars em Panamá, Zimbres procura isso. Aqui, permito-me aproximar alguns desses procedimentos poéticos de decisões das primeiras vanguardas modernistas. Por um lado, a associação vem do trabalho feito a partir do poema de Cendrars, mas essa dissolução da cena cria relações soltas entre as figuras e mesmo entre os elementos de cada figura.

Mal comparando, quando Picasso e Braque, em 1908, durante o chamado cubismo analítico, resolveram desmanchar o volume e dissociar os contornos e cores do desenho, criaram outras relações e trouxeram liberdade para a arte. Logo, as faces de uma paisagem eram tão planas quanto as letras da tipografia e, assim, passavam a se relacionar como elementos superficiais. Esses elementos por vezes sugeriam imagens, por vezes apenas uma coisa ao lado da outra. Mas se tratava de um período heróico da modernidade, com confiança na razão e no seu potencial de colocar as coisas juntas.

Fabio Zimbres trabalha em outro período, a partir de outros elementos. Por exemplo, figura material obsoleto, fitas, disquetes. Imagens gastas, como a do Mickey. Desenhos e figuras se parecem com resíduos de um futuro que já passou. Por isso, ainda se trata da ilusão. Em Música Para Antropomorfos, a manutenção da primeira edição de alguns livros e a audição de discos na prensagem original faz toda a diferença. Os personagens, que acreditam viver em um ambiente superior - quando vivem enclausurados em um robô -, acreditam que um disco de vinil modificará a vida de um sujeito de um modo que a cópia digital jamais fará. Enquanto vivem um golpe de Estado, perdem tempo com discussões vitais sobre as diferenças de tradução do sábio Undraganah por Jundaí e Thelonious Monk.

Juntar as peças: Final

Para encerrarmos com o fim, em 2009 Fabio Zimbres lança Vida Boa. Nele, o artista reuniu as tiras que ele publicou entre 1999 e 2001 na Folha de S Paulo, fez mais quarenta tiras e arrumou tudo em uma história. Acompanhamos as desventuras de um cachorro antropomorfizado a lamentar sua falta de sorte, seu fracasso e celebrar as suas conquistas para um copo.

O objeto começa a falar depois que um dos amigos de Hugo, também com cara de cachorro, diz que "Deus poderia ser um copo". E o copo responde. Depois disso, não sabemos se os diálogos com o copo são o superego do protagonista ou um objeto bem acabado a caçoar da vida patética dele. O fato é que Hugo passa a depender completamente da interlocução com o objeto, tal como muitas outras formas de oráculo ou de manias que criamos para a vida. Mas a maior ilusão de Hugo é a de que amanhã, tudo bem. Pouco a pouco ele perde quase tudo, menos a esperança de dias felizes. O tema também aparece nos desenhos que o artista expôs este ano em uma coletiva em Porto Alegre. Em trabalhos feitos a caneta, pedaços de figuração parecem inventar espaços domésticos e paisagens quase primitivas. Tudo parece meio falso, como as promessas que fazemos pra nós mesmos deitados na cama.

Em 2006, Zimbres publicou um artigo no jornal da Sociedade dos Ilustradores do Brasil. Nele, concluía: "Se o mercado de ilustração se resumisse a fazer sempre o que o editor quer, eu estaria fazendo outra coisa. Não porque ache isso menor, mas porque é uma forma de trabalhar que não me interessa pessoalmente. O mercado de ilustração é vasto e há muita coisa diferente para se fazer. O importante é cada artista achar seu lugar." Fabio Zimbres achou o seu, e é um universo.

 

Saiba mais:

www.fzimbres.com.br