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Sat: 11-28-09

Goiânia Noise Dia 3: Guiso (Chile), MQN+Walverdes e Móveis Coloniais+Bocato São Os Destaques

Por Mateus Potumati, de Goiânia . Fotos por Marília Assis

 

Como se houvesse faltado rock nas outras duas noites do Goiânia Noise 2009 até aqui, a sexta foi fielmente dedicada ao mais puro e simples "rock de roqueiro" que faz da cidade capital e celeiro do gênero no Brasil. A primeira noite de shows das três no tradicional Centro Cultural Martim Cererê teve rock para todos os gostos: do stoner do Hellbenders ao hardcore clássico dos Devotos, passando pelo pós-punk, rock setentista brasileiro, indie pop e a comoção grunge da big band formada pelo MQN e Walverdes, com direito a duas baterias no palco.

Nota destoante na escalação, o ultra badalado Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, teve a dura missão de encerrar a noite no lugar do Supersuckers, cujo show foi cancelado de última hora por problemas de visto. No balanço final, porém, a ausência do quarteto norte-americano foi pouco sentida. Confira alguns dos destaques da noite.

 

Hellbenders (GO)

Com apenas um integrante acima dos 18 anos (o baterista Rodrigo, 19), o Hellbenders é o testemunho mais eloquente da fertilidade do rock goianiense. Terceira geração da linhagem encabeçada pelo MQN, o quarteto impressionou o público razoável no palco Yguá com músicas bem estruturadas e execução tão enérgica quanto precisa. Com os dois pés fincados no terreno árido de bandas como Hellacopters, Nebula e Kyuss, as faixas do show trazem a tradicional assinatura do gênero como se fossem o trabalho de conclusão de curso de uma turma especialmente dedicada e ávida por mostrar serviço. Orgulho das categorias de base da Monstro Discos.

 

Milocovik (SP)

Praticamente desconhecido em São Paulo, o Milincovik percorreu os festivais brasileiros com regularidade em 2009. Igualmente bem novos (na casa dos 20 e poucos), os quatro paulistanos mostraram desenvoltura com a tradição pós-punk de Gang of Four, Talking Heads, The Fall e Joy Division. Dançantes sem descambar para clichês pop, as músicas do disco de estreia da banda, Sex Pack, mantiveram uma atmosfera densa e descontraída, que conquistou a plateia do começo ao fim. O approach amadurecido do Milincovik em relação a um terreno tão venerado faz imaginar como a banda poderia soar caso cantasse em português.

 

Guiso (Chile)

O culto ao punk e ao garage rock na ponta sul das Américas é antigo e resistente ao tempo. Porém, ao contrário da Argentina, que se divide entre o hardcore nova-iorquino, os Ramones e os Rolling Stones, no Chile o que pega são os ares proto-punk de Iggy and the Stooges, MC5, The Sonics, Patti Smith & Cia. Além de se esbaldar nessas águas, o Guiso, já com seus quase 10 anos de existência, adiciona ao caldo a saudável autoconsciência histórica herdada do pós-punk e do pós-hardcore de um Make Up ou Fugazi. Com isso, fez um dos melhores shows de todo o festival, que refletiu intensamente no público, seja em manifestações corporais mais empolgadas ou em sorrisos discretos de satisfação (um dos sorridentes, por sinal, era Martin Atkins, escritor, professor universitário e ex-baterista de bandas como PiL e Ministry, que participa de debates no festival e saiu da pista direto para a banca de discos, onde comprou CDs do grupo).

Esbanjando desenvoltura no português e muito à vontade, o guitarrista Alvaro Guerra dedicou músicas e fez piadas com o público. Seu carisma só rivalizava com o da baixista Bernardita Martinez, que, sem falar tanto quanto o colega, brilhou com uma performance explosiva e linhas de baixo firmes e criativas, coladas na bateria incansável de Alvaro Gomez. Mais discreto, mas nem por isso menos marcante, o guitarrista/vocalista Alejandro Gomez costurava tudo com o virtuosismo discreto do punk, mostrando por que é o epicentro criativo e estrutural da banda.

