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Tue: 11-24-09

Bondinho . Sergio Cohn e Miguel Jost (orgs.)

Azougue Editorial . 2009

 

Houve um tempo em que a música popular brasileira era mais ousada, criativa, pulsante e travava um diálogo face a face com o que acontecia em tempo real. Disso, ninguém razoavelmente informado duvida. Agora, que houvesse veículos de comunicação escrita que dessem conta de toda aquela cena e mimetizassem alguns procedimentos inovadores que a música oferecia, aí é outra história. Se a maioria silenciosa do cada vez menor bolo da indústria cultural pouco nos oferece de vibração e revelação em relação à morna cena músico-cultural dominante na atualidade, o Bondinho, revista que em sua segunda vida durou boas 13 edições no ano de 1972, farejou o espírito de seu tempo e deu voz e profundidade ao que de melhor foi produzido na música da época. E não só isso: couberam ainda perfis e entrevistas com escritores, cineastas e poetas, por exemplo.

Tudo naquele período, como queria a Tropicália, era divino, maravilhoso - apesar dos calabouços da ditadura vigente. Os artistas defendiam posições (curioso ver Tom Zé xingando o plágio, técnica tão querida pelo próprio na atualidade), falavam do mundo (Milton Nascimento falando do racismo ao qual era exposto mesmo numa grande cidade como o Rio de Janeiro é valiosíssimo), e, acima de tudo, falavam de suas produções, ambições e predileções estéticas. Além disso, polemizavam entre si. Caetano falava de Gil, que falava de Jards, que elogiava Hermeto, que desancava o rock progressivo, que tinha como entusiasta Rogério Duprat, que citava Mautner, que se empolgava com a fase de Gal Costa e com o Teatro Oficina... É indescritível ver a tenacidade e eletricidade daquele tempo, a arte brasileira tinindo trincando, como cantavam os Novos Baianos. Para quem, como eu, tem no DNA uma curiosidade atroz pela reflexão produzida pelos bons protagonistas da cultura brasileira, esse é o livro do ano, certamente.

Por Arthur Dantas