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+HIGHLIGHTS


Fri: 09-12-08

Entrevista: Carlos Dias

Por Alexandre Charro

Fotos Cia de Foto 

Veja trechos do longo bate-papo com Carlos Dias que não entraram na matéria "A Quimera Ao Lado de Carlos Dias, na edição 7 da revista +Soma. 

ASA

Um camarada meu lá de Porto Alegre me disse uma vez, “Vamos fazer uma crew ASA?”, “Ao Seu Alcance”. E aí, tipo, ele parou de escrever [nas ruas] e acabei ficando com o nome, mas e daí, escrevo meu nome na rua desde 1985, 86 com canetão piloto, não estou aí pra discutir quem é mais antigo. Admiro tudo isso aí, mano; essas coisas de vândalo, mas hoje em dia eu moro em Florianópolis, na praia, não cabe “certos”. Muitas vezes, têm lugares que parecem que foram feitos pra isso, tipo caixa de luz parece que foi feito pra isso [pixar]... Eu não vou dar um tag de ácido no vidro de um ponto de ônibus de Santa Catarina porque eu vou protestar o quê fazendo isso? Não é muito da minha filosofia, apesar de admirar vários caras que fizeram isso. E a postura, às vezes, acho agressiva demais, mas não existe vandalismo consciente. Acho que o cara negar tudo e riscar tudo, ok. Quando eu vejo um prédio de pastilhinha riscada, o cara mete um canetão ali e eu penso “puta, preferia antes” (risos). E há lugares horríveis que acho mais é que deveriam dar tag com merda, foda-se! Vai cuidar da cidade, tá ligado? Aí os caras ficam aí, cidade limpa [refere-se ao projeto do prefeito paulistano Gilberto Kassab], pintando tudo de cinza..... E todo mundo fica xingando o cara. Eu não o apoio, mas trouxe o assunto em voga e o que isso faz, isso vende o meu trampo na galeria. É sempre uma faca de dois gumes. Eu não estou aí pra renegar o negócio e depois receber um dinheiro da prefeitura.

Inspirações no início

As primeiras coisas que tive contato, tipo, os shapes da Lifestyle, o Billy Argel do Lobotomia, ou as coisas da Thrasher. Você já via que tinha uma ligação com o Metallica ou com os shapes do Misfits e aquilo tudo juntava com o universo que eu vivia. Eu gosto de skate, mas eu gosto de metal também, e aquilo não batia antes. Você via que aquilo existia de um jeito louco.... Muitas das notícias que chegavam aqui eram erradas. Então você vivia de forma romântica a situação e agora dando um pulo lá pra frente, sinto que depois de ter morado 20 anos em São Paulo, decidi mudar pra Florianópolis por uma série de motivos. Não me adapto mais tão bem aqui na cidade, casei e decidimos ir morar lá. E por que eu estou falando isso? Porque estou num lugar que meus amigos falam “você é louco, lá é uma puta de uma roça, não tem nada. Mas quem disse que meu papel não é chegar lá e colorir a cidade, mostrar meu trabalho, minha arte para as pessoas, fazer jus ao nome que eu assino, ASA. Eu não sentia vontade de pintar aqui em SP. Eu sinto nessa mudança uma coisa de aprofundamento espiritual interior, que estando em um lugar um pouco mais atrasado, aquele charme daquilo ali, a rua de terra, eu gosto daquela tranqüilidade ali.  Exatamente onde eu moro, não é o lugar mais charmoso e inspirador, mas eu pego um ônibus e vou pro interior olhar o jeito que as pessoas vivem, olhar a pintura dos barcos ali, ver o jeito que o cara me trata, lidar com essas diferenças e esse atraso se compara com essa época de atraso... acho que em SP, eu passava um dia aqui, ia pra minha casa e o pintar era como um descarrego e quando terminava o trampo, parecia que você colocou um bagulho pra fora. Hoje em dia, também parece que botei um bagulho pra fora, mas a relação do tempo e com o espaço é outra.

