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Fri: 07-04-08

+Soma 6: Mike Ladd (entrevista)

Continuação da entrevista com o MC e produtor estadunidense Mike Ladd presente na +Soma 6. Entrevista por André Maleronka e Arthur Dantas. Imagens por Fernando Martins.

Por que você se mudou para Paris?


Mudei por razões estritamente românticas. Minha mulher é metade francesa, e não queria se mudar para a América. Eu também tava querendo sair de Nova York, tava cansado de estar lá. Então ela chegou e propôs para me mudar para lá por um tempo. Me mudei pra lá e tivemos um filho. O bom é que lá você tem saúde de graça, boa educação de graça, então criar uma criança lá é muito melhor.

Você estava falando que precisa do caos para compor, mas como você aprimora sua habilidade de  composição, desde a época em que você começou a ouvir e a se interessar por música?

Tudo veio através de ouvir muita música, do mesmo jeito que alguém pode aprender a escrever lendo, lendo e lendo. Eu tive uma idéia sobre composição através da música que cresci ouvindo, que era uma grande confusão. Música clássica de manhã - minha mãe ouvia uma estação de rádio que tocava música clássica -, e durante a tarde e a noite ela ouvia Nina Simone, Jimmy Cliff, Bob Marley, George McCrae… Eram essas coisas que eu queria ver rolando no toca-discos. Rock Your Baby do George McCrae rolava direto. Quando eu era criança essas foram minhas maiores influências.

Depois descobri o Hendrix com mais ou menos dez ou onze anos, o Funkadelic com treze ou catorze. Eu era um grande fã de punk rock e de toasting, do começo do dancehall, Yellow Man, Charlie Chaplin, todos esses caras. Tudo isso veio meio junto, influências de muitos lugares diferentes. E acho que quando comecei a usar samplers, um bom tempo depois. Também toquei em muitas bandas antes disso, mas quando comecei a usar samplers tava escuntando muita coisa orquestral, e também o Coltrane, Alice Coltrane e o Pharoah Sanders que possuem um certo movimento. E justamente por isso que especialmente no meu primeiro e segundo disco que você vê algumas músicas que têm movimento.  

O seu background é da cena punk/hardcore. Por qual motivo você escolheu o rap como meio de expressão?

O interessante é que eu estava sempre fazendo os dois ao mesmo tempo. A gente começou a rimar assim que o hip-hop chegou a Boston, mais ou menos dois anos depois de chegar a Nova York, em 1981, e o lance era grande. Começamos a fazer freestyle no caminho pra escola. Eu fazia freestyle e inventava músicas direto, porque eu nunca conseguia lembrar as letras dos caras. Então quando eu era menor, só inventava minhas próprias letras. Eu tava sempre fazendo freestyle, eu e meu amigo Troy. Quando tínhamos 12 anos, meu melhor amigo Troy inventou uma parada que era mais ou menos assim: “When I was a little boy I read the comics, then i gave my money to reaganomics, now that I’m poor I live in a shack, please Mr Reagan won’t you give my money back?”. Era muito legal (risos). Eu também era baterista de uma banda punk, e mesmo depois de três anos tocando punk rock eu fazia rap em cima disso. Isso foi no colegial. De alguma forma, eu tava sempre fazendo os dois. Eu cresci em um lugar muito particular chamado Cambridge em Boston. Era um lugar com muitas universidades e estações de rádio muito boas, muita gente andava de skate, uma cena grande de ska, uma cena grande de reggae - porque a Trojan esteve lá por um momento -, uma cena enorme de punk rock e uma cena de rap. E o jeito que Cambridge funcionava era particular e diferente de como Boston funcionava. Tudo isso era acessível e de qualquer forma a molecada ouvia de tudo. Então foi meio lógico ter todas essas influências juntas.

Então quando você começou a trabalhar com samplers você procurou uma forma de colocar tudo isso junto, certo? É isso que funciona pra você?

Sim. Eu nunca tive disciplina para estudar música de verdade. Eu toquei bateria por um tempo e nunca cheguei ao ponto de ser um baterista realmente bom. Também toquei baixo por um tempo e nunca tive a disciplina para ser um músico. Eu só comecei a fazer minha música e beats quando saí da faculdade. Caiu a ficha que eu não seria um advogado ou o próximo Barack Obama. Meu plano quando tava na faculdade era: a música é um hobby, o que era meio uma resposta a pressão da minha mãe. E meu padastro que era baterista de jazz nos anos cinquenta dizia "não vá fazer música, não faça isso!" Então eu fiquei nessa por um tempo, nunca realmente fiz uma escolha e dei as costas pra todo o resto. Foi com 26, 28 anos que eu me liguei no que tava fazendo.

