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Wed: 07-02-08

Quem Soma: Bruno “Kaskata” Lancellotti

Quem Soma: Bruno “Kaskata” Lancellotti
Por Renato Silva (foto Cia de Foto)

“Às vezes eu me sinto um “alien” por trabalhar de maneira tão solitária”. Essa frase não deveria soar estranha se não fosse extraída da fala de Bruno “Kaskata” Lancellotti, Jornalista formado pela Faculdade Casper Líbero de São Paulo, 30 anos, treze desses dedicados a promover o Ska no país. Isso se contarmos da publicação da primeira edição de seu Fanzine em 1995 culminando no pesquisador musical que é hoje dono da gravadora Radiola Records.
Por tudo o que realizou em sua curta trajetória, chega a ser incrível notar essa carga de decepção no homem que é o único responsável por algumas das mais agradáveis surpresas no cenário musical, no que se refere ao lançamento no Brasil de artistas emblemáticos ligadas a música Jamaicana e para a nossa alegria, da vinda desses ao país.  


Engraçado pensar que um retrato tão triste como o que nos passa Bruno, sequer foi por mim imaginado quando parti em direção ao Bairro da Vila Mariana onde mora o produtor e pesquisador. Numa dessas manhãs sufocantes de céu por entre os tons de cinza e marrom, uma cor bastante peculiar que por vezes toma de assalto os horizontes de São Paulo, sou convidado a me sentar num aconchegante sofá de sua casa, um apartamento modesto onde vive com sua mãe e também concentra a maioria de suas atividades comerciais. Sou recebido com a simplicidade com a qual o Sr. “Kaskata” conduz o seu trabalho.


Noto a “organizada desordem” dos dias posteriores ao trabalho numa exaustiva, porém, gratificante e bem sucedida turnê dos lendários Skatalites, produzida por ele e que correu alguns estados do país. “É, não tem jeito... Volto de viajem e é sempre essa bagunça, esse monte de coisa que vai se acumulando...”. Pilhas de dvd´s em um canto e um quarto repleto de vinis e cd´s que deixam claro que ali mora um verdadeiro aficionado por música e obviamente tendo o Ska e todas as suas vertentes no domínio da situação.


Conversamos de cara sobre a história do surgimento do Ska no Brasil e também sobre o fato de alguns artistas brasileiros já terem feito versões do gênero na Jovem Guarda. “Acidentalmente o Ska pintou por aqui nos anos sessenta e a geração da Jovem Guarda não tinha idéia de que “Shame e Scandal”, re-gravada por Renato e seus Blue Caps como “O Escândalo” ou, “My Boy Lollypop” que na voz de Vanderléia virou “Meu bem Lollypop” eram Ska e Rock Steady”.


Questiono então uma possível responsabilidade dos Paralamas do Sucesso em divulgar de fato o Ska no país. Recordei-me que no início dos anos oitenta, já que em seu segundo álbum a banda brasiliense trazia uma música com título homônimo e, através disso, eu busquei saber aquilo que num primeiro momento mais me parecia ser uma sigla para algo não relacionado a algum gênero musical. “Não, não! O Ska de fato somente foi divulgado no início dos anos noventa”. Afirma categórico e sequer deixando espaço para réplicas, continua. “Toda a informação que saiu dos Estados Unidos, da Europa, chegou aqui no Brasil na mesma época em que chegava à América Latina e havia três grandes bandas aqui no continente que tinham um som influenciado pelo Ska; o Desordem Público da Venezuela, os Fabulosos Cadilacs da Argentina e os Paralamas. O Desordem Público se caracterizava como 2Tone, tocavam covers e vivenciavam essa idéia do Ska. No caso do Paralamas, aqui se vendeu como rock brasileiro e não importava se era punk ou o que seja, entrava tudo no mesmo caldeirão. Por isso acredito que não tenha sido determinante para impulsionar a cena Ska no Brasil, afinal de contas eu nunca vi alguma declaração desses caras sobre o assunto. A única banda brasileira que marcava  essas características nessa época era o Kongo, do Rio de Janeiro e que era produzida pelo próprio baixista dos Paralamas, o Bi Ribeiro”.


