Macaco Bong . Artista Igual Pedreiro . Trama e Monstro Discos – 2008
O disco de estréia do trio cuiabano é uma obra a ser analisada em etapas. Trata-se de um disco-conceito, antes de conceitual; instrumento, antes de instrumental. Suas dez faixas são como uma carta de intenções, que, da ausência quase total de vocais às harmonias maiores, abertamente pueris, exsuda uma mesma substância: o suor do operário, que renuncia sua ambição ao reconhecimento em função de uma causa maior. Nessa busca, o Macaco Bong é certamente um modelo de desapego e eficiência que poucas bandas no Brasil conseguiram – ou tentaram – repetir.
No aspecto musical, Artista registra uma banda a meio caminho entre o que é e o que pode vir a ser. A inegável organicidade do grupo – não só em termos de dinâmica musical, mas no sentido do “filósofo orgânico” gramsciano – confere à música um frescor só alcançado mediante a ignorância de certas convenções. Em “Compasso em Ferrovia”, isso produz bons momentos, que surgem da fusão insólita de climas e fraseados que vão de Pat Metheny a Jesus Lizard, filtrados pelo timbre da guitarra alternativa dos anos 90. Essa mesma liberdade, porém, leva a escolhas duvidosas, onipresentes em excessos de eco ou timbres de hard rock oitentista na guitarra, ou no som agudo dos tambores da bateria – uma tentativa, talvez, de se aproximar da sonoridade de timbales –, que remete aos piores momentos do fusion. “Vamos Dar Mais Uma” transita por um terreno que une Minutemen, Slint e Bedhead a Rush – uma mistura perigosa, que funciona na maioria do tempo, mas que às vezes cai em franca anomia. O aparente descaso com o nome de algumas músicas contribui para a sensação de que a maioria delas se beneficiaria com alguns cortes. Também não faria mal explorar melhor notas diminutas e harmonias mais sombrias.
Apesar desses deslizes, Artista Igual Pedreiro é uma obra corajosa, com mais acertos do que erros, e que aponta para um futuro promissor.
Por Mateus Potumati