 

Devotos

São mais de 20 anos de estrada, como lembra bem o vocalista e baixista Cannibal, do Devotos. Nessas duas décadas, o trio pernambucano inscreveu o nome no DNA do hardcore brasileiro com músicas como "Roda Punk", "Eu Tenho Pressa" e outras. O show no Noise foi o último do ano, mas apenas outro passo na quilométrica turnê do disco Devotos 20 Years - Live 2009, que ainda passa por Alemanha, Itália, Espanha, Portugal e outros países europeus. Entre as levadas ultra-rápidas obrigatórias e intervalos cadenciados pelo dub e reggae, que às vezes remetem a um Bad Brains, a banda fez a alegria dos pogueiros locais em músicas como "Luta Pacifista", "Asa Preta" e "Punk Rock, Hardcore, Alto José do Pinho", além das já citadas.

 

MQN  + Walverdes

É difícil explicar em palavras o que acontece em Goiânia durante um show do MQN sem recorrer a clichês como "transe coletivo". Nesta edição, em comemoração aos 15 anos do festival, os líderes espirituais desse transe resolveram aumentar a dose de intoxicação e convidaram os Walverdes para uma parceria inédita, que incluiu os bateristas Rodrigo Miranda (MQN) e Marcos Rubenich (Walverdes) tocando juntos ao mesmo tempo, ao melhor estilo Fantômas + Melvins Big Band.

A pista do palco Pyguá já estava intransitável - e insanamente quente - quando entraram os primeiros acordes de "Seja Mais Certo", do trio gaúcho. A big band formada por duas das bandas mais adoradas do circuito independente brasileiro tinha ensaiado apenas duas vezes junto, mas a simbiose entre ambas é tão forte que tudo funcionou como uma massa de destruição homogênea, a 200 db de altura. Na sequência, com "Get Lost", do MQN, o auditório explodiu em coro, mãos para o alto e cabeças testando a elasticidade de seus respectivos pescoços. E, ao contrário do que se poderia pensar em um caso desses, a frente do palco estava tomada por mulheres, tão ou mais ensandecidas do que os caras. Depois vieram, num fôlego só, "Refrões ao Lado/Classe Média-Baixa" e "Anticontrole" (Walverdes) e "Buzz In My Head" (MQN). O que ainda restava de civilidade no lugar foi barbarizado pelo hino goiano "Cold Queen", entoado em uníssono entre rajadas de cerveja, stage diving e garotas dependuradas na torre de luz.

Quando a música acabou, o bafo quente do lugar conferia uma expressão ainda mais inebriada aos rostos em êxtase, como numa versão do Círio de Nazaré em que a cruz deu lugar a um pentagrama invertido. Nesse contexto, os covers de "Sweet Leaf", do Black Sabbath, e de "Breed", do Nirvana, entraram quase como um refresco, um aviso de que o transe estava enfim por terminar. E ele terminou, mas, como uma droga de alto poder viciante, o importante aqui é saber que sempre tem mais.  

 

Móveis Coloniais de Acaju + Bocato

Os shows incendiários do grupo de Brasília, com um naipe grande de instrumentos de sopro e levadas herdadas do ska, o transformaram em pouco tempo num fenômeno avassalador no circuito independente brasileiro. Conhecidos de longa data do público goianiense, o Móveis Coloniais de Acaju trouxe ao festival um elemento novo: o trombone de altíssimo nível de Bocato, famoso por parcerias com artistas como Elis Regina, Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, entre muitos outros.

A presença do músico paulistano trouxe lastro e um toque de classe à versão para "The Chicken", famosa na interpretação de Jaco Pastorius, e para faixas como "Menina Moça" e "Bem Natural", do Móveis. Porém, o público pareceu pouco se importar com a presença ou a saída de Bocato, diante de um setlist que seguiu com "Cão Guia", "O Tempo", "Descomplica", "U-Hu", "Adeus" e "Do Mesmo Ar". Com total domínio da plateia, qualquer sugestão da banda era seguida prontamente por braços balançando no ar, gritos e outras manifestações barulhentas. A sequência final, com o trombonista de volta, teve "Seria o Rolex", "Indiferença" e "Copacabana". No bis "Se Essa Rua", o gosto de despedida entre roupas empapadas de suor e corpos exaustos, mas plenamente satisfeitos.