Por Arthur Dantas
A +Soma acompanhou as apresentações de Luiz Melodia, tocando as canções de seu clássico álbum Pérola Negra, e Naná Vasconcellos, que iria inicialmente se apresentar ao lado de Egberto Gismonti (que não compareceu em função de problemas de saúde), no Teatro Municipal, dia 26 de Abril, dentro da programação da Virada Cultural, programação cultural com duração de 24 horas promovida anualmente pela prefeitura de São Paulo.
Um príncipe lírico pós-tropicalista “desarruma o samba”: Luiz Melodia
Luiz Melodia subiu ao palco, acompanhado de um quarteto, e apresentou as dez canções de seu trabalho mais famoso na seqüência, com poucas e precisas mudanças nas composições. Abundantemente Morte teve uma versão um pouco mais longa, assim como seus maiores sucessos deste disco, Magrelinha e a faixa-título. Já Forró de Janeiro ganhou levíssimos contornos reggae.
O teatro completamente abarrotado, abraçou o artista de imediato e propiciou o clima mais do que especial para que Luiz Melodia apresentasse seu disco clássico. Por sua vez, o musico, vestido com uma camiseta colorida e sandálias, retribuiu todo esse carinho com uma apresentação enxuta e centrada, com alguns momentos de maior intensidade. “Estou me sentindo começando minha carreira (...) dependo de vocês para todo esse sucesso”, falou em uma das poucas intervenções entre as canções.
Melodia construiu uma sólida carreira, muito devedora de uma certa tradição advinda do tropicalismo, aliada ao lirismo de suas letras, contando pequenos contos de histórias de amor ao avesso, marcadas pela negação. Versos como “Ai de mim, ai de nós dois” ou “se alguém quer me matar de amor / que seja no Estácio”, são exemplos dessa lírica tão particular.
Além das dez canções do álbum, emendou um bis com mais três canções retiradas de seus quatro primeiro álbuns, em um show de pouco mais de uma hora.
O Batuque Mágico de Naná Vasconcellos
“O Brasil, de uma certa forma, o Brasil não conhece”
Essa frase de Naná Vasconcellos, dita logo após a primeira canção do show, revela muito do por quê voltar sua atenção aos ritmos amazônicos, sobretudo das tribos indígenas. Foi esse show que Naná realizou, contrariando a programação, que previa a apresentação, na íntegra, do álbum A Dança das Cabeças, álbum de 1977 concebido ao lado de Egberto Gismonti. Obviamente, a maioria esmagadora do público esperava por Egberto, mas não era possível ver ninguém reclamando da performance solo de Naná.
O percussionista, tido com um dos mais importantes vivos no planeta, entrou no palco tocando berimbau e, ao fim de quase dez minutos empunhando o instrumento, já havia desenrolado um rol de possibilidades rítmico-percussivas para o instrumento que conquistaram o público.
O show, baseado em um primeiro momento na manipulação de uma série de instrumentos percussivos (gongos, bareimbau, atabaque etc) aliados à manipulação de um pedal de delay, teve sua tônica na tradição musical dos índios da região amazônica. Mas não faltaram experiências calcadas no cancioneiro nordestino e em sons da natureza.
O controle absoluto no manuseio de seus instrumentos, na riqueza de ritmos e tempos alinhavados de forma natural e nem por isso simplória de Naná, juntamente com a maestria em encaixar sua voz sobretudo como contraponto percussivo, foi o fio condutor para suas breves narrativas calcadas em rimas amplamente extraídas do cancioneiro popular.
Momento de extrema beleza e catarse coletiva, foi ao construir uma orquestra de vozes, dividindo o teatro em grupos, onde simulava os sons de um imenso rio amazônico. A experiência, foi ao mínimo, arrebatadora.
Para coroar uma apresentação que é quase uma experiência divinatória (e parece ser essa mesmo a intenção do percussionista), realizou (novamente com a participação do público) uma espécie de mantra jazzístico de seus tempos no grupo CODONA. Inesquecível.
Veja abaixo, um trecho da apresentação de Naná Vasconcellos dentro da Virada Cultural.