Com a publicação do terceiro volume de Lost Girls, termina a maior contribuição das HQs para a literatura erótica de todos os tempos.
Lost Girls (obra em três volumes, R$65 cada), de Alan Moore e Melinda Gebbie. Devir Editora
Por Arthur Dantas
Alan Moore, o escritor de Lost Girls, é considerado por qualquer lista que se preze como um dos 20 maiores criadores das histórias em quadrinhos de todos os tempos. Nem o castigo que a indústria de Hollywood vem sistematicamente aplicando às suas obras (as adaptações para o cinema nem carregam mais seu nome nos créditos por exigência dele) maculam sua obra e notória integridade artística. Moore saiu do restrito mercado inglês do início da década de 80 e salvou as HQs de super-herói do limbo da boçalidade com os maneirismos distópicos de V de Vingança e, principalmente, Watchmen. O bruxo de Northampton (sim, ele é também um bruxo renomado), incansável, já lançou álbuns musicais, spoken words, um livro de contos ousado e brilhante (A Voz do Fogo, lançado aqui pela Conrad Editora), e encontrou um novo e estimulante desafio nos três luxuosos álbuns que compõem Lost Girls (Devir Editora), oferecendo uma radical e essencial contribuição em outra área – a pornografia.
O enredo deste épico erótico é por si só engenhoso: num momento muito próximo da I Guerra Mundial, três mulheres já adultas se encontram em um hotel austríaco. Cada qual carrega sua carga de frustrações e neuroses. A sedução entre as três acontece de forma gradual e a barbárie, para além dos limites deste hotel utópico, se aproxima rapidamente. O toque de gênio, porém, é dado pelo fato de que as mulheres são, respectivamente, Wendy (de Peter Pan, de J.M. Barrie), Alice (de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll) e Dorothy (de O Mágico de Oz, de L. Frank Baum). E as metáforas dos livros infantis, através de um viés de leitura de sonhos freudiana, tornam-se metáforas sexuais. Alice é a jovem lésbica com uma atração incontrolável por adultos e, sobretudo, por uma certa matrona (e por uma rainha de copas); Dorothy alcança o idílio sexual (o tornado) com uma bela masturbação e é uma verdadeira Lolita campesina; e Wendy conhece uma gangue de meninos de rua pra lá de sexualizados, cujo líder é Peter (Pan), e ela e seus irmãos passam a viver uma suruba um tanto ingênua com a turma, até chegar um velho de mão deformada e pedófilo – obviamente, o Capitão Gancho.
A contribuição de Melinda Gebbie, a desenhista, não é circunstancial; o livro só alcança tal beleza graças a seu traço naif e versátil. O visual ingênuo marcado por tons fortes e expressões faciais insinuantes – dá a tônica em cada quadro e colabora de maneira capital, criando disposição dos quadros nas páginas muito engenhosas, e que contribuem para destacar cada fase da trama e são, em absoluto, recursos imprescindíveis para realçar o argumento de Moore. É sabido que o escritor costuma fazer cerca de 15 páginas de anotações para cada página a seus colaboradores, dando pouco espaço para os desenhistas. Isto não ocorreu em Lost Girls de forma tão enfática, inclusive pelas diferenças de background entre Moore e Melinda, e pelo caráter esparso da obra.
Alan Moore é acostumado ao caráter industrial de produção da indústria estadunidense de HQs. Melinda era uma nascente aposta do underground radical e politizado de San Francisco. O livro foi publicado em capítulos de 1991 a 2007 e a história de amor e erotismo da obra acabou vazando para a vida real - de flerte passou a namoro além-mar e, por fim, em casamento entre roteirista e desenhista.
Pelo que foi dito até aqui, o leitor pode deduzir que trata-se de uma típica obra pós-moderna, onde a mistura vertiginosa de linguagens operam o nada. Inclusive, Kathy Acker, a já falecida escritora underground e ícone pós-moderno, que se notabilizou por recontar clássicos de uma perspectiva radical, é adorada pelos dois autores de Lost Girls. Mas não se engane: Moore é um típico espírito vitoriano. Iconoclasta como Oscar Wilde e igualmente preciosista na linguagem e nos recursos textuais. Melinda, apesar do engenho na disposição gráfica de suas páginas, constroi ilustrações que bem poderiam estar em um livro infantil (mais um paradoxo na obra!) se não fosse pelo fato das orgias abundantes por toda obra. Tudo em prol de se fazer a história cada vez mais saborosa.
E essa putaria toda se justifica! Não é gratuita, o que costuma acontecer em demasia nas histórias em quadrinhos eróticas. Não faltam detalhes e posições sexuais ousadas na hora de expressar o prazer na relação sexual ou no rito de conquista, além de casos de abuso infantil, incesto e uso de drogas. É bom que se diga: Alan Moore não costuma agradar conservadores nem aliviar suas teses e raciocínios.
Em Lost Girls nada é sagrado e tudo é permitido. A obra é arrebatadora e a edição nacional é impecável. O preço salgado se justifica pela qualidade dos 3 álbuns. O desfecho é indubitavelmente maravilhoso, ainda que melancólico e atroz. E há uma suposta “moral da história” que se torna cada vez mais veemente em tempos de guerras freqüentes: como é dito no último volume: é a guerra, não o sexo, a mais pavorosa perversão.
Certo é que ninguém passa incólume por esta história, um conto de fadas para mentes livres e maduras.