As pessoas têm uma necessidade de buscar alguma coisa. Falaí: quantas pessoas viraram evangélicas que você nem imaginava que pudesse acontecer!? No meu caso, desde que fui preso, tive um encontro com Deus ou meu interior, e conheci várias vertentes de religião e hoje acho que sou um cara que estou do lado do bem. É meio estranho falar de bem ou de mal, dou minha vaciladas, a carne é fraca.... falar mal dos outros é fácil – as pessoas querem ser celebridades, eu não me vejo muito por isso, mas às vezes quando sento num bar e tomo umas, xingo um cara que eu já queria xingar, mas que me policio para não fazer isso, porque não gera um carma bom ficar falando mal.

Eu comparo o lance de falar mal com uma droga. Quando você começa a falar mal de alguém, é ação e reação – se você ficar querendo fuder, vai se fuder também. Com esse lance de internet etc, rola o “ah, fulano tá te copiando, fulano fez um lance igual ao seu”; mano, eu não acho ruim, isso me motiva. O cara pode tá ganhando dinheiro e eu sei que ele copiou de mim, mas isso me motiva.

Tudo tem limite, mas tem que desapegar um pouco. O lance de desenhar na rua é muito ligado ao desapego, tô pintando aqui, amanhã se você quiser pode pintar por cima. Foda-se! Isso é uma coisa que é muito ligada a arte de rua e ao processo, é uma coisa que não tem como ir pra uma tela, mas acaba influenciando na linguagem, pinta uma coisa, pinta por cima, pinta uma coisa, pinta por cima. Nunca eu iria pensar dessa maneira em uma tela se não tivessem pintado por cima de um desenho anterior numa parede e sofrido com aquilo. Quantas vezes eu não cobri um desenho que estava foda e fiz uns merda? Eu sei disso.

Influências na arte

O Bill [dono do bar ao lado da Choque Cultural],por exemplo. É um cara que quando eu comecei a freqüentar a Choque, era um cara marrento, só via cortando a carne. Hoje em dia você vai lá e o cara tem um sorriso na cara, ele já viu que as pessoas gostam, que acham engraçado. Você vê um cara velho, pega e vai lá e desenha, aquilo foi uma coisa que me deu um impulso quando eu vi o que ele desenha. Desenho é um mantra, não importa se está feio ou bonito, você entra na viagem. E essas coisas de hoje em dia, de entender um mercado de arte, não esperava esse rumo da minha vida. Não estava esperando. Eu só pretendia me estabelecer, mas ao mesmo tempo, dei muito murro em ponta de faca.

Rolou uma coisa dos anos 1990 pra cá que é uma coisa que anda junto, tanto é que nessa expo de POA [fala sobre a exposição Transfer, no Santander Cultural em Porto Alegre] e agora uma que vai ter no Paço das Artes, os caras estão mostrando a coisa como um todo. Meu desenho não seria do jeito que ele é se eu não tivesse uma relação com o skate do jeito que eu tive, andei uma época, andava mal, mas eu gostava de andar, skate punk, andava por andar. O lance da relação com bandas, o grafite, o spray, o jeito que a informação chegava no Brasil, o rap com o metal, o Anhthrax, com I’m The Man, o Beastie Boys. Então você criava algumas relações de permissão na sua cabeça, tipo, quando os caras do Slayer apareceram com umas bermudas de surf, aí você pensava “beleza, posso usar bermuda de surf”, e aquilo já te permite abrir, no caso do seu desenho, abrir a estética daquilo também. E hoje em dia estou mais velho e olho os caras que surfam, os caras que andam de skate e tem mais ou menos a minha idade, eu sinto que caminham junto, sabe?! Às vezes os mais ignorantes, não no mal sentido, o cara ama aquilo que ele está fazendo e isso acaba sendo que como uma arte – aquilo que ele faz ali, a dedicação dele e a forma que o cara se dedica àquilo. Como eu não enxergo em algumas profissões, como advocacia. O cara ama o que faz, mas é diferente.

