Por Arthur Dantas
Tensão e expectativa. Era hora de ver a mais importante e influente banda do hardcore americano finalmente em ação no Brasil. Como seria o grupo sem a presença do carismático, mas já um tanto “cansado”, vocalista H.R? Vale lembrar que, ao contrário do divulgado, o grupo contou com a presença de seu baterista original. Vá lá: um ¾ de Bad Brains já é melhor do que qualquer banda hardcore que você veja por aí.
Em menos de 10 minutos, a redenção: com a presença do carismático vocalista Israel Joseph, que se não tem um vocal tão potente e característico quanto o do H.R dos anos 80, tem a juventude e a gana necessária para lidar com o público e toda sua ansiedade, o grupo jogou de cara a poderosa Attitude, do cultuado álbum Rock For Light e na sequência, uma coladinha na outra, Sailin On e Regulator, do disco Black Dots. Catarse coletiva. O som, inicialmente um pouco confuso, não desanimou ninguém. Rodas de pogo, stage dives ensandecidos e cantoria comendo solto. O que mais esperar de um show de hardcore? Quem sabe reggae, não?
O quarteto não deixou por menos. A guitarra de Dr. Know é única, isso todos sabemos. Se passado de guitarrista de fusion jazz lhe dá uma série de recursos imprescíndíveis para a sonoridade do grupo. Ver ele elencando uma infinidade de riffs rápidos e cortantes, e por vezes pesados e precisos, como o que há de melhor no trash metal assusta e comove. O baixo e a bateria ganham destaque nas faixas reggae, como The Youth Are Getting Restless e a fantástica e emblematica I And I Survive, que encerra toda a filosofia positiva e rasta do grupo e não deixa nada a desejar a qualquer música do melhor reggae jamaicano já feito.
Curioso era que, como mais da metade do público era “maduro”, o pogo foi acintuoso mas, se é que isso é possível, respeitoso. Da parte de cima onde me encontrava, não vi nenhum sinal de briga. Aquele excesso tão freqüente juvenil, que muitas vezes desanda em violência pura e gratuita em alguns shows, encontrou um freio silencioso na conduta da maioria do público.
O grupo foi elencando clássicos um atrás do outro: Pay To Cum, Banned in D.C, Right Brigade e por aí vai. Tocaram quase nada de seus álbuns menores e do último álbum Rebuild A Nation. E o vocalista, um grande entertainer de resto, arriscou várias palavras em português e participou da festa como se alguém do público fosse. Nada mais coerente.
Fechou uma semana que começou com o inesquecível show dos Skatalites e reafirmou o papel crucial dos negros na musica pop contemporânea. Se Skatalites inventou toda uma gama de ritmos jamaicanos, os Bad Brains reinventaram o rock rápido e violento alem de expandir e redimensionar a mistura de punk rock e reggae iniciada pelos ingleses ainda na década de 1970.
A única palavra possível para descrever o show é inesquecível! Parece que aquele espaço, chamado Broadaway antes e hoje easy, está fadado a nos dar sempre grandes coessentações, como a do Fugazi em 1997 ou o Superchunk em 1998. O que não faltará a quem esteve presente é motivos para levar essa memória em algum canto confortável do coração.
Abaixo, trecho do início da apresentação do grupo em São Paulo e algumas palavras do guitarrista Dr. Know. Ainda dá para acompanhar o grupo no Rio de Janeiro e Recife.