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Tue: 09-16-08

Bill Callahan em São Paulo

Lonesome Cowboy Bill
Bill Callahan . 10/09/08 . StudioSP

Eu acho, diria que é quase uma certeza: Bill Callahan fala pouco por um simples motivo - não gastar a sua voz. Mas não aquela frescura de cantor; quando Bill pede um simples copo de vinho, a frase pode ser “Give me some wine, give me your life”, e aquilo é uma música do Smog até que me provem o contrário.
 
Apesar de agir de maneira solitária – mesmo quando acompanhado – Bill escolheu um comparsa para sua tour na América do Sul (que passou pela Argentina e Chile); Luis é exatamente o contrário de Callahan, expansivo e falante. Quando Luis senta no banco da bateria, a sua função é precisa, assim como a guitarra (sim, todos esperavam um violão): tudo é uma mera desculpa para a voz, letras e clima que Callahan impõe. Obviamente, isso não é folk,
 
Apesar de levemente centrado em seu último disco – o primeiro usando seu próprio nome - Woke on a Whaleheart – Callahan não deixou de lado o repertório quando ainda era conhecido como Smog. Obviamente, estes são os pontos altos do show, como Rock Botton Riser (era fácil cortar o ar durante esta música, tamanha a concentração do público), Teenage Spaceship e Bathysphere. No final, a rara I Break Horses transformou a noite em memorável.
 
No dia seguinte. Bill seguiu para Ribeirão Preto, para um show “japonês”: platéia sentada em um teatro. Sem a intoxicação de álcool e cigarros do StudioSP, sem os pedidos – insistentes – de clássicos do Smog, a platétia educada e polida, era concentrada e reverente. Com um som perfeito, Callahan criou o clima certo para suas músicas – o mesmo repertório da noite anterior – que foi quebrado apenas com uma queda de energia que durou dramáticos quarenta segundos. Se em São Paulo as músicas de seu último disco foram encapsuladas pelos números do Smog, em Ribeirão, com toda a calma, Bill demonstrou que seu último disco é uma obra prima a la Dongs Of Sevotion, um disco que será reavaliado com o tempo, dada a beleza suprema de canções como Diamond Dancer e Sycamore.
 
A verdade é que nunca um show de Bill será suficiente para contemplar seu extenso catálogo de canções. Em meio a toda onda folk que atinge São Paulo, este foi o melhor show para provar que o folk é mais do que um violão e uma gaita – não essa estilização que a todo custo algumas pessoas tentam enfiar goela abaixo. Bill Callahan retrata a América que ele conhece a quarenta anos. A América não estilizada por filmes e livros, mas a do dia-a-dia, de pessoas normais, que conhecem amores, perdem, mudam de cidades e desenvolvem obsessões com o mar, a música do povo, folk.

Texto por Eduardo Ramos
Fotos por Eugênio Vieira
(www.eugeniovieira.com)