Burial . Untrue . Hyperdub Records . 2007Por Arthur DantasSe o primeiro álbum do Burial era como uma carta de intenções, ou melhor, típico projeto de produtor enclausurado em seu estúdio, pouco preocupado com as razões e motivações exteriores, absorto em seua ambição e cercado de seus fantasmas, no segundo,
Untrue, a mediação é evidente – Burial não deu um passo adiante, preferindo desenvolver os aspectos mais palatáveis de sua estética, marcada por uma linguagem eletrônica seca e de balanço tímido (dubstep, afinal) e incrementando elementos da linguagem UK Garage e acabamento Trip hop. Como é de se esperar, não dá pra perder nenhuma partida jogando assim.
Burial busca constituir sua linguagem em um lugar diametralmente oposto aos produtores atuais: nada de recursos eletrônicos hiperbólicos ou sonoridade recheada de timbres e recursos advindos das últimas inovações do mercado; sua música é espacial, lebando o ouvinte a criar imagens e participar das canções – daí a imprensa ter dito que seu segundo álbum era muito “sentimental”. Olhando por um aspecto comportamental, é como que se sua música desse uma resposta a hipervelocidade informacional e excessos da geração das drogas sintéticas.
Uma canção como
Archangel, dialoga diretamente com certa espiritualidade presente nos primórdios da cena UK Garage ao mesmo passo que, com seus vocais andróginos e interferência de elementos não muito presentes na música eletrônica atual, quebra com certos arquétipos e traz um pouco da atmosfera trip hop de um Massive Attack e , sobretudo, de um Portishead. É até interessante frisar que o aguardado álbum novo do Portishead quebre frontalmente com o que construíram até então, criando uma obra, que se não é fantástica, é definitiva por colocá-los em um lugar estranho, muito estranho – se dá pra falar isso, um lugar nada “trip hop”.
Um aspecto que muito se comenta ao falar de Burial, é seu anonimato. Ok, questões marketeiras. Mas na realidade, isso só mostra o apego do mesmo às promessas perdidas da musica eletrônica. Lembrem-se, quando “videntes” da imprensa musical em meados dos anos 1990 decretaram a morte do rock e a ascensão da música eletrônica, um dos aspectos marcantes da última era seu caráter anônimo. Afinal, dizia-se que o DJ poderia ser qualquer um e não carregava a aura de herói dos rockstars. Pura balela. Porém, Burial retomando esta tradição, parece querer nos jogar diretamente para dentro de seu universo musical. Por isso que gosto de pensar em Burial como um “falso pintor naif” da música eletrônica. Falso, porque detrás de suposta simplicidade e cores bem delineadas, há uma produção barroca, completamente aparada de arestas, restando o essencial. Só que graças a todos esses malabarismos de sua linguagem, retirando e remodelando elementos das mais diversas procedências, faz com que se torne uma mosca branca, a despeito de todos seus seguidores mundo afora. A faixa
Ghost Hardware é emblemática de tudo isso: cheia e seca. Multifacetada e compacta. Espiritual e cerebral. Esses constrastes fizeram de
Untrue uma das mais agradáveis surpresas de 2007. Doze faixas de dubsteps minimalistas insônes, para quem cansou do “som de pista”.