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Mon: 05-12-08

10 Perguntas para Oskar Metsavaht

Batemos um papo com Oskar Metsavaht, o homem por trás da Osklen, para saber um pouco mais sobre o processo de produção de seus filmes e específicamente de seu último curta-metragem lançado recentemente - e também tema de sua nova coleção - intitulado Surfing the City. Confira!

1) Você tem lançado com freqüência filmes/curtas em paralelo com o lançamento de suas coleções. O que inspira o quê? A moda inspira seus filmes, ou seus filmes inspiram a sua moda?

Sou bastante imagético. Geralmente inicio o processo criativo de minhas coleções, com uma cena, uma história, um conceito que imagino a partir de algo que eu desejei ou vivi. Deste ponto, com a idéia ainda bem abstrata em relação às pecas da coleção, eu crio o clima, a atmosfera, os looks e as atitudes. Na maior parte das vezes eu concebo a campanha antes mesmo da coleção. Talvez por isso eu goste de fazer a direção de arte do shooting. Desta forma, desenvolver a coleção junto com as minhas equipes fica mais interessante. A coleção tem um objetivo que é vestir os meus "personagens". É o figurino do "filme" que ainda tenho em mente. Isto me estimula, então, a desenvolver o clima, a cenografia dos meus desfiles. Os curtas, que faço com a minha câmera Bolex 16mm, são a minha oportunidade de expressar, compartilhar, com os outros aquela cena que imaginei lá no início do processo. É o meu olhar, o olhar do criador sobre a sua própria coleção, diferente de um making of.

Só fico satisfeito com a coleção quando os elementos propostos para cada peça, as cores, as texturas e as silhuetas passam a ser usados pelos personagens do filme que criei. Daí comecei a pensar no filme e consequentemente na campanha e na coleção. A idéia era propor, através da imagem em movimento e estática e através da moda, uma maneira de observar as cidades com o mesmo prazer em que se desce uma onda ou uma montanha. O olhar em deslocamento constante, seja a pé, de skate ou carro, contempla as faixas da pista ou os feixes das luzes do trânsito em velocidade. Diferentes manifestações de arte urbana, profusão de personagens e estilos. Multiplicidade de informações estéticas que causam uma sensação de liberdade quando se vaga pela noite.

2) Porque escolheu as cidades Tokyo, New York, São Paulo e Paris como locações? A coleção Surfing the City também foi inspirada nessas metrópoles?

No ano passado tive que passar vários dias em cada uma destas cidades. Acabei não surfando ondas ou montanhas, mas surfei estas cidades várias noites. Viajei muito no ano passado para todas estas cidades por conta da expansão internacional da Osklen e por causa das semanas de moda. E o que mais ficou fixado na minha cabeça foi a cena urbana noturna. Especificamente aqueles breves momentos durante a noite nestas metrópoles. Como aqueles, no carro, quando você está com a cabeça encostada na janela e observa a arquitetura, a arte urbana, as luzes em movimento, seus traços. Aqueles poucos minutos. Apenas surfando. Surfing the City.

3) O que te inspira mais nas cidades por onde viajou?  

Gosto das grandes cidades à noite. O dia nestas cidades é caótico, a intervenção urbana do homem na natureza, criando as cidades é um horror, mas à noite, quando a cidade se ilumina e a intervenção do homem surge através da arquitetura dos grandes prédios, das luzes na cidade, do movimento dos carros, da arte urbana, seus grafites, esculturas, praças. Ai esta o belo, não o da natureza, mas o da criação do homem. Curto a noite das cidades tanto quanto a natureza durante o dia.

4) Porque optou por filmar todas as cenas à noite?
 

Filmei as cidades por onde estive naquele ano, sempre na janela de trás do táxi, tentando captar exatamente aqueles momentos que tive, que me inspiraram a coleção, naquelas noites, com a cabeça encostada no vidro e simplesmente olhando a cidade passar.

5) Como foi o processo de captação das imagens?


Entre dezembro e começo de março tive que percorrer estas quatro cidades novamente por causa da Osklen. Lançamos a coleção Surfing the City em janeiro no SPFW e fizemos o shooting da campanha em fevereiro. A captação aconteceu no meio de tudo isso. Apenas eu, a bolex e os taxistas. Imagine trocar os chassis da câmera no carro em movimento ou no meio da rua debaixo de neve. Me diverti bastante sozinho.

6) Como pensou a fotometria neste processo?

Como em NY, Paris e Tókio eu estaria sozinho, eu e o meu assistente aqui no Brasil pensamos em trabalhar em 24fpm, com filme asa 100 e com o obturador aberto ao redor de 2.0. Eu ia compensando com a quantidade de luz que eu observava, no "feeling". Então, como o clima que eu queria passar era aquele de meio da noite, tudo um pouco embaçado, "stoned", quase melancólico, a leitura que viesse das imagens, seria interessante. E foi o que aconteceu, fiquei satisfeito com as imagens que eu capturei e com a edição que fizemos.

7) Como você vê a diferença dos processos de captação digital e película?


Nos meus filmes e documentários que faço, já trabalhei com cinegrafistas com câmeras digitais e com película. Hoje em dia, prefiro, para estes documentários, usar a captação digital, pois não há risco de se perder imagens importantes. Como dirijo este documentários, que são um doc/ficção, não posso me dar o luxo de perder um momento, um fato real, uma imagem que me ajudará a contar a minha história na hora da edição. Tenho um roteiro e script, claro, mas bem superficial. É a própria expedição que vai criando o script. Então, não posso perder imagens. E com a película isto e' praticamente impossível. Pelo custo do filme, pela falta de praticidade devido ao reload, à fotometragem etc.

Já para os meus curtas, claro, sempre com a película. Quem tem a sensibilidade de perceber a diferença, me entende. O filme é feito de material orgânico. É uma película com uma determinada densidade e profundidade, onde as nuances na captação das diferentes tonalidades e intensidades da luz encontram o seu lugar na película. De alguma forma, a imagem que vemos em um filme direto em um projetor tem algo a mais. Não sei explicar, mas olhar através de um viewfinder não eletrônico e sentir aquele rodar do filme na câmera me da' um prazer e ao mesmo tempo uma responsabilidade do disparo, pois são poucos minutos que tenho em cada rolo e não há coisa mais frustrante do que você estar filmando uma bela cena e perceber que o rolo de filme vai acabar antes da cena.

8) Quantos filmes já produziu?


Comecei a fazer filmes em super 8, na adolescência. Depois, passei a dirigir vídeos de nossas viagens de snowboard no inicio dos anos 90, que eram apresentados no Fantástico, no Esporte Espetacular e Sportv. A partir de 96 comecei a dirigir documentários como os da trilogia “Surfing the mountains”, criada e produzida por mim e pelo meu irmão Leonardo, sobre a cultura de povos ricos em conceitos humanitários expressa em uma linguagem moderna.  Fizemos 3 viagens em épocas diferentes em busca das melhores montanhas do mundo para a prática do snowboard, o surfe de neve, que serve como pano de fundo para estes documentários que retratam também a energia – física e mental – necessária à conquista e superação de limites. Começamos pelo vulcão Pucón no Chile, depois fomos para o inóspito Alaska e estamos prestes a estrear no Brasil o último filme da trilogia que se chama “Surfando as Montanhas Sagradas do Himalaia”. Também já fiz um documentário sobre a Amazônia e hoje, com a minha inseparável Bolex, expresso o meu olhar em cada coleção que faço para a Osklen. Com ela posso expressar, em primeira pessoa, um olhar sobre minhas próprias criações, coleções, campanhas e expedições. Filmar é a minha assinatura em movimento. O “Surfing the City” é o quarto curta que eu filmo e dirijo.

9) Não é a primeira vez que vemos o skate inserido em suas coleções e campanhas. Como você enxerga a relação do skate com a cidade e sua arquitetura?

Sou skatista desde os 13 anos de idade, sempre na procura da calçada ideal para eu me sentir surfando. Sou do freeriding que hoje é o street style. Para você entender qual a minha relação com o skate e a arquitetura urbana, é interessante ver a campanha da coleção "SK8 - Osklen Urban Vehicule" de 4 anos atrás e o conceito que tenho quanto a isto. Tento descrever abaixo o meu pensamento:

A arquitetura urbana não é nada orgânica. Não há curvas, as calcadas, os meio-fios, as paredes, as ruas, tudo geralmente em ângulos retos, o que não permite o deslizar. O skate veio do desejo de surfistas, longe das praias, que procuravam encontrar, dentro das cidades, locais onde pudessem similar o movimento de uma onda com o skate, mas são raríssimos os espaços urbanos onde isto existe. Isto era nos anos 70, nos anos 80 e 90, o skate assume um outro estilo, vindo exatamente desta "revolta" quanto à arquitetura urbana. O skatista é um rebelde. Ele cria novas manobras que se adaptam aos ângulos retos. Surge o streetstyle. O estilo skateboarder, grunge, acontece ao mesmo tempo em que varias manifestações urbanas surgem: as bandas, os grafites, etc. Ou seja, no início, o surfista-skatista procurava áreas onde pudesse haver uma harmonia entre a manobra idealizada do surf sobre as ondas na cidade. E nas décadas seguintes, surge o skatista, puramente urbano, que adapta a arquitetura urbana com novas manobras, harmônicas em um novo estilo. E, naquela coleção SK8 - Osklen Urban Vehicle, apresentei um novo conceito, onde eu imaginava como seriam as roupas e a arquitetura urbana se o skate fosse um veículo urbano.  

10) Você pensa em investir mais tempo nesse seu lado de filmmaker, chegar ao ponto de captar e dirigir um longa metragem, por exemplo?

Você imagina que eu era medico, comecei a fazer expedições, dai roupas técnico-esportivas, daí moda praia e surf e nos últimos 6 anos, design de moda, móveis, relógios e conceitos de entertainment. Nada foi planejado e nem pretensioso. Mas claro que eu tenho o desejo, afinal, quem não teria?  Dirigir um longa é um dos meus poucos sonhos ainda não realizados, mas o roteiro já está na cabeça. O difícil é poder me dedicar meses somente a um projeto. Enquanto isso, claro, continuo a experimentar mais com estes projetos pequenos e ir conhecendo melhor os bons profissionais deste metier.