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Tue: 04-01-08

Black Hole, de Charles Burns e Escombros, de Dave Cooper

O absurdo e a perplexidade rente aos novos tempos são tema e dois álbuns em quadrinhos.

Black Hole (Conrad Editora) é um clássico instantâneo. Obra-prima do artista americano Charles Burns, um dos
mais apreciados artistas underground, ganhou todos os prêmios possíveis e tornou acessível seu universo pesado e hermético. Já Escombros (Zarabatana Books), do canadense Dave Cooper, é o improvável encontro entre Futurama
(desenho no qual Cooper trabalhou na concepção visual) e Daniel Clowes. Ambos problematizam a juventude, um com cores mais macabras e outro com olhar fantástico, para explicar o vazio existencial de pessoas que não
conseguem lidar com as mudanças em relação às quais se sentem meros marionetes. O álbum de Clowes trata de uma comunidade suburbana de Seattle, na década de 1970, onde uma doença sexualmente transmissível produz
sintomas bizarros e estigmatizantes: em um aparece uma cauda, noutro uma segunda boca situada no pescoço e por aí vai. Só que, para além do terror visual, o que causa estragos em nossa mente é o visual sufocante dos quadros de Burns, que mimetizam a opressão e incompreensão da comunidade em relação aos infectados – metáfora forte que alimenta camadas de interpretação. Se a Cooper faltam o preciosismo e a agudez de Burns, sobra humor politicamente incorreto e talento para narrar uma história que poderia ocorrer a qualquer um, não fosse o “detalhe” do contexto: após tomar um fora da namorada, Knuckle, um baixote cabeçudo, inseguro e angustiado, embarca com seu amigo Zev (um misógino padrão) em uma inconseqüente viagem em busca de sexo. Até aí tudo bem... Desde que o cenário da história não seja uma sociedade comandada pelas mulheres, onde lésbicas extremistas, horríveis mutantes e um mundo ditado pela tecnologia surjam como pano de fundo. O que não falta a ambos autores é brilho e poder de
sugestão para discutir o mundo contemporâneo. 

Por Arthur Dantas