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Wed: 10-08-08

Promethea - Livro I

Promethea - Livro I - Pixel Media - 2008 

A série Promethea teve 32 edições no total e foi concluída em 2005 nos Estados Unidos e, por incrível que pareça, é a melhor série criada pelo inglês Alan Moore desde sempre – incrível porque Moore é o maior roteirista do mercado americano de quadrinhos desde a década de 1980. O trabalho do desenhista J.H Williams III evidetemente é fundamental nesta série, como explicarei adiante. A edição encadernada apresenta as primeiras seis edições da série, publicadas originalmente na revista mensal Pixel Magazine.

A trama apresenta a estudante Sophia Bangs em uma Nova Iorque futurista, às voltas com um trabalho de faculdade sobre o mito de Promethea, uma espécie de heroína mística e lenda urbana pós-moderna. Porém, o que Sophia descobre é que essa lenda (amplamente inspirada na Diana Caçadora das seitas heréticas medievais) se “manifestou” em diversas mulheres no decorrer da história e acaba por seu a nova “receptora” dessa lenda. O lema da série “Se ela (Promethea) não existisse teríamos que inventá-la”, diz muito sobre as intenções da dupla criativa, que não poupou ambição e criou uma obra repleta de nuances e significados.

Moore, cria uma história vivaz e fluída – um dos maiores problemas para um autor tão verborrágico. O gosto pelo ocultismo e mistiscismo, tão marcante em sua obra recente, sai do limbo kitsch (onde tantas vezes enterrou uma boa idéia) ao aliar com outro tema caro ao seu repertório atual: o universo feminino (como em outra grande série de sua autoria, Lost Girls). Tanto o gosto pelo oculto quanto a mulher sempre aparecem em sua obra como sinônimo de emancipação, libertação de padrões e mais: de um pensamento selvagem que ultrapassada os limites do que é tido como aceitável. O que ajuda em muito a manter Moore nos trilhos é a narrativa pararlela criada pela disposição gráfica das páginas criadas por J.H Williams III, onde símbolos místicos atrelados ao assunto da série e o próprio espaço físico aonde se passa a ação são incluídos organicamente na composição das páginas. O resultado beira o delírio metalingüístico e acentua o poder das palavras. Pode parecer hermético demais, mas a dupla sabe o poder das HQs como arte de massa e mantém a linguagem no limite do inteligível. O trabalho explora muitos elementos de cultura pop jovem amplamente satirizados e exorcizados por Moore, que afinal de contas virou mais um sinal dessa produção, ao ver seus trabalhos mais conhecidos ganhando adaptações para o cinema – mesmo que a contragosto do próprio.

Este primeiro álbum mostra a iniciação da nova Promethea e dispõe quase didaticamente ao leitor os principais elementos da série a serem desenvolvidos. O intuito, seja pelo poder dos sinais mágicos espalhados pela série para os crentes, ou pelo poder de uma ótima história em quadrinhos para os fãs de boa arte, é mostrar ao leitor que se a imaginação ainda não “tomou o poder”, há de chegar o dia que isso acontecerá. Pelo menos é o que a personagem mística da série acredita: “Eu sou Promethea. Eu sou a voz que persiste, quando o livro termina. Sou o sonho que o despertar não apaga. Eu sou Promethea, a centelha mais impetuosa da arte. Sou toda inspiração, toda desejo. A chama da imaginação na sombra da humanidade. Sou Promethea, e trago o fogo!”

 

Por Arthur Dantas