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Fri: 09-12-08

Entrevista: Maya Hayuk

Entrevista: Maya Hayuk
por Tiago Moraes

O que veio primeiro: a fotografia ou a arte?

A arte para mim foi onde tudo começou. Desde muito pequena, eu pintava e desenhava, muito antes da minha mãe comprar para mim a minha primeira câmera quando eu tinha uns 10 anos.

Pelos artistas que você costuma fotografar, acredito que você tenha uma mente bem aberta em relação ao seu gosto musical – o que é ótimo, por sinal. Qual foi o seu envolvimento com a música na adolescência e qual o seu envolvimento nos dias de hoje?

Eu sempre fui obcecada com música. Eu quero dizer, é difícil para mim pintar ou trabalhar na câmara escura sem ouvir música, entende?

Na adolescência, comecei a ir nos shows de punk rock e nos clubes gays, porque eram as únicas alternativas ao status quo. Não existiam exposições de arte como existem agora, com pessoas jovens – tudo girava em torno da música. Durante todos esses anos, tirei toneladas de fotos para revistas, selos, e depois comecei a contribuir com minhas artes e pinturas para capas de disco. Música e política são muito importantes e as artes visuais desempenham um papel importante dentro desses interesses principais.

Por que e quando você começou a se interessar por tirar fotos de shows e retratos de bandas?

Primeiro eu queria estar envolvida, mas também pensava que era muito importante documentar tudo aquilo, as pessoas sempre reclamavam “como que antigamente tudo era mais legal”. Então eu queria salvar essas memórias. A fotografia sempre me deu uma razão para ir aos shows e assim não precisava me preocupar se meus amigos iam ou não. Naquela época, ter uma câmera na mão significava acesso livre aos melhores lugares, todos te respeitavam. Hoje, com a fotografia digital, ficou bem mais difícil – todo mundo é fotógrafo e eu não tenho mais essa vontade e necessidade de documentar tudo como antes. Eu ainda fotografo muito, mas como tem mais um monte de gente fotografando, fico mais tranqüila.

Falando de música, o que tem ouvido atualmente?

Eu escuto o meu Ipod no shuffle do começo ao fim – 1184 músicas, enquanto trabalho em uma nova série de pinturas. Alguns dos mais ouvidos são: The Ravonettes, The Old Haunts, The Go, Japanther, Akron Family, Destroyer, Roxy Music e Duran Duran.

O que te inspira nos dias de hoje?

Nossa, tudo me inspira! Deus, o clima político atual, o meu doce e hilariante namorado, meus amigos super talentosos, música… Tudo!

Li em uma entrevista recente que você tenta fazer música com suas pinturas. Fale um pouco sobre isso.

De certa forma, tento criar partituras musicais de uma forma diferente da tradicional, com linhas e notas. A música se funde com minha arte enquanto eu pinto e talvez algum dia eu encontre músicos dispostos a “tocar” minhas pinturas. Isso seria incrível!

Você já tocou em alguma banda?

Tive alguns projetos bem divertidos como “The Hellcats from Outerspace”, “Open Arms”, “Summer Camp Number One”, “I Love You” etc. Sempre toquei muito mal, mas me divertia mesmo assim, amava fazer aquilo. Também tenho gravado minha voz acapella, fazendo covers de músicas do Chigago e do Bob Seger.

A forma com que você trabalha em uma nova pintura é mais improvisada ou você pensa muito antes, faz rascunhos etc?

É muuuito mais divertido, desafiador e empolgante lidar com o improviso, não saber qual será o resultado final. Muitos desenhos de rascunhos que eu faço, acabam não virando nada porque sinto que eles já estão prontos. É muito mais interessante a surpresa de não saber o que irá acontecer.

Qual o seu meio favorito (paredes, telas, filme, etc)?

O amor.

Ruas ou galerias?

Gosto de pintar as paredes, tanto em espaços internos quanto externos.

Sua família é da Ucrânia, certo? Como você cresceu nos Estados Unidos, teve algum tipo de contato com a cultura ucraniana e a arte tradicional de lá?