Assunto quase encerrado ele tira então de sua prateleira alguns cds dessas bandas e me mostra as capas. Nota-se que a indumentária, o estilo dos argentinos e dos venezuelanos era completamente influenciado pelas bandas de fora. Pontos dados, os nós estão ali para assegurar a firmeza de suas declarações.


Bruno é um homem sem rodeios quando se trata de suas escolhas e trabalhos, um cara “sem idéinhas” como bem disse Frederico Finelli, dono do selo Submarine Records num “elogio” que acaba sendo retribuído pelo amigo quando perguntado sobre quem no Brasil faz um trabalho sério no meio independente. “Um exemplo de cara sério, que trabalha com integridade. Um cara que sabe muito bem trabalhar no equilíbrio entre o que pode e gostaria de fazer e o que pode realizar. Ele sabe das suas limitações e eu o admiro muito”.


A Radiola Records, selo do qual é o dono e que trabalha com o Ska e todas as suas variações é uma exemplo de profissionalismo dentro do mercado independente mesmo em face a pouca organização com a qual é obrigado a lidar. Tocando a empreitada juntamente com Rodrigo Cerqueira, um designer formado pela Puc do Paraná e que hoje integra o grupo Firebug como baterista, Bruno sabe bem escolher aqueles que quer representar em sua gravadora. A música jamaicana é o foco. “Meu sonho e poder um dia organizar melhor a Radiola, podendo delegar funções, estabelecer metas e cumpri-las de maneira com que eu não me canse tanto. Hoje isso é impossível pos tenho que cuidar de tudo. Também tenho o defeito de ser muito centralizador. Sorte que tenho a ajuda de alguns amigos que quebram vários galhos quando rolam os shows, na divulgação e venda dos produtos da gravadora, no palco”.


Contando hoje com a parceria da Tratore, comandada por Silvio Pellacani e Maurício Bussabe, que é a responsável pela distribuição dos artistas da gravadora, Kaskata sabe bem como seria difícil sua vida sem esse vínculo. “A Tratore está dez anos a frente de quaisquer distribuidoras no Brasil, inclusive as Majors. Eles são a única distribuidora de cds independentes no país e continuam na mesma pegada, o catálogo está cada vez maior... o Silvio e o Maurício, o que esses caras sabem de mercado, de distribuição digital, o que eles estão antenados na música do presente e do futuro é incrível. Fora que precisávamos e mais cinco, seis “Tratores” no país para que a coisa realmente andasse.  


O mercado independente do país apresenta resultados poucas vezes gratificantes para quem produz e na maioria das vezes para quem usufrui da produção e dos frutos por essa gerados. São vários os exemplos de batalhadores que passam por muitas dificuldades durante toda a vida, muitas das vezes alguns desses problemas passam longe de nossa atenção. “Você pega como exemplo o Francesco (dono do Selo FRecords), um cara que tem que lidar com a dificuldade de sua escolha em trabalhar com um público que é muito mais jovem que ele e então surgem problemas que são de ordem etária. As pessoas de sua geração que poderiam estar ao seu lado já não querem mais correr com ele nesse campo. Estão noutra pegada. Fica difícil até conseguir um equilíbrio para satisfazer o seu público”.


O trabalho desenvolvido pela Radiola, apesar de sua relevância dentro do mercado atual, infelizmente é pouco reconhecido fora do meio independente. Nada de novo se relacionarmos o fato a esse estagnado meio mercado musical brasileiro onde somente aqueles que se esforçam ao limite do absurdo conseguem realizar façanhas do calibre de um festival produzido pelo rapaz que reuniu nos anos de 2006 e 2007 no Sesc Pompéia em São Paulo um pouco da nata do Ska , 2 Tone e do Rock Steady. Passaram por ali os Slackers, Desordem Público, a banda argentina Satélite Kingston, o conceituado novaiorquino Victor Rice e bandas brasileiras como o Firebug (lançada pela Radiola Recs.) e também o Móveis Coloniais de Acaju.


O festival “Sons de uma noite de verão” que foi um marco no cenário musical atual brasileiro era obviamente aguardado por muitos no verão de 2008 e, para a surpresa de muitos e inclusive do próprio Bruno, teve sua edição cancelada sem muitas explicações por parte da direção do Sesc São Paulo. “Eu não tive uma resposta oficial por parte do Sesc, mas sinceramente, ainda não entendi o porquê de eles desistirem de um projeto que foi por eles criado, que propiciou o crescimento de uma cena e que deixou toda uma galera órfã sem mais nem menos. Fica difícil fazer algo do tipo sem o apoio, a estrutura que tem essa organização”.


