SP Noise - Sexta Feira, 21 de Novembro de 2008 (imagem: tamancos do vocalista do Flaming Sideburns)
Por Mateus Potumati . Colaborou Arthur Dantas
Fotos por Janaína Felix
O primeiro dia da primeira edição do SP Noise foi fortemente voltado ao rock com dois pés no metal, ou “rock de roqueiro”, como prefere Fabrício Nobre, um dos idealizadores do festival. Com exceção do clima oitentista do Motek, da Bélgica, teve peso para todos os gostos: do garage punk dos goianos Black Drawing Chalks ao glam-punk farofa dos finlandeses do Flaming Sideburns. O clima era de festival de talentos de colégio particular, reafirmado pela sonoridade da ampla maioria das bandas, voltadas mais à tradição (o que em um colégio significaria bandas cover) do que a ruptura. O ponto alto da noite foi o transe coletivo proporcionado pelos canadenses do Black Mountain.
O quarteto goiano Black Drawing Chalks abriu a programação pouco depois das 19h, no palco 2. Com o primeiro disco programado para 2009, o BDC já é uma das grandes surpresas da prolífica e 200% roqueira cena de Goiânia. Pouco acostumado a shows realizados tão cedo, o público paulistano demorou a chegar. Mas a banda não se intimidou com a pista praticamente vazia e fez um show enérgico, bem executado e direto, com influências do garage punk de Sonics e Monomen e do stoner rock de Kyuss e Eagles of Death Metal. Apesar de pequeno, o público presente não se decepcionou e ficou até o final do show, algo raro em se tratando da equação banda desconhecida + público indie paulistano.
O Tormentos da Argentina é aquela velha história de garotos que se reúnem para reverenciar um gênero, no casão específico, a surf music. Exibir maiores explanações sobre seria embuste. Deve funcionar em festivais do gênero, mas no contexto do festival soou um tanto deslocado.
No palco menor veio Os Ambervisions. auto intitulado “surf music cavêra”. O que não dá para negar é que o grupo se esforça para agradar e, caso você se interesse por humor grosseiro adolescente, a chance de se divertir com o grupo é grande. Todos portavam uma espécie de amuleto no pescoço, o vocalista, um gordinho com o rosto enfaixada tal qual uma múmia, desengoçado e saltitante – uma versão mais saudável e jovem do João Gordo? –, comandava a surf music suja e direta com palavras espirituosas como “Boa noite, nós somos a Brokeblack Mountain” e outras frases do gênero. A música se joga na estética dos grupos garage que exaltam os filmes B e outras excentricidades tipºicas desse universo. Jogam com o regulamento na mão e não fazem feio. É como dizia uma letra deles: “mais sujo que você, só eu / mais podre que você, só eu”. Ta bem, eu aceito o argumento...
Os belgas do Motek foram, certamente, a atração mais deslocada da noite. O som do grupo é deficitário direto do post rock do fim dos anos 90 e da música oitentista de um Durruti Column e Cocteau Twins. A peculiaridade maior do grupo é criar uma ponte entre essas referências e o chamado post-metal em alguns riffs que lembram Isis e um Neurosis, por exemplo. Só que o que poderia parecer um espetáculo soturno, encontra inflexões mais alinhadas com o pop graças aos vocais por vezes inspirados, como em canções como Combi Collina (single de seu mais recente álbum) e Tryer, com vocais etéreos e bateria timidamente swingada. Mas atirando tanto cá quanto lá, o som do grupo parece não ter cativado a atenção da pequena platéia presente.