Claro que tive! Ucraniano sempre foi minha primeira língua e minha avó me ensinou técnicas de bordado, pysanky (pintura em ovos), músicas e poemas. Frequentei acampamentos de verão para a comunidade imigrante da Ucrânia todos os verões até eu completar 17 anos e passava todos os meus sábados na escola ucraniana. Minha vida “americana” sempre foi secundária em relação à minha vida ucraniana e isso, sem dúvida, teve um grande impacto na minha arte.

Você é adepta de alguma religião específica ou estuda algum tipo diferente de esoterismo ou filosofia de vida?

Sim! Tenho crenças muito fortes que eu estou descobrindo cada vez mais ao longo dos anos. Eu acredito que somos todos parte de um organismo enorme e que estamos todos conectados – tudo está conectado e inter-relacionado. Eu acredito que a palavra “deus” é uma tentativa de descrever a palavra “amor” e é essa a energia que abastece todo o universo. Acredito que o universo é na verdade um verbo e não um substantivo. A vida, o amor, deus, o universo, são na verdade ações e não algo imutável, estagnado. Para mim, a razão de nossa existência é simplesmente existir.

De onde vem todas essas formas geométricas e essa paleta de cores tão intensa?

Em relação as formas geométricas, elas vem muito de técnicas de artesanato ucraniano que eu aprendi quando criança, similar às formas de arte da pré-história. Não é fascinante saber que pessoas de todas as partes do mundo estavam fazendo artes tão parecidas, quase idênticas, mesmo não tendo nenhuma forma de comunicação ou interação? Em relação às cores, essa é a forma como eu vejo o mundo!

Seu trabalho parece carregar uma mistura de elementos da cultura hippie – se analisarmos cores e temas – mas também com uma atitude totalmente punk. Isso faz algum sentido para você?

Totalmente! Sou uma cria dos anos 1970, 80 e 90!

Alguns de seus trabalhos me lembram algumas coisas do Roger Dean, como as capas de discos que ele fez para o Yes. Não me refiro ao estilo da sua arte mas ao universo fantástico e ao ambiente surreal.

Quando eu era uma criança, colocava um disco na vitrola e ficava sentada, olhando a capa do disco e viajando naqueles universos fantásticos, e o Roger Dean foi uma grande inspiração. Eu sempre gostei bem menos de capas de disco que traziam fotos da banda na capa. Quem se importa o quão gostoso você é?

Você tem feito várias capas de discos e pôsteres para artistas como RJD2, Prefuse 73, JOMF, Devendra, etc. É como um sonho que virou realidade você ter o seu trabalho reconhecido dessa forma?

Meu Deus, sem dúvida alguma! Até hoje não consigo pensar em algo que seja mais gratificante e honroso. Você consegue?

Sei que hoje em dia você se dedica à sua arte em período integral, mas no passado você precisou trabalhar com alguma outra coisa para te ajudar a pagar o aluguel ou comprar materiais de pintura?

Sempre tive trabalhos para fazer algum dinheiro-extra, mas sempre guardei um tempo para mim, para a minha arte. O mais próximo que tive de um emprego em período integral foi em São Francisco no final da década de 1990, quando eu e algumas amigas decidimos começar uma revista e um site de skate/surf/snowboard/punk para o público feminino. Além disso, trabalhei de atendente em bares, garçonete, assistente de fotógrafo, pintura de cenários para filmes, até hostess de clubes noturnos.

Acho que eu já fiz de tudo um pouco. Não tenho grandes ambições de ter uma casa própria ou um carro, ou outras coisas caras, tudo que eu preciso é um dinheirinho para pagar meu aluguel, comprar comida e está tudo ok. Para mim, a coisa mais valiosa é ter tempo e espaço para poder pintar e condições de viajar. O resto é lixo.

Como você vê artistas que transcenderam seus trabalhos de museus e galerias para produtos como tênis, camisetas, skates, computadores etc. Você acha que é um caminho honesto para artistas alcançarem uma audiência maior e obviamente ganharem o seu dinheiro?

