Por Mateus Potumati, de Goiânia . Fotos por Marília Assis e Priscilla Deretti
Se 2009 deixou uma lição aos fãs de música, foi a de que é impossível ficar indiferente a certas bandas contemporâneas. Uma delas, o Dirty Projectors, lançou seu disco mais importante neste ano (o elogiado Bitte Orca, onipresente nas listas de melhores), e com ele veio uma onda violenta de reações que vão da adoração efusiva - aí inclusos nomes como David Byrne, Arto Lindsey e Caetano Veloso - ao ceticismo e ao mais franco desprezo por sua abordagem vanguardista de estilos variados como o punk, o indie rock, a no-wave, o pós-punk, a música africana, o hip-hop, a composição europeia contemporânea e os ares tropicalistas. Em meio a esse turbilhão, o sexteto do Brooklyn fez ontem, no Goiânia Noise, o primeiro show de sua primeira turnê brasileira (que ainda inclui o Rio de Janeiro neste domingo, 29, e São Paulo na quarta, 2).
À plateia de Goiânia - entusiasta de um rock mais básico, mas aberta a novidades -, o produtor Fabrício Nobre declarou, antes do show: "Como fizemos no ano passado e no anterior, trazemos mais uma vez uma banda de quem o mundo está falando, no momento mais alto de sua carreira até agora". Finalmente, os Dirty Projectors puderam falar por si próprios no Brasil.
Antes do show dos norte-americanos, a quarta e mais variada noite de shows do Goiânia Noise 2009 teve ainda, entre outros, o psicodelismo nortista do Mini Box Lunar (AP), o rock argentino dos Los Lotus, o carnaval à Gogol Bordello do Mama Rosin (Suíça), a vanguarda mineira-paulista de Porcas Borboletas + Paulo Barnabé e o pós-punk paulista das Mercenárias, além das catarses roqueiras locais Mechanics + Grupo Empreza e Black Drawing Chalks + Chuck Hipolitho.
Dirty Projectors
Com o público ainda chegando ao palco Pyguá, o grupo abriu a noite com a intimista "Two Doves", cantada por Angel Deradoorian (que também toca baixo e teclado). Acompanhada apenas pelo guitarrista e líder da banda Dave Longstreth, que compôs a música especialmente para ela, Angel entoou os versos com seu timbre delicado e folk, que se situa entre a voz de uma Joanna Newsom e a de uma Björk. A suavidade da execução serviu para acalmar os ânimos e estabelecer uma divisão clara a quem tinha visto no mesmo palco, horas antes, o rush de adrenalina do Black Drawing Chalks - show ao qual Longstreth assistiu e que elogiou.
Em seguida, foi a vez de Amber Coffman começar a mostrar seu alcance vocal impressionante, com a quase progressiva "Imagine It", do EP New Attitude, de 2006. Ao seu lado, Dave Longstreth alternava, na guitarra, a levada à The Contortions com solos que remetiam a um Robert Fripp ou Steve Howe como vistos por Stephen Malkmus. A música, gravada no disco apenas com seu vocal, mostra como a chegada de Amber, Angel e da terceira vocalista, Haley Dekle, trouxe sentido mais depurado a suas ideias e ampliou suas possibilidades de composição.
Em "Ascending Melody", lado B do EP Temecula Sunrise (2009), a banda apresentou com mais clareza o indie-rock de breque que dá as caras em Bitte Orca, mas não é a marca principal do disco. Os vocais femininos ao estilo das cantoras de AM norte-americanas dos anos 1940 - tão oportunamente resgatado pelo She & Him - são contrapostos por uma guitarra em que lampejos de oriente entrecortam células funky, criando um balanço meio cubista que cativou o público já razoável do auditório. Quando finalmente vieram os acordes iniciais de "Cannibal Resource", uma das principais faixas de Bitte Orca, uma faixa ruidosa de fãs mais empolgados se espremeu à frente do palco para presenciar a primeira canção realmente representativa do poder dos Dirty Projectors como conjunto. Ao fundo, o baterista Brian McOmber exibiu seu talento em um set de bateria minimalista como no punk, mas que ele por vezes faz soar como percussão clássica, alternando sutilezas à mais desenfreada pancadaria. No vocal, Longstreth estendia algumas sílabas e finais de frase, como normalmente faz ao vivo, para aumentar a força de uma das letras mais emblemáticas dos últimos anos, com sua declaração de amor melancólica e um tanto pessimista à humanidade, diante de seu comportamento "canibal". Enquanto isso, Amber, Angel e Haley preenchiam os espaços com pequenas interferências de guitarras e vocais, amplificando o efeito polifônico da execução.
Em seguida, três faixas de Rise Above (2007), disco em que Longstreth desconstruiu as músicas do clássico Damaged, do Black Flag: "Gimme Gimme Gimme", "Rise Above" e "Thirsty and Miserable". A recriação expressionista das músicas no show serve como senha para entender o universo do compositor e sua relação com os cânones do rock, que adentra por um caminho tão historicizante que, por vezes, nos coloca em posição semelhante à de uma plateia de música erudita, tendo que conhecer os códigos para ter uma experiência musical completa. Mas os muitos que provavelmente não reconheceram as músicas na plateia certamente entenderam o recado no final da sequência, 100% hardcore como Greg Ginn & Cia faziam.
A fase seguinte emendou três das melhores faixas de Bitte Orca: a ensolarada "Temecula Sunrise", a explosiva e dançante "Stillness is the Move" e "No Intention". Todas trazem o auge de Longstreth como compositor e arranjador e da força interpretativa de seus parceiros, tão alinhados com ele que fica claro estarmos diante de um desses encontros musicais que ocorrem uma vez na vida. Horas antes da apresentação, Longstreth disse à +Soma que escreveu a música tendo em mente a área de abrangência vocal de Amber Coffman - para explorar de seu tom mais grave ao mais agudo. Mas a performance arrebatadora da vocalista solapou até as expectativas de quem já viu o show ou furou o mp3 player de tanto ouvir o disco. "No Intention", mais calma e com seu ar Peter Gabriel, é ótima para perceber sutilezas, como notas do sintetizador que complementam a bateria.
"Remade Horizon" inicia a fase final do show, em que as três vozes femininas oferecem um espetáculo de beleza única e habilidades quase sobre-humanas. Literalmente: por vezes, parecemos estar diante de uma máquina em um show do Kraftwerk ou do Battles, executando notas com variações de tom muito próximas em um pulso muito acelerado. O resultado é ainda mais impressionante do que no disco. Em "Useful Chamber", além dos vocais, a catarse do refrão (se é que podemos chamar assim o "Bitte Orca Orca Bitte" de Longstreth) traz guitarras e bateria explodindo em barulho e energia incendiária, ao mesmo tempo em que Amber mostra seu talento num magnífico solo torto.
A plateia, então já devidamente assolada e desafiada aos limites da percepção musical e sensorial, aplaude intensamente quando o grupo sai do palco. No retorno rápido para o bis, o grupo toca "Knotty Pine", gravada com David Byrne para a coletânea "Dark Was The Night". Um encerramento mais ameno, em clima de festa, para uma noite de graduação na cidade de Goiânia.
Setlist:
1) "Two Doves"
2) "Imagine It"
3) "Ascending Melody"
4) "Cannibal Resource"
5) "Gimme Gimme Gimme"
6) "Rise Above"
7) "Thirsty and Miserable"
8) "Temecula Sunrise"
9) "Stillness is the Move"
10) "No Intention"
11) "Remade Horizon"
12) "Useful Chamber"
13) "Knotty Pine"