Por Arthur Dantas A passagem do trio de rock minimalista Shellac foi marcante, para não dizer histórica. Em uma certa perspectiva histórica, esse tipo de comportamento e música que encerra o grupo comandado por Steve Albini, está francamento em decadência – ou desuso, para usar termo mais caro à era de hipervelocidade tecnológica. Se toda essa onda New Rave (de resto, um rótulo vazio marqueteiro, sintomático aliás) é a “cara” da geração mp3, possivelmente o Nirvana seria o CD. E o Shellac certamente o vinil, quem sabe até a fita k-7. Assim como um Fugazi ou Superchunk, para ficar em dois exemplos com certa ascendência no Brasil.
O (anti) climax da apresentação, foi o (não) hit The End Of A Radio, emblemática do show como um todo – assim como o “anti” e o “não” na frase anterior: não há concessões nem fugas possíveis e, para usar um termo bem brasileiro, não tem margem para “caô” na “estética Shellac”. Eles estão ali por inteiro, sem ficções efêmeras nem nada que seja a própria música e a vitalidade de Albini e cia. Na música citada acima, um hino fúnebre de três acordes secos e retumbantes, Albini assume o papel de último radialista em um planeta devastado. Ou seja, alguém em uma mídia ultrapassada (saudosismo?) falando para ninguém. E pela falta de refrão, cortes secos na guitarra única de Albini vem e vão, assim como a batida sempre exata e econômica do baterista Todd Trainer. É uma tragédia se desenvolvendo através dos quase 8 minutos de música (e pela uma hora e meia de show!), nos lembrando que provavelmente ainda vamos sentir muito a falta de bandas como o Shellac. Quando falo tragédia, é bom que se diga, uma tragédia pequena, como a que desenvolvemos ao quebrar um prato estimado ou ao riscar um disco querido. Banalidades. Ou melhor: vida de seres humanos comuns. Essa é a essência do grupo.
Sua música econômica (embaladas em timbres e tempos inesquecíveis), dão corpo e forma às letras nonsenses, dolorosas e milimetricamente arquitetadas de Albini e Bob Weston (baixista). Todas carregam uma agressão, todas carregam uma pequena tragédia. Seja falando do Canadá ou beiseball (assuntos recorrentes do grupo), de nozes, sapatos etc etc. A ironia recorrente guarda sempre uma surpresa, um ponto de vista. Por isso digo que a falta de ornamentos e firulas da música do grupo, faz coro ao “papo reto” do grupo. E para quem não gosta disso e quer a falta de objetividade e o excesso de subterfúgios tão caros à nossa época, esqueça. Lembrem-se de Mr. Catra e seu poderoso jargão “Ô simpático, pára de formar caô”.
Vale lembrar que há outro componente caro às apresentações do grupo: a urgência em manter o grupo próximo ao público. O tradicional e divertido jogo de perguntas e respostas entre grupo e banda (prática comum em suas apresentações) esteve presente aqui também. Claro, a limitação da língua se impõe. Como disse meu colega jornalista Mateus Potumati após ver uma apresentação do grupo em Chicago, a música por si só já é um acontecimento (ou como disse uma resenha do site Pitchfork, uma “experiência de vida”), mas o que Albini e colegas de grupo operam no intervalo de algumas músicas é único e pessoal, já que a verve dos três se apresenta melhor ou pior de acordo com as perguntas feitas pelo público. Em São Paulo teve seus momentos, como quando alguém da platéia perguntou se o baterista era o Tommy Lee ex-Pamela Anderson. Poderia falar sobre o visual e feição de Todd Trainer, tão comentado durante e após o show, mas isso não casaria com o que o Shellac representa; comentários de indumentária talvez reforcem e façam sentido nos shows de uma Madonna, de um Cansei de Ser Sexy ou dos Strokes. Não aqui.
O repertório foi calcado centralmente em seu último e aclamado álbum, Excellent Italian Greyhound (uma homenagem ao falecido cão do baterista, o que já diz muito sobre as ambições do grupo). Mas não faltaram músicas de álbuns como Terraform ou Live At Action Park. Não há muito o que se dizer sobre o jogo cênico do grupo. Talvez valha lembrar o trio de aviões formados pelos três ou o “gran finale” com o grupo batendo freneticamente nos pratos da bateria. Mas isso é apenas uma cereja “nerd” no bolo. Quem viu aquele desfile de riffs calculados e cortantes, a bateria-martelo e o vigoroso baixo em ação, não se esquecerá. Três realmente é um número mágico, como diria o De La Soul. Uma imagem para o show: imagine uma sala de cirurgias, impecavelmente limpa, o branco impecável e uma chapada luz branca ao centro. Você tem tendências sadomasoquistas. Uma mesa de cirurgias logo abaixo da luz. De repente, ao invés de médicos, três cientistas em macacões puídos entram na sala. Esqueça a anerstesia, não haverá. Tensão. Ao fundo, inicia-se em alto e bom som uma base grave e sinuosa, repetitiva. Ligam aparelhos de tamanhos e formatos discretos, mas que emitem zunidos semelhantes aos de serras-elétricas. Cortes profundos, ligeiros e precisos são realizados em seu corpo. Sangue. Você sente dor mas segura o grito no limite ente garganta e céu da boca. Por fim, alívio. Operação concluída. O câncer diagnosticado de antemão foi retirado. Você volta para casa. Finge que não se passou nada, mas as marcas estarão em ti pelo resto de seus dias. Parabéns: você acabou de ser uma das poucas almas a presenciar um show do Shellac no Brasil.
Shellac é papo reto. Se você não suporta, pede pra sair. Doloroso, metódico e banal – a simplicidade a serviço de uma música intensa e atual.
Aqui, Subtle tocando cover de Prayer to God do Shellac, apresentação do grupo em Santiago no Chile e, abaixo, no Rio de Janeiro.
E mais abaixo, começo da apresentação em São Paulo: