Por Mateus Potumati, de Goiânia . Fotos por Marília Assis
O Goiânia Noise Festival 2009 já está a pleno vapor desde a última segunda, 23, com uma programação que se espalha por vários cantos da cidade e inclui mostras de arte, cinema e uma série de palestras da Brasil Central Music, entidade que reúne produtores culturais de todo o país e do exterior. Mas a parte musical, grande xodó do evento, começou nesta quarta, 25. E de cara o Noise já fez questão de deixar claro seu novo conceito, mais abrangente e maduro. Um evento de gala no Teatro Madre Esperança Garrido levou à capital goiana ninguém menos que Hermeto Pascoal, um dos músicos mais importantes do século XX ainda vivos. Além de Hermeto, o festival contou com um evento dedicado ao hardcore, com bandas como Leptospirose e Os Cabeloduro, e outro dedicado ao rock e ao groove, com atrações como os pernambucanos do Vamoz e a banda binacional The Soundscapes, além dos DJs Miranda, Paul Jones e MZK.
Antes do show de Hermeto Pascoal, o produtor e porta-voz Fabrício Nobre tomou o microfone diante de uma plateia lotada e declarou: “Agora, mais do que do-it-yourself, vivemos a época do do-it-together”.
Hermeto Pascoal: Tocar, Verbo Intransitivo
Os ingressos gratuitos acabaram duas horas antes do show, mas mesmo assim muita gente ainda tentava entrar no Teatro Madre Esperança Garrido minutos antes do show do compositor multiinstrumentista alagoano. Quase meia hora depois do horário previsto, Aline Morena, cantora e esposa de Hermeto, entrou no palco para um solo com violão e voz. O timbre suave e o semblante delicado da cantora paranaense embalaram uma improvisação vocal intricada, a um só tempo melódica e absurdista, acompanhada por uma linha idêntica nas cordas. Antes que fosse possível determinar o final da peça, o restante do grupo entrou no palco, inserindo mais polifonia à apresentação (um segundo ato?) e unindo vocalises que iam do mais desarticulado improv a clichês de ópera. Estava pronta a cama para a entrada do elemental do som, o homem que Miles Davis classificou como “o músico mais impressionante da Terra”.
Hermeto faz notas econômicas em um teclado enquanto o restante do grupo leva um samba-jazz em pulso acelerado, que lembra os melhores momentos do Sambrasa Trio revisitados por décadas de improvisação e remodelação conjunta. O time, batizado de Nave Mãe (o que dá espaço a teorizar que se trata de uma versão albina da Mothership de George Clinton, mas paradoxalmente tão negra quanto ela) deveria dispensar apresentações, mas Hermeto faz questão de lembrar e destinar momentos especiais do show a cada um: Vinícius Dorin nos instrumentos de sopro, Itiberê Zwarg no baixo, Márcio Bahia na bateria, o filho Fábio Pascoal na percussão e André Marques nos teclados, além da já citada Aline Morena. O caos cultuado e levado ao limite em cima do palco entra em simbiose com o entra-e-sai de parte da plateia e as manifestações de brasilidade barulhenta da maioria entusiasmada. A sensibilidade extraordinária de Hermeto Pascoal se dá conta rapidamente do momento e se rasga em declarações de amor ao público sempre aberto e espontâneo de Goiânia. Mais do que isso, transforma os tradicionais momentos de improvisação com o público em uma celebração mútua longa e única.
Ao longo do espetáculo, ele pega menos nos instrumentos do que parte de seus fãs gostaria – fruto talvez de seus 73 anos –, mas sua mente e seu coração estão inegavelmente em cada célula rítmica e em cada risada ou provocação sua, levando a uma constatação obrigatória, ainda que longe do horizonte de quem se prende à visão do “homem que toca muitos instrumentos”: o que importa em Hermeto Pascoal não é o fato de ele tocar este ou aquele aparelho. Ele simplesmente toca, e essa intransitividade contamina cada ato seu. Seu espetáculo, mais do que um deleite para qualquer músico ou apreciador avançado de música, oferece uma diversão completa a qualquer pessoa dotada de alma, independentemente do nível de percepção musical.
MZK
O paulistano Maurício Kuhlman, aka MZK, tem uma história de longa data com o Goiânia Noise. Seus desenhos já fazem parte do festival desde 1997, e neste ano além de produzir toda a arte ele encabeça uma mostra em uma das galerias mais badaladas do Centro-Oeste. Mas aparentemente poucas pessoas conheciam os “grooves finos” que fizeram do moleque de 41 anos um porto seguro na noite paulistana. Quando MZK começou a discotecar no palco inferior do Fiction Club (após um barulhento show da banda Vamoz), quase todas as pessoas no local se espremiam na pista de cima, único lugar onde é permitido fumar no clube, ao som do produtor e apresentador de TV Miranda. Porém, à medida que as viradas malucas nos vinis raríssimos e as levadas irresistíveis começaram a tomar corpo, pequenos grupos de dançarinos foram se formando na capital do rock de roqueiro. A expressão de êxtase e surpresa no rosto de muitos denunciava: era como se um botão até então ignorado tivesse sido acionado de repente. E nesse botão se lia uma única palavra, em letras maiúsculas: DESCONTRAÇÃO.
O Goiânia Noise 2009 segue nesta quinta com shows de Siba, Detetives, Johnny Suxx And The Fucking Boys, The Name e Sapatos Bicolores, entre outros.
Confira a programação completa e www.goianianoisefestival.com.br/programacao.php