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Tue: 01-06-09

Animal Collective - Merryweather Post Pavilion

 

Por Mateus Potumati

 

Desde o começo, o rock evoluiu a partir da tensão entre forças opostas – belo e feio, conservadorismo e inovação, amenidade e agressividade, segurança comercial e subversão autoral etc. Raramente, porém, uma banda tão abertamente esquisita e “chata” como o Animal Collective recebeu tanta atenção da crítica e alcançou sucesso respeitável de público – o que irrita mais ainda seus numerosos opositores. Em Merriweather Post Pavilion, eles apresentam a síntese do caldo febril cozido em uma década de violações contra o dogma guitarra+refrão, defendido com unhas e dentes pela ala xiita do indie rock. Aqui, Panda Bear (Noah Lennox) e Avey Tare (David Portner), os dois principais compositores do agora trio, mostram estar plenamente à vontade na dimensão musical que criaram. E, sob as leis específicas desse universo, fazem o que só é possível dentro dele: noise-punk sem guitarra, batidas tribais sem bateria, canções pop sem formato, música orgânica a partir da eletrônica. “My Girls” e “Brother Sport”, as duas faixas que vazaram antes do lançamento do disco, já tocam em pistas de dança indie há meses, confirmando o inegável apelo pop – sem deixar de ser totalmente freak – do álbum.

 

Em “Also Frightened”, sons de chocalhos e gritos são acrescidos da marcação do beat eletrônico grave – que faz as vezes de baixo e bumbo – e do vocal etéreo. Por um momento, é como se juntássemos num mesmo quarto David Bowie, Beach Boys e Kraftwerk a Naná Vasconcelos e Uakti. “Daily Routine” é a mais didática no que diz respeito a entender a dinâmica entre desconstrução e recriação pop realizada pelo grupo. A música começa com notas aleatórias tocadas em um órgão (mais provável, um plugin eletrônico que emula um órgão), seguidas de batidas totalmente fora de compasso. O órgão é acelerado até tomar uma forma semelhante à de outros “riffs” da banda – como o borrão de sinais eletrônicos em “Peacebone”, de Strawberry Jam (2007) – e seca de uma vez, dando lugar ao vocal e a uma batida regular, quase um techno mais lento. A linha do órgão, porém, que a esta altura soa mais como um arpejo do que como um riff, interfere na melodia e no ritmo que se formaram, como se a fase mais experimental do grupo seja aqui usada como tempero, não como elemento principal. Na metade da música, a mesma figura de órgão, agora inteira novamente, faz um dueto com o vocal, lembrando uma versão autista de um sintetizador à Yes, e depois dá lugar a acordes de um violão folk, que logo se dilui em outros ruídos. Em toda sua genialidade e riqueza, Merryweather Post Pavilion é um álbum a ser apreciado em seus detalhes mais vanguardistas e em suas melodias e ritmos mais pop. Graças a ele, 2009 já soa como o futuro.