Eu queria saber um pouco sobre a relação entre a cena de spoken word e rap. Alguns bons rappers estavam envolvidos com a cena de spoken word, ou faziam isto antes do rap, você mesmo por exemplo, o Saul Williams…


Até o Mos Def tava nessa por um tempo! O Antipop Consortium, a Erykah Badu aparecia em alguns lugares no Brooklyn. O que aconteceu foi que a cena de spoken word no começo dos anos 1990 virou a cena da boemia negra. Os negros queriam ir para um lugar que tivesse mais a cara deles. E em muitos momentos tornou-se um lugar em que os negros que não estavam fazendo mainstream, seja hip-hop, R&B ou qualquer coisa, podiam se expressar sem estar na frente de uma audência afro-amerciana que fosse muito orientada pelo pop. Esse era o lugar aonde dava pra arriscar mais e ser experimental. Por esse motivo o Saul, Antipop e o Mos Def frequentaram essa cena por um tempo. Muitos desses caras começaram a atuar também. Alguns estavam no programa The Wire, o Wood Harris fez o papel do Hendrix num filme há um tempo atrás. Em paralelo, muitos de nós que fazíamos poesia nos considerávamos poetas, e não artistas de spoken word. Todo mundo tinha opiniões diferentes sobre o que estavam fazendo. Por razões pessoais sempre me considerei um poeta, e não artista de spoken.

Você estava falando sobre o Majesticons e o Infesticons. Nós conversávamos antes da entrevista sobre quando o disco do Infesticons saiu, e nós sentíamos um senso de sarcasmo. Mas pra gente aqui do Brasil parecia que existia uma cena com pessoas juntas, todo mundo começou a fazer seu lance, mas depois de um tempo tudo isso desapareceu. Com o Majesticons o sarcasmo estava muito claro. Nesse momento não sei qual a sua opinião, mas o underground tinha muita coisa boa nos anos 90, e depois o mainstream também aparece com artistas muito bons. O que você acha disso? E quando sai o próximo disco do Infesticons?

Eu não sei, mas tá quase pronto (risos). Acabei de descobrir a linha da história, é mais ou menos assim: cinco infesticons ficaram em um bunker e a guerra já acabou há anos, e quando eles finalmente saem desse bunker eles acham que a guerra ainda está rolando. Eles vão para algumas festas e não entendem o que está rolando. De repente você tem o Spank Rock, todo esse lance hipster, todo mundo é meio bissexual e eles acabam meio confusos, porque isso não é hip-hop (risos). Eles ficam realmente perdidos. (SOBRE UNDERGROUND E MAINSTREAM) O N.E.R.D meio que mudou tudo, se você conversar com jornalistas todo mundo irá dizer isso. E me lembro que antes de ir para a Europa, na época que tava fazendo o Majesticons, o que estava rolando no mainstream era muito mais interessante que o underground.

Acho que na real não importa se é underground ou mainstream, porque tem muita coisa interessante no mainstream, pensando na música…

Mas é esse o caso, existe uma razão. Ok, tem um monte de bandas que todo mundo gosta porque eles dão duro, mas sempre existe alguém que é bom porque é realmente bom pra cacete e ponto final. Não tem argumento. E esses são os melhores. Eles tão sempre aí. O Bob Marley, por exemplo: porque o cara vendeu milhares de disco? O cara era realmente foda!

Eu tenho sentido que muita gente hoje em dia tá ouvindo coisas mais antigas, música africana dos anos 1970 está sendo relançada, coisas muito boas…

Eu quero pegar uma coletânea que saiu de afro-beat psicodélico, mas eu meio que tô fora disso. Eu acho que isso acontece em todas gerações, quando você fica mais velho, bandas que acabaram de aparecer, você sabe que aquilo não é completamente novo. Eu tenho conhecimento total dos anos 1980, então tudo isso que sai agora, ok, pode ser legal, mas eu sei como o lance vai soar porque tenho o disco original. Então, acaba rolando que deixo essa banda nova de lado e vou pro original. Simplesmente porque o original ainda é melhor. E eu tenho certeza que bandas que amei nos anos 1980, como o primeiro disco do Chilli Peppers por exemplo - eu amo aquele disco…

Mas você ouve o Big Boys e o Funkadelic…

Eu sei (risos). Mas não sei muito o que tá rolando atualmente. Gostei muito do primeiro disco da M.I.A. Há algum tempo eu estava tentando fazer algo como um pingue pongue cultural, tentando usar samplers de Bollywood e mais outras coisas, e ouvindo algumas bandas que estão surgindo em NY e que estão fazendo coisas impactantes, e que não são world music, a música é totalmente integrada com lugares underground urbanos existentes hoje em dia. Eu espero que o próximo grande movimento não saia de N.Y ou Los Angeles, mas sim de São Paulo, Bombain ou Xangai. Quem sabe o que rola em Xangai hoje em dia? É isso que eu estou esperando.

Essa idéia de música global, sem ser world music, é muito interessante. Como você acha que viver na França influencia seu trabalho hoje em dia?


