Descontração em dois tempos
Por Lauro Mesquita . Foto fernando Martins
Poucas vezes foi tão prazeroso tomar parte de um show cansativo. Quem assistiu as performance de Dan Deacon e Gogol Bordello neste sábado na Arena Tim pôde testemunhar um dos raros momentos em que a animação do público e a disposição para a folia da atração transformam uma apresentação ao vivo em uma festa de fato, sem inibições e com um grau de curtição enorme. Sem caretice ou facilitações. Daquelas em que a coisa faz mais sentido quando o público sai absolutamente exausto só no esforço de pular feito louco.
Dan Deacon é um sujeito estranho, gordinho, ruivo, já meio careca e com óculos de aros grossos. Com sua eletrônica cheia de timbres oitentistas e o uso abusivo de vozes distorcidas, ele lembra uma tradição da música pop experimental que já passou pelo trabalho dos Residents, do Kraftwerk, do Suicide e do Devo, cheio de elementos grotescos, engraçados e irônicos, que radicalizam em sons bizarros e imagens caricaturais. Mas no caso do músico que se apresentou no Tim Festival 2008, a piada é só um jeito de se chegar à celebração e ao encontro com o público. O teatral tem de passar necessariamente pela platéia, da qual ele é maestro soberano.
Suas performances explosivas deram notoriedade a elogiada cena de Baltimore, a Wham City – uma espécie de comunidade com escritores, artistas plásticos e bandas que misturam intervenções visuais, fanzines, exposições e produção de música provocativa e variada (como Ponytail e Ecstatic Sunshine).
Assim como o GirlTalk, Deacon pede proximidade total com a platéia e abre mão do palco. Monta uma mesinha bem tosca na pista com toda sua parafernália de pedais, sintetizador Casio, iPods, moduladores de freqüência rudimentares, caixas de retorno e, principalmente, um microfone. É com o último item que ele canta suas melodias e, principalmente, comanda a descontração como se estivesse em uma enorme festa entre amigos.
E o sujeito faz isso com uma competência rara. Logo na abertura do show, com a super punk “Crystal Cat” no último volume, ele colocou boa parte do público para dançar. Daí em diante, seria uma avalanche de batidas marcadas e sons distorcidos. A platéia enlouquecida acompanhava os pedidos de Deacon. Cantavam, dançavam, sem o menor constrangimento. Teve gente que reclamaria do volume. Mas a coisa ali era rock mesmo no que ele tem de mais duro, direto e catártico.
Depois de uma sessão de interação do público com Deacon – que dançava com ele, morria de rir com suas invenções e até o levantava com as mãos –, ele pediu pra platéia abrir um círculo e promoveu uma divertidíssima sessão de danças em dupla em que cada um dos membros da platéia dançava “de maneira sexy” até convidar os próximos dançarinos. A sessão acabou quando o público tomado por uma euforia bem rara nessa edição do festival tomou a pista por inteiro e fez o bicho pegar.
O gordinho de Baltimore (sem nenhum medo de ser feliz) não tinha acabado com o seu estoque de curtição e organizou o que talvez tenha sido o maior túnel de festa junina de todos os tempos. A trilha sonora era a aceleradíssima “Okie Dokie”. O túnel humano percorreu praticamente todo espaço da Arena do Ibirapuera e só mesmo quem carrega uma dose de desânimo fora do comum não conseguia se envolver com o ritmo de micareta punk-eletrônica que tomou conta do local.
Para encerrar, Deacon pediu pra todos levantarem as mãos e executou o seu maior hit, a excelente “Wham City”, que botou a platéia para pular. Ao final, o produtor agradeceu e se disse emocionado. Pra boa parte do público que se colocava próximo a sua mesinha de equipamento parecia o final de um jogo de futebol, tamanho o suador e o esforço físico. Depois descobriríamos que só se tratava do primeiro tempo. O segundo seria travado com um time bastante internacional – o Gogol Bordello.
A banda liderada pelo ucraniano-nova-iorquino Eugene Hütz junta um monte de clichês do rock, do hardcore e de músicas tradicionais de vários lugares do mundo para comandar aquele que é considerado um dos melhores shows do mundo atualmente. A banda abriu com a animadíssima “Ultimate”, de seu último álbum Super Taranta!, e não precisou de muito esforço pra colocar todo mundo para pular.
O mais impressionante é que apesar de sua constante identificação com a música cigana e dos Balcãs, os músicos muitas vezes tocam é um hardcore bastante extremo. As duas belíssimas backing vocals (vestidas com camisetas do Santos) parecem uma versão oriental de vocalistas de grindcore que fazem um bico como dançarinas de alguma versão acelerada do É o Tchan.
E no show do Gogol Bordello é tudo veloz e eufórico. Antes de iniciar o hit “Start Wearing Purple” (do seu melhor álbum, Gypsy Punks Underdog World Strike, de 2005), Hütz cantou algumas palavras em português que parecia uma versão de algum bebum para “Morena Tropicana”, do Alceu Valença. Foi só começarem os primeiros acordes do maior hit da banda para presenciar uma comoção coletiva entre a platéia, que gritava o refrão a plenos pulmões.
Se a música otimamente executada da banda muitas vezes resvala em clichês do punk, do hard rock e da música cigana e toda a concepção do grupo lembra muito o trabalho do grupo francês Mano Negra, é inegável que poucas formações de rock fazem um show tão envolvente e distante do blasé. O público quase sem fôlego ao final da apresentação do Gogol Bordello que o diga.
Não havia disposição e nem vontade de ficar mais, ainda mais depois de escutar o repertório previsível e bem pouco empolgante de Switch. Era melhor ir embora cansado, suado, feliz da vida com a festança e sem aborrecimentos.
Set List:
Dan Deacon:
Okie Dokie
Crystal Cat
Red F
Padding Ghosts
Snake Mistakes
Baltihorse
Wham City
Gogol Bordello:
Ultimate
Sally
Not a Crime
Never Young
Wonderlust King
60 Revs
American Wedding
Purple
Fuck Globally