A paixão pelo gênero se deu no início dos anos 90. “Eu era moleque ainda e os sons que meus primos mais velhos ouviam eram minha fonte de inspiração. Pela parte da família do meu pai conheci o reggae. Meu primo, Rica Caveman era vocalista do Nomad, uma das bandas mais bacanas do reggae paulistano nos anos 90. Ele foi pioneiro no dancehall por aqui e ainda hoje segue participando de shows com a galera da nova geração, com o QG Imperial, por exemplo,”. O irmão dele, o KDRA, tocava teclado e hoje é repórter da ESPN Brasil. Foi ele quem me mostrou pela primeira vez um LP da Studio One, justamente o "Ska Authentic", dos Skatalites. Mas eu atribuo a descoberta do som e o entendimento do que era o Ska a um outro primo, esse por parte de mãe, mais ligado ao punk, o Álvaro. Quando ele colou em casa com um álbum do Dead Kennedys é que eu quis ir atrás de música na galeria do rock e foi lá que eu descobri sons como Fishbone e Specials, que me deram uma entrada certeira pro Ska”.


Essa descoberta rendeu vários frutos. O primeiro deles foi o Zine Kaskata, que trazia em seu conteúdo a temática do Ska e do 2Tone bastante em voga nos anos noventa. Já no final da década viria o trabalho que lhe trouxe um maior reconhecimento e, em suas próprias palavras, o que mais lhe agradou. “Já fiz muita coisa legal, mas sem dúvida meus anos de “Skabadabadoo!”na Brasil 2000 FM, foram muito marcantes. Fiquei 5 anos no ar com o programa, de 1997 á 2002 e acho que prestei um serviço fundamental pra que o gênero fosse mais reconhecido aqui em São Paulo. Fiz grandes amigos ali e até hoje recebo pedidos de gente desesperada pra que eu identifique num K7 uma banda ou música mostrada no programa. Era muito louco o lance pois eu tive total liberdade para definir a programação, dar informações. Era um trabalho completo, o melhor que já fiz em minha vida”.  


Antenado, Bruno questiona os rumos tomados pelas rádios do país. “As rádios entraram num processo que eu espero que a imprensa escrita não entre. As pessoas que realmente são interessadas em música hoje em dia já não ouvem mais rádio e eu espero que isso não aconteça e que as pessoas não deixem de acreditar na imprensa escrita. Uma rádio como a Brasil 2000 em que eu tinha um estagiário somente para cuidar de minhas coisas quando rolava o programa, hoje trabalha com somente dois, três funcionários. Isso é muito triste”.


Kaskata, apelido que carrega dos tempos da rádio -“Éramos eu e outro cara fazendo o programa e a direção da rádio pediu um codinome para os dois e eles mesmos sugeriram o Kaskata por conta do fanzine e também pela sonoridade da palavra e tudo o mais. O engraçado foi que pro outro cara que era um Japonês, deram o codinome de Alemão” (risos) – mostra ser um daqueles sujeitos com que você realmente tem prazer em gastar muito do seu tempo em conversas infinitas. Sabe colocar-se entre a certeza de seus pontos de vista sem mostrar quaisquer as afetações muitas vezes típicas daqueles que esbanjam conhecimento. Quando questionado sobre o papel da mídia na divulgação da música independente, mais especificamente o Ska, Bruno solta o verbo. “Olha, não posso negar que existe uma bronca com relação a maneira com que a imprensa trata das coisas especialmente no meu segmento. Isso me frustra demais pois, sou jornalista também e sei bem como funcionam as coisas, como é a cadeia de prioridades dentro de uma empresa de comunicação”.