Na ponta mais glam do espectro metal, o Flaming Sideburns dividiu o público que já começava a chegar à pista do palco 2. Entre a chacota e a adoração explícita, era impossível passar despercebido pelas micagens do vocalista argentino Eduardo “Speedo” Martinez – os outros membros da banda são finlandeses. Vestindo calça de oncinha e tamancos dourados, Martinez é como um cruzamento freak entre David Johansen e o He-Man (alguns também notaram sua semelhança com Arnold Schwarzenegger e o saudoso Pit Pitoca). Seu colete de couro deixava à mostra uma singela barriguinha, mas apesar da idade (ele e a banda toda aparentam mais de 40), Martinez esbanjou vitalidade, correndo para lá e para cá no palco e alternando refrões punk a gritos estridentes e despudorados. Sem parar um segundo, ele chegou a cair e simulou sexo com uma coluna de estofamento ao lado do palco. Na pista, alguns grupos assumiam abertamente o “guilty pleasure” e batiam cabeça, enquanto outros riam e gritavam palavras de “apoio” ao quinteto. Apesar do show divertido – cômico, para a maioria –, no final a performance e o som fortemente datado cansaram a maior parte do público. Para além das consideraçõers estéticas, ficou-se a impressão, assim como o show d’Os Ambervisions, que seriam shows apoteóticos em uma casa paulistana como o Outs, voltada para um público mais jovem e com mais ilusões sobre o “poder do rock” – tema caro ao Sideburns.
Assim que o Flaming Sideburns encerrou seu metal circus, o Black Mountain já emendou “Stormy High”, última faixa de seu disco mais recente, In The Future, de 2008. Boa parte do público, que tinha saído antes do final do show dos finlandeses e socializava na área da feira, foi surpreendida e precisou sair correndo. Mas os aproximadamente 300 presentes puderam finalmente comprovar por que a banda canadense é uma das mais respeitadas do rock na segunda metade da década. Apesar da forte identificação com o heavy setentista de Blue Cheer e Black Sabbath e de influências do hard rock de Cream e Byrds, o Black Mountain consegue evitar o desgaste do revival com uma coleção talentosa de climas e levadas hipnóticas. Os timbres crus e vintage da guitarra de Stephen McBean, do baixo de Matt Camirand e do moog de Jeremy Schmidt ajudam a despir as músicas de qualquer ambição de modernidade – tema com que a banda brinca tanto no título do novo disco como em “Modern Music”, faixa do álbum homônimo do grupo, de 2005. Isso ajuda a banda a fugir de lugares comuns do pop e do progressivo, como refrões descartáveis e virtuosismo em excesso – recursos comuns em grupos novos com influências parecidas, como MGMT, Wolfmother e Mars Volta. Sem a ambição de soarem como novidade, as músicas do Black Mountain podem explorar dimensões esquecidas no indie rock contemporâneo – levadas esticadas para além do formato usual de canção pop, vocais fantasmagóricos, climas densos. Mais do que música para cantar junto, o Black Mountain resgata uma modalidade desprezada no rock nos últimos anos: a música para “ouvir com o corpo”, pensada milimetricamente para conduzir a um estado de quase-transe.
Assim, o que parecia impensável até pouco tempo no meio indie – uma faixa-jam de 16 minutos como “Bright Lights”, por exemplo – se converte em algo transgressivo, que, antes de corresponder ao anseio obsessivo pelo novo na era da new rave e do iTunes, encontra áreas primitivas da alma, onde o gosto musical de boa parte dos fãs de rock foi formado. O talento de Stephen McBean como compositor e intérprete é perfeitamente harmonizado pelos vocais de Amber Webber – que admitiu à +Soma gostar de Bjork e Joanna Newsom. Em músicas como “Queens Will Play” e “Angels”, sua voz remete ao que imaginamos ser o canto de uma banshee, a mensageira da morte na mitologia irlandesa.
O tempo curto de show – pouco mais de meia hora, fruto do atraso de mais de 1 hora no andamento do festival – infelizmente encurtou a experiência e impediu que certos climas se desenvolvessem como deveriam. O mal uso da luz pela produção da casa – especialmente no excesso de estrobo, que tem pouca identidade com o som do Black Mountain – também incomodou. O público, claro, reclamou. Mesmo assim, a qualidade do sistema de som e da apresentação garantiram um fim de noite memorável.
(na sequência, imagens do Black Mountain e última Flaming Sideburns)