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Mon: 06-30-08

Ambição no Deserto, de Albert Cossery

Ambição no Deserto . Albert Cossery . Conrad Editora . 2008

O egípcio Albert Cossery é o famoso romancista da preguiça, encarando esta como atividade filosófica. Talvez por isso, em mais de 70 anos de atividade literária, tenha publicado apenas oito livros, ao ritmo de uma frase por dia, como gosta de ressaltar. O livro publicado recentemente no Brasil (a terceira obra de Cossery publicada pela Conrad), uma obra de meados dos anos 1980, é seu único romance a não retratar o Egito um tanto imaginário do autor, já que Cossery vive em um mesmo quarto de hotel em Paris desde 1945.

A trama deste romance é simples: em Dofa, emirado fictício, uma série de atentados a bomba desperta reações variadas na população. Para Ben Kadem, o primeiro-ministro, as explosões significam uma oportunidade de conseguir chamar a atenção do mundo para seu país, ignorado por não ter uma gota de petróleo em seu subsolo. Samantar, um bon vivant típico dos livros de Cossery, considera os ataques uma aberração, em um lugar assolado pela miséria, e passa a investigá-los, mudando seu dia-a-dia marcado por prazeres carnais e por jogar conversa fora. Capítulo vai, capítulo vem, os diálogos morosos são sempre marcados por baforadas em cigarros de haxixe. O estilo de Cossery é acessível e despojado, marcado por frases belas e sucintas.

Não há vírgula ou frase sobressalente, apenas o essencial. E o essencial para Cossery é ponderar sobre os benefícios de uma conduta devotada aos prazeres da vida, convidando-nos ao despojamento e ao riso como forma de subverter os valores de uma sociedade que pede somente o sucesso, a vitória, a opulência. Nada disso teria interesse se Cossery não fosse um contador de histórias tão engenhoso e vigoroso, criando histórias que beiram o ridículo, de tão tolas em sua superfície.

Por Arthur Dantas


EM TEMPO:
O escritor egípcio Albert Cossery morreu no último dia 22 de junho, segundo a agência de notícias France Press. O corpo de Cossery, que tinha 94 anos, foi encontrado no seu quarto no hotel Lousiana, em Paris. Vivendo há quase 60 anos no mesmo hotel, Cossery notabilizou-se pelos seus romances escritos em francês e ambientados no Oriente Médio (especialmente no Egito). Num estilo muito particular, misturando sarcasmo e sabedoria oriental, Cossery escreveu oito romances, sempre na cadência de “uma linha por dia”, como gostava de declarar.

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