Olha, eu não mudaria para a França por razões artisticas, porque a França era obviamente um lugar incrível para um artista do séc. XIX ou XX se mudar por uma razão específica, a colisão de novas tecnologias do modernismo com as antigas tradições, resultando numa grande explosão que tornaram o lugar muito excitante. Era um enorme epicentro cultural, mas isso não está mais acontecendo. Agora você tem um museu tentando preservar aquele momento. E nesse momento, a tecnologia está completamente fundida com as tradições daquela sociedade - a tensão não existe mais. Já em Bombain, essa tensão está quente, por isso o lugar é interessante. A gente meio que precisa disso. Na minha opinião, quando os lados tecnológico e cultural estão para se alinhar, mas ainda não deram o clique, é nesse momento que rola ação. Quando vive-se em Paris você é obrigado a ir atrás disso…

Você vai para lugares específicos?

Exatamente. Os subúrbios, por exemplo. Eu moro no centro de Paris e o lugar é um grande museu, total preservação cultural.

Você examina, crítica e expande conceitos de livros e idéias filosóficas, como você fez em Negrofilia por exemplo. Quais os seus interesses  e material de pesquisa no momento?


Essa é uma boa pergunta. Realmente, depois de Negrofilia, acho que depois do Father Divine, resolvi fazer discos com músicas realmente boas, o que na real é mais difícil de se fazer. Eu sou tipo aquele cara no colegial ou faculdade que passa de ano com B+, o tipo de cara que têm uma idéia realmente boa e depois fode no papel, você me entende? (risos). O professor acaba falando boa idéia, mas ainda não te dá nota A. Eu fiz muitos discos desse jeito. Acho que dois deles funcionaram. O Welcome To the After Future funcionou. Eu quero fazer a coisa mais complicada que é escrever um monte de músicas boas. Eu preciso lançar o disco do Infesticons primeiro, existe um contrato pra esse disco, e já tô três anos atrasado. Eu realmente me consumo no papel de pai e tentando aprender esse papel. Eu fiz tudo numa tacada só, me mudei para Paris, me casei e tive um filho rápido, então meio que leva um tempo para você se adaptar a essas três coisas. Mas tô pronto agora, vou fazer o disco.

Você fala que vivemos na época pós-futurista. Você pode falar um pouco sobre isso? Se pensarmos nos últimos 8 anos nos Estados Unidos você acredita que o Obama pode ser a pessoa perfeita para encarnar essa nova era?

Mas não seja enganado, eu gosto muito do Barack, e vou estar na América no próximo novembro de qualquer forma, somente pela história desse momento. Não vou ficar na França com o primeiro presidente negro dos Estados Unidos sendo eleito. Minha mulher não vai deixar eu me mudar de volta de jeito nenhum, mas vou passar esse mês nos Estados Unidos. Eu não vou votar nele, mas o Obama, em um nível mais abstrato, pode ser uma nova era, mas ele ainda é a favor do imperialismo e tem interesse que os EUA estejam na frente, continuando no papel da maior potência mundial. E mesmo se em algum lugar do seu subconsciente ele não estiver interessado nisso, se ele estiver interessado em algo mais igualitário, ótimo! Mas as pessoas com quem ele trabalha e para quem ele trabalha não querem isso. E ele definitivamente trabalha para outras pessoas, ele trabalha para grupos de interesse, para os figurões do Congresso e algumas grandes corporações - não são todas que ainda precisam da idéia de nação para fazer dinheiro. Algumas empresas já ultrapassaram isso e não se importam mais se os EUA estiverem em primeiro lugar ou não. Mas o Obama trabalha para essas pessoas, e mesmo na sua campanha ainda não deu exemplos claros de quais e como essas mudanças ocorrerão. Eu acredito que uma grande mudança simbólica vai ocorrer e isso é importante, mas ele não está interessado no modus operandi econômico e social do planeta de maneira alguma, (risos). Você me entende? Poderia repetir a pergunta?

Você acha que o Obama personifica o pós futurista? Na minha opinião, e provavelmente na do resto do mundo, se o Obama ganhar ele vai ser o presidente negro do império, algo completamente louco e complicado de se imaginar…

Concordo, é verdade. É muito interessante. Nesse momento um dos mais perigosos politicos no mundo é uma mulher negra (se refere a Condoleeza Rice). Você me entende? Ela é diabólica e inteligente, além de tudo isso é uma mulher negra. Então toda nossa percepção já tá mudando mesmo que a gente não perceba isso. Há uma grande diferença entre ser o Barack Obama e ser o presidente dos EUA, mas ela não é uma coisa pequena. É muito interessante o que o 9/11 causou também, no momento em que as torres caíram. Eu estava em NY e de repente os afro-americanos não eram mais os inimigos públicos número 1. A primeira vez desde 1492. Foi muito louco. Em relação a administração Bush, a minha teoria é que ela tem uma relação bizarra com o povo afro americano, acho que no fundo ele ama a américa negra do seu jeito perverso de ser. A primeira coisa que posso falar é que o Bush não dá a minima para a humanidade. Ponto. Mais de uma perspectiva mais distante ele está interessado na América negra…