O espaço entre a fala o entrevistado e a lembrança do entrevistador é mínimo. Imediatamente me surge em mente a matéria veiculada no Jornal da Globo quando do festival “Sons de uma noite de verão”. “Pra mim, o que ficou dessa matéria foi o seguinte: O repórter (...) veio em minha casa, pegou meu dvd do Studio One Stories, sumiu e hoje é correspondente da Globo em Nova Iorque” (risos). “Fiquei um mês e meio tentando falar com o cara na redação e era sempre um “não está, saiu, ta editando”. Porra; paguei 280 reais naquela merda. O que você não faz para divulgar o seu trabalho, né... Detalhe: ainda me ligou pra dizer que o dvd estava riscado. E teve gente que falou: mas é um espaço na Globo...foda-se, não custa nada, tem duzentos motoboys lá, é só mandar de volta”. (risos).


Óbvio que o triste episódio não foi determinante para uma avaliação do resultado que uma matéria no maior veículo de comunicação do país pode trazer, mas, Bruno tem suas ressalvas. “Não tinha nada mais acontecendo em Janeiro e então saiu matéria de uma página no Jornal da Tarde, a TV Cultura também fez seu material e a Globo, sabe-se lá porque, se por falta de pauta ou alguma outra janela, resolveu fazer uma também. Ótimo. Mas isso é complicado, pois, o Brasil precisa de programação cultural o ano todo e não ficar nessa história de começar a funcionar somente depois do carnaval. Mas se fosse uma coisa comum, a Globo teria mandado alguém para cobrir os Skatalites também”.


Tratar sobre questões culturais em nosso país sempre nos leva a reflexões mais intensas. Para um produtor que leva essas questões sempre ao extremo, passando pelo incansável trabalho de lapidação de recursos para a divulgação, obviamente há uma série de pontos a serem discutidos, principalmente quando se trata de alguém que tão bem conhece os meios de comunicação.


A recente turnê dos Skatalites pelo Brasil é, para o Kaskata, um exemplo da desvalorização com que a imprensa lida os artistas que não estão em voga. “Eu trago para o Brasil uma banda que tem 45 anos de estrada, uma banda que criou um gênero, criou o Reggae e que deveria estar no cinema assim como o Buena Vista Social Club. Poxa, os caras são reconhecidos pelo governo jamaicano como disseminadores da cultura do seu país, Lloyd Knibb (baterista) tem lá o O.D. (Order of Distinction) concedido pelo governo da Jamaica, se isso não é importante então o que mais seria? E o que acontece então; os caras vem pra cá e eu não consigo um “tijolinho” sequer numa página de seu caderno de cultura. Agora, vem o novo DJ Israelense, de trance, para o Brasil e é uma página falando sobre o cara, como se fosse o maior artista de todos os tempos. É uma obrigação do jornalista buscar informar ao público sobre isso e não essa luta para colocar matéria numa Folha, num Estado de São Paulo. Rola uma preguiça do jornalista cultural hoje em pesquisar, a coisa tem que cair no colo pro cara publicar. E está muito mais ligado ao gosto pessoal do jornalista do que o que pede o interesse público. O jornalista tem que ser mais responsável, buscar oferecer o que é do gosto de todos e não somente aquilo que está na moda, um papel educativo. E tem também o lado de jogar fora o que um dia já foi bom, transformar em lixo... De repente nem é pior, é merda. Como assim? De uma hora para a outra passa a ser merda? E deixo claro que isso não está relacionado somente ao Ska, mas a outros gêneros também. Na verdade somos verdadeiras marionetes na mão de um títere que comanda tudo ali, estamos no meio de uma indústria onde os meios são incrivelmente sujos e estamos sempre submetidos ao que o hemisfério norte quer ou não transformar em sucesso ou em lixo”.


As histórias se sobrepõem. São tantas que fica difícil enumera-las. Impressiona o modo como Bruno se refere ás dificuldades encontradas nessa estrada com tanta naturalidade. Por entre uma pausa para atender ao telefone [pedidos de shows são freqüentes nessas ligações] e outra para mostrar-me algo relacionado á conversa que corre solta na sala de seu apartamento, Kaskata me conta sobre uma bizzara situação acontecida tempos atrás.


