Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band - um ano na vida dos Beatles e amigos, de Clinton Heylin (Conrad Editora)Por Arthur Dantas1967 deve ter sido o ano mais quente da história da musica pop. Do Velvet Underground aos grandes nomes da Swingin´ London (Who, The Move, Cream, Hendrix e Pink Floyd), a cena de Cantebury (Soft Machine e Gong, por exemplo), a psicodelia da Costa Oeste americana... Todos tiveram discos lançados em 1967 ou em preparação no período. O que o jornalista Clinton Heylin mostra é que os Beatles, e sobretudo Paul McCartney, soube se valer desse imenso caldeirão musical, a fama já angariada por seu grupo, de suas ambições vanguardistas e contatos privilegiados para virar a mesa da indústria cultural e criar a obra que se tornou paradigma de inovações técnicas e experimentação. De tabela,
Sgt. Pepper é o marco utilizado mundialmente para definir o impacto social, político e estético que os anos 1960 legaram à humanidade, sobretudo no Ocidente.
Como Heylin mostra por a+b tudo isso ao leitor? Uma rigorosa pesquisa histórica em documentos e discos da época, entrevistas pontuais para preencher algumas lacunas e o cruzamento de diversas obras sobre o Fab Four e os grupos da época, dão sustentação para sua argumentação. Isso torna o livro saboroso por si só, mas é a forma como encadeia os capítulos do livro que ditam o diferencial desta obra: cada capítulo trata de um grupo (Velvet Underground, Cream, Soft Machine, Pink Floyd ainda com Syd Barret, Beach Boys), o que estes grupos haviam criado até então e de que forma os Beatles realizaram diálogo com estes. No meio disso tudo, ainda comenta sobre o papel de produtores e inovações tecnológicas para o período. E não há especulação barata: toda tese encontra espelho em dados e fatos detalhados para justificá-los. E o bacana é que Heylin é generoso o suficiente para nos dar as pistas para entender seus argumentos. Inclusive, em tempos de mp3, é legal acompanhar os capítulos ao mesmo passo que baixa as músicas e álbuns citados. É verdadeiramente estimulante a forma como pontua que, sobretudo após Bob Dylan entrar em seu primeiro período de declínio neste período e a troca de acetatos (os CDRs do período) entre os principais grupos dos Estados Unidos e Inglaterra, fez com que os Beatles (segundo Heylin, via Macca) conseguissem o espaço e a inspiração necessária para remodelar o gênero que eles mesmos haviam formatados.
E esse é o grande mérito da obra: desmitificar muito do que entendemos sobre “gênios criadores” – os Beatles, para além de suas evidentes qualidades individuais, eram músicos que se nutriam de música eminentemente. Sabiam por exemplo, que Syd Barret, assim como Brian Wilson, eram músicos absurdos (como o “pai de todos”, Bob Dylan) e demarcavam exatamente até onde conseguiriam dialogar com a obra destes e aonde poderiam acrescentar algo que nunca era meramente ornamental. Outra qualidade do livro é dar a dimensão de algo nunca sentido no Brasil: o impacto da cultura de compactos do período para a música do período. Não havia até então a idéia de obras orgânicas na música pop; os artistas coletavam hits de compacto em compacto até terem material para um álbum. Dessa forma, desmente essa balela de que Sgt. Peppers seria o primeiro disco conceitual do pop. O que Paul fez foi criar um conceito exterior e pouco razoável para aquela coleção de singles de então.
Há espaço para ponderar ainda sobre o efeito devastador (para o Bem e para o Mal) das drogas lisérgicas do período, do papel da nascente crítica musical, das vanguardas artísticas, galerias de arte, casas de show de então, e sobre o protagonismo corajoso de alguns já consolidados artistas na direção de transformar e colocar a música como cerne da produção, não mais o “estilo”, a “moda”, os “factóides”. Nascia ali a noção de rock e pop – antes tudo era enquandrado dentro de um abrangente e obtuso selo “POP”.
Por fim, o papel de qualquer grande estudo, independente do objeto é esse: dar a dimensão da obra no momento e seus desdobramentos e reflexões para o futuro. Em 2007 tivemos uma grande quantidade de livros sobre música, mas este acabou sendo o grande lançamento nacional para mim.