Eu acho que a cultura se misturou. Grandes empresas patrocinam grandes exposições e não existe mais um limite claro sobre o que é comercial e o que não é. Como é possível viver em uma sociedade capitalista? É errado você viver da sua arte, fazendo o que você ama? Eu não consigo entender qual a diferença, qual a importância disso tudo. Fazer parte do sistema de galerias também é um sistema comercial, abastecido por dinheiro. A diferença é que as galerias são tocadas por pessoas que tem visões um tanto restritas sobre o que faz um artista ser “puro”, pois eles tem essa compulsão obsessiva com suas coleções e querem que eles sejam os únicos a possuir uma obra de arte. Eles temem a idéia de que a massa possa gostar ou mesmo possuir arte. Os museus também são parte do sistema, e eles apresentam artistas que já são “colecionáveis” pelos grandes “colecionadores”. Eu nunca vi um artista em um museu que não faz parte do sistema de galerias, você já viu?

Por outro lado, eu tomo bastante cuidado para quem vendo meu trabalho para uso commercial. Sei que de certa forma, indiretamente, estou dando o meu aval sobre determinada marca ou produto. Por exemplo, eu não trabalharia com uma empresa do setor automobilístico, pois sou uma ciclista ativista assim como não trabalharia com uma empresa que fabrica cigarros ou outras coisas que não concordo. Quando faço um trabalho comercial, tento sempre fazer com que esse dinheiro circule na minha comunidade. Eu quero dizer, de onde mais esse dinheiro poderia vir? Do governo? (risos)

Muralista, fotógrafa, gravurista, designer, curadora, seletora de discos, escritora, performer, colecionadora, pintora, ilustradora, videomaker, documentarista… O que mais podemos esperar de você num futuro próximo?

Uma refeição deliciosa com peixe fresco grelhado, uma salada grande e uma bela garrafa de vinho.

Você acha que o seu trabalho é uma maneira de espalhar o amor? Você ainda acredita no amor?

Sim, totalmente!

Você vive intensamente como suas artes representam?

Eu acredito que sim, mas também tenho os meus dias que eu durmo pesado, fico sem fazer absolutamente nada, preguiça máxima.

Obama ou McCain?

Dããã, Obama!

Porque você decidiu se mudar de São Francisco para Nova Iorque?

Recebi uma proposta de trabalho, era para ser algo só por alguns meses mas já se passaram quase sete anos. Estou muito feliz aqui, principalmente porque as estações do ano aqui te dão uma melhor noção de tempo e você tende a se esforçar e se dedicar mais!

O que que você sabe do Brasil e da sua cena de arte local?

Muito pouco. Apenas o que ouvi falar de amigos. O Nunca me contou histórias sobre a evolução dos estilos e sobre os graffitis nas ruas. Eu me lembro que quando o Barry McGee visitou o Brasil anos atrás, o quanto isso teve impacto no seu trabalho. Mas, para mim, é um lugar longe que espero muito um dia poder visitar.

Que outros artistas contemporâneas nós deveríamos ficar de olho?

Tem muitos artistas que eu amo e essa é uma lista bem pequena deles: Jovi Schnell, Dan Tierney, Melissa Brown, Momo, Christine Shields, Leslie Shows, Sakura Maku, Stephanie Davidson, Vanessa Renwick, Sarah Cain, Jo Jackson, Katerina Grosse, Cassandra Jones, Jef Scharf, Mike Pare, Tracy Nakamura, Swoon, Tauba Auerbach, Dasha Shishkin, Ashley Macomber, Misaki Kawai, Elizabeth Huey, Heidi and Erika Anderson, Thad Kellstadt, Clare Rojas, Jessica Ciocci and Paper Rad, Alicia McCarthy, Simone Shubuck, Rosemarie Fiore, Monica Canilao, Kyle Ranson,Tiffany Bozik, Liz Haley, Tara Jane O'Neil, Selma Hafizovic, Hilary Pecis, Kathy Grayson, Lori D, Isabel Samaras, Rita Ackerman, Kime Buzzeli, Meagan Whitmarsh, Kely Ording, Tara Foley, David Ellis, Angela Boatwright, Cody Hudson, Steve Harrington, Andrew Jeffrey Wright, Paul Wackers, Bjorn Copeland, Brian Degraw e Ryan Wallace.

Últimas palavras para seus fãs no Brasil?
Eu amo vocês e quero estar com vocês!

A matéria na edição 7 da revista +Soma você pode conferir baixando o pdf aqui

Veja mais em:

www.mayahayuk.com