Muitas vezes estou pintando de madruga e quando acordo nem lembro o que eu fiz. Eu sinto que tem uma coisa que é mais forte que tudo isso. Estar em galeria, vender, pintar com tinta, spray... Tanto faz. São fatos do mundo terreno, e coisas que você vai morrer discutindo, cada um com seus pontos de vista. Eu sinto também que nessa mudança que eu tive de ir pra Floripa, é que encontrei um caminho, eu sei que estou em um caminho certo, existem outros. Eu sei que o que estou fazendo e é um caminho de desenvolvimento, posso não enxergar, não sou médium, mas sei que tem energias e forças dentro da minha pintura que eu acho que se equivalem a momentos de um transe forte, momentos que consigo chegar a sentir uma integridade com o universo, sou um grão de areia perto do universo, mas as coisas pequenas também tem sua função no todo e pintando sei que estou fazendo minha parte. Sei que existe uma coisa que anda continuamente e não para, porque é muito egoísmo achar que só você está nesse mundo, em outras vibrações e dimensões. Seu pensamento é como uma antena de rádio, então muitas vezes você entra em freqüências e capta coisas que você nem sabe, e talvez um dia vá saber.

Na época que eu trampava com o Stephan, eu tinha o traço mais fino, ficava um pouco na onda dele e ele na minha. Quando eu fui fazer um trabalho de moda pras meninas da Amonstro [marca paulistana de roupas], elas colavam as referências na parede, e aí tipo aquela coisa de ver o jeito delas trabalharem, organizadas e com tudo organizado, tudo em tiras, foi a primeira vez que eu peguei meu trabalho destacado da sujeira e elas editaram. Vamos dizer assim: o meu trabalho, e eu não sei se elas sabem, mas aquilo foi um puta de um aprendizado pra mim, eu não pensava desse jeito. Como eu não fiz faculdade, sempre tentava usar os caminhos que vinham na minha cabeça, não tinha uma metodologia. Ver meu trabalho na passarela, é só um detalhe, um detalhe importante, mas é só um detalhe. Aqui foi um jeito de ver meu trampo, e como alguém enxerga meu trabalho, foi como se clareasse. Porque eu gosto de fazer coisas carregadas, mas nunca tinha usado só o desenho, sabe? Gosto de experimentar muito. Pegar meu trampo e dar na mão do estilista, e ver como ele vai interpretar isso. Fiz um lance pro Herchcovitch que achei uma merda, mas foi, saiu. Me abriu muitas portas e eu não achava que meu trabalho tinha ficado bom.

Um ponto de vista sobre a arte politizada, discursos políticos, Obey, por exemplo.

Na verdade eu acho que cada vez mais, é normal pagar mais caro por uma camiseta,
por uma roupa, por uma marca, e acho a estética dos cartazes do Obey legais. Ele ganha muita grana vendendo coisinhas aqui e ali, mas com uma mensagem talvez de ''ordem'' e isso eu não gosto, os traços pretos e grossos seduzem o olhar de qualquer um. Assim como os uniformes da SS na Segunda Guerra. De qualquer forma, ninguém sabe como reagiria se tomasse uma bolada de grana na vida, ou se sua viagem desse certo pra caralho. Mas esse monte de regras, nunca curti isso daí.
Essa coisa de se aliar a políticos, entrar em campanha... A vida é um Big Brother, e nós todos temos nossa teletelas, conexões boas e ruins. Tem um monte de gente querendo dominar o mundo, aparecer. Acho que essa parada de querer demais não é legal... Essa coisa de obedeça e punk nunca entendi essa relação. Ok, o cara [o artista Shepard Fairey] é fudido, etc, mas “obey”, pelo menos que eu sei, é obedeça, e punk até onde eu sei era liberdade, e/ou tentativa de liberdade, sem muitos aprofundamentos. Curtia os cartazes, mas aqui no Brasil tinha com quem se identificar também, como o MZK. Para os americanos eu já dediquei muito tempo na vida e dedico no som ainda, mas pra ser sincero mesmo, dedico meu tempo para outros interesses.

Saiba Mais:

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