Crime e Descontração
Por André Maleronka
Soar crível pode ser considerado um dos principais desafios para um rap ser bom. Sendo assim, e sendo o gênero auto-referente por natureza, incoerências musicais, discursivas, e as possíveis combinações entre esses fatores, vencem boas idéias. Coisa séria para um gênero onde as soluções sonoras, quando talentosas, se inscrevem entre o melhor da ficção atual.
A linha de um realismo mais que fantástico, onde não fica claro o que é fato e o que é invenção, é trabalhada com esmero pelo grupo fortalezense Costa a Costa em Dinheiro Sexo Drogas e Violência de Costa a Costa, compilação mixada de 23 músicas e interlúdios feita em cima de um álbum de estréia abortado. “A gente amadureceu nesse meio tempo, e não queríamos mais que nosso disco fosse aquele, mas dava pra usar muita coisa na mixtape”, diz por telefone o MC e produtor Don L, que forma o Costa a Costa junto com os MC Negro Gallo, Preto B e o DJ Flip Jay. Vendida no formato CD e distribuída na Internet a partir do final de 2007, coroou um período fértil: aparição no programa de TV Central da Periferia e prêmio Grupo Norte Nordeste pelo anual Hutúz em 2006, e uma análise entusiasmada no site Overmundo, assinada pelo antropólogo Hermano Vianna.
“Fomos indicados sem ter nenhum lançamento na rua. Isso foi através de shows. A rapaziada do rap, os formadores de opinião, já conheciam o nosso trampo”, diz Don L, que no mesmo ano da premiação carioca gravou participações em coletânea do DJ Hum e na recém-lançada Rotação 33, do DJ KL Jay. Em entrevista anterior, publicada pelo site especializado em rap Bocada Forte, os membros do grupo cearense apropriadamente reproduziram a assertividade hipertrofiada que dá o tom de sua música, criticando o que classificam como "linha derrotista do rap nacional". Reproduzida na blogosfera, gerou discussões inflamadas.
Provavelmente só foram levados à sério porque o som bateu. Fato é que a vontade de diferenciação de perspectiva, ancorada em instrumentais maduras, funciona. Por enquanto, o repertório do Costa a Costa soma-se à vertente "traficante" de contos do crime, mas em chave diversa da maioria. Som de bandido, o que no caso significa personagens bandidos fazendo som - os maiores no país, o Racionais MCs, o fazem sobre a perspectiva do ladrão ("Eu Sou 157) –, buscando balanço e arranjos malandros. São acontecimentos cuja a maioria dos diretores de cinema não conseguiria filmar com verossimilhança.
Substituindo o denuncismo choroso por uma agenda clara – a saber, investir o dinheiro angariado com o tráfico de drogas em uma carreira musical –, apresentam sotaque próprio e uma fina interpretação do rap já produzido aqui, o que implica também outro olho nos EUA, e constroem passagens vívidas e diversas das ruas de Fortaleza, enxergando muitos momentos da vida dos personagens que interpretam. Don L: “O que acontece é: qual é o exemplo de vitória que você tem no gueto? Como você pode ter acesso ao que a sociedade coloca como vitória? Aqui, quem consegue isso geralmente está ligado a uma atividade ilegal, como o tráfico. Foi uma forma de mostrar que o gueto não precisa mentir, não precisa negar que quer ter acesso a tudo que está aí. A gente quer os carros, a gente quer jóias, a gente quer viver a vida por inteiro. O tráfico não é uma opção, mas a gente resolveu falar do que estava próximo”.
Em “Dinheiro...” o uso de jogos de palavras – frases de impacto, repetição de termos com sentidos diferentes na mesma frase, exploração de sotaques e interpretação de sons para que elas rimem - são caras ao rap, mas muitas vezes soam como compêndios de autocomiseração ou compilados de títulos de HQs da Turma da Mônica. Não Aqui. “No Melhor Lugar”, a introdução, usa referências de boxe de maneira suave em um contexto pesado, sem tentar esgotar todas as metáforas possíveis. As personas adultas desenvolvidas são egocêntricas e bem resolvidas para passarem longe desses clichês, quem sabe gerando outros. A aceitação dos prazeres da vida incluiu o sexo, abundante nas narrativas e no som, que traz elementos de pop, reggaeton, funk carioca e brega para criar som de pista. O uso da monossilábica “mah” como recurso rítmico pontuando as levadas como respiros dá outra pista do caminho. Gíria local provavelmente vinda de “man”, substitui a mais engessada “mano”, menos afeita a cadência rápida – tal qual Sabotage com o seu “joe”. Quando reinterpretam “Sou Função” num remix que quase não usa a voz de Mano Brown, e sim as de Lelê e Dexter, estão dando sua versão do que é ser função para eles: a humildade malandra de salvo pelo música filosofando a vida mais imediata.
Com outra mixtape e o esperado álbum de estréia no forno, a expectativa é que o Costa a Costa continue fazendo o que o rap do sul do país, e grande parte do paulista e carioca, ainda não fizeram: supere regionalismos com sotaque próprio para fazer boa música brasileira.