“Há uns dois anos eu conheci um cara aqui no Brasil que tinha vindo acompanhar uma banda venezuelana que eu trouxe pra cá, supostamente com uma passagem paga pelo governo venezuelano. Ele não tinha onde ficar, então o hospedamos na casa de uns amigos. Ele não tinha grana nem pra comer, então demos a ele uns sanduiches e tal, enfim, fizemos tudo o que manda a cartilha do bom vizinho e de alguém que você se identifica e vê na roubada. Bom, dias depois do cara ir embora meu amigo que o hospedou “deu por falta” de alguns CDs. Ele ficou queimadaço aqui na quebrada.  Anos depois recebo um email encaminhado pelo mananger dos Skatalites, com uma proposta para a banda ir tocar na Venezuela, enviada justamente por este cara. Me surpreendeu a abordagem. Ele chegou a me ligar pra tentar me convencer a levar os Skatalites pra lá faltando apenas dez dias pra banda desembarcar aqui no Brasil. E me chocou também o fato do cara articular a história como se fosse o próprio Hugo Chavez, saca? Talvez ele se sinta assim justamente pelo fato da revolução bolivariana buscar um governo sem intermediações, como se o líder falasse direto com o povo, num “esquemão” bem populista mesmo. Mas fiquei assustado ao perceber que de fato aquele cara podia ter real acesso a instâncias maiores dentro do governo, que pudessem passar por cima de toda a burocracia de produção de um show internacional (como obtenção de vistos, por exemplo) com base numa “canetada” vinda de Miraflores (sede do governo). Meu sonho de revolução ficou abalado ao ver o tipo de gente que pode estar por trás dela”. (risos)


O surgimento de novas bandas brasileiras que se destaquem fora do país é algo distante. São poucas as que têm cacife e profissionalismo para se inserirem num mercado externo. Ao tratar do tema surge novamente o incômodo de ser “álien”. “O mercado do Ska e do Reggae mundial não está aberto para bandas brasileiras pelo fato dessas ainda fazerem um som igual ao que é feito lá fora. Não tem uma banda pra colocar lá fora como Ska brasileiro. Ninguém até hoje ousou fazer uma pesquisa procurar uma ligação com as tradições, a origem da música brasileira que tem raízes na música africana assim como a música jamaicana o tem. Coloque um grupo de Ska na rua, no carnaval lá de recife pra ver se não rola. E lá fora eles esperam isso da gente, uma aura mais “tropicalista”, que peguemos o que vem de fora, mastiguemos aqui e possamos devolver algo diferente do que eles já tem. Eu adoraria ter banda assim para lançar na Radiola”.


Sobre futuros alvos, Bruno logo mostra que está longe de estacionar, muito pelo contrário. “Estou agora numa batalha para buscar projetos que sejam menos arriscados, com um apoio governamental, essas leis de incentivos culturais. Tenho também uma idéia de fazer uma coletânea e trazer algumas bandas de Afrobeat para cá. Só não sei ainda se continuarei editando discos á maneira como tenho feito. O vinil talvez seja a solução”.


A inquietude perene na alma do Kaskata é latente. Os rumos a serem tomados, principalmente se o acaso bater em sua porta e uma possível mudança se fizer necessária, em direção a aquela que é a sua carreira de origem, afinal de contas, somos sabedores que os riscos são iminentes para esses que objetivam o seu sonho e o colocam como prioridade em realizá-los a quaisquer custos. “Eu sou um cara que aprendi a pensar na faculdade de jornalismo, mas deixa a CBN pra depois. Estou bastante longe de conseguir minha independência financeira. Ainda moro com minha mãe, minhas coisas estão todas entulhadas aqui, tenho minhas contas a pagar. Mas eu tenho sorte de ser um cara bem instruído, que não vai focar na rua caso as coisas dêem errado. Minha criação está condicionada a isso, essa questão de ter “saúde” para continuar e a arte muitas vezes surge disso”.  


A realidade “bate a porta” e se traduz numa fugaz olhada para o relógio. Num ambiente tão aprazível, o tempo, singular em seu torque opressor dá as caras e ensina que as necessidades ainda são outras. Saio de sua casa e, ao entrar no carro para o próximo compromisso uma passada por alguma rádio que me traga notícias sobre o trânsito caótico da cidade. Um boletim me informa que os caminhos devem ser outros, pois os mais conhecidos, óbvios, estão congestionados. Lembrei-me da vocação primeira do rapaz que acabo de entrevistar. Pensando bem, melhor não.   

(A versão resumida desta matéria é parte integrante da sexta edição da revista +Soma.)