+REVIEWS


Wed: 10-22-08

Kanye West no Tim Festival 2008

Por Mateus Potumati e Arthur Dantas
Fotos por Rodolfo Herrera

Kanye West, maior nome do Tim Festival 2008, chegou ao Brasil surpreendendo quem esperava o artista ultra-egocêntrico e cheio de marra de costume. Simpático, mostrou à imprensa seu disco novo, interagiu com os jornalistas, pediu até opiniões. O aparente desprendimento se dissociava de sua imagem pública, do artista obsessivo, ultra-controlador e dado a arroubos de diva. Mas a impressão durou pouco. Na noite desta quarta, como a criança que dá e tira só de pirraça, o Kanye West bacanão saiu de cena.

No credenciamento de imprensa, fotógrafos e cinegrafistas desavisados se frustraram com a notícia da proibição do registro de imagens da apresentação. Pouco depois, o público - modesto em princípio, conseqüência direta dos R$ 250 cobrados pelo ingresso - esperou mais de meia-hora até que o rapper finalmente entrasse no palco. Foram vários alarmes falsos até que surgissem os primeiros acordes de "Stronger", o maior sucesso de West. Mas antes que a catarse se consumasse, ela foi interrompida. Era o segundo round do jogo psicológico travado por ele com o público brasileiro. Havia apenas uma regra: para participar, era preciso aceitar plenamente os termos do dono da bola. Como em todo regime autoritário, tinha tudo para ser um saco. Mas o jogo foi um clássico. Em duas horas de show, Kanye West ofereceu a São Paulo a elucidação de um dogma repetido por osmose nos quatro cantos do mundo: por que, afinal, ele personifica a quintessência do pop contemporâneo?

Essa identificação entre Kanye e o pop ocorre muito além das inferências simplórias de parte da imprensa brasileira por esses dias, que cedeu ao apelo fácil de taxá-lo como "mais do que rap". Falar que ele se distância do rap é como dizer que os Beatles se distanciaram do pop em Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band ou que o Clash se distanciou do punk em London Calling. É uma coleção de equívocos criada ao calor do momento, da má formação de conceitos culturais e de preconceitos adquiridos. Kanye é essencialmente rap. Da faixa "Cant Tell Me Nothin" (saudada efusivamente pela massa) até "Touch The Sky", música de encerramento da opereta. E é essencialmente pop, elemento onipresente em seu teatro épico Glow in The Dark: das crateras lunares do cenário, de gosto duvidoso, às projeções de estrelas e asteróides e às explosões e cortinas de fumaça à Madonna.

O pop estava escancarado também no telão pelo qual ele dialogava com Jane, consciência digital formatada como um Hal - o cérebro eletrônico de 2001 - Uma Odisséia no Espaço - adaptado à geração Nintendo DS. O pop estava em sua roupa, metade futurista, metade posicionamento de produto, sintoma de uma época em que moda e arte foram assemelhadas. E o pop, por fim, estava na música, grande conhecida do público presente. A música - ainda incomoda chamar rap de música? - de Kanye conduz o rap a incursões explícitas pelo electro, pelo rock, pelo groove, pelo canto negro. Ele é um excelente cantor, e também um ator nato: cada segundo de sua apresentação é meticulosamente estudado e encenado com a naturalidade alcançada apenas pela repetição exaustiva. Não há DJ nem banda no palco - eles ficam embaixo dele, invisíveis ao público. Não há nenhum tributo ao realismo exigido pelo cânone do rap. A dimensão apresentada é outra, e os elementos cênicos escolhidos - um absurdo Godzilla de carro alegórico, por exemplo - não poderiam ser mais didáticos. Kanye é o arauto de um espetáculo pop que comunica muito mais do esperamos ouvir. Para além das idiossincrasias de um artista do século XXI com o egocentrismo típico do século XX, criatura se avantaja diante do criador.

Kanye West é esperto, questione quem inteligência tiver. Sagaz, traduz e inverte estereótipos da música branca (remixa Daft Punk, toca o hard rock farofa do Journey na pausa para água em seu show) e ainda traduz o que de melhor a música negra estadunidense criou nos últimos tempos. Ele não é só um crooner perspicaz: é compositor e produtor, artífice de suas confabulações, como um híbrido entre Quincy Jones e Michael Jackson. A seqüência de encerramento de seu show - "Stronger", "Homecoming" e "Touch The Sky" - sintetiza vicissitudes e ambições de uma música que não pára de olhar adiante.

Jogue-se a favor ou contra, o jogo está consumado: três atos, 21 canções. Kanye West é o vencedor de uma partida onde todos ganham. Assim se espera.  


Kanye West, na Arena do Ibirapuera, 22 de outubro de 2008

SET LIST:

Stronger Intro
Good Morning (Graduation)
I Wonder (Graduation)
Heard Em Say (Late Registration)
Thru The Wire (Late Registration)
Champion (Graduation)
Get Em High (The College Dropout)
Diamonds (Late Registration)
Seqüência do Godzilla
Cant Tell Me Nothin (Graduation)
Flashing Lights (Graduation)
Drunk N Hot Girls (Graduation)
Spaceship (College Dropout)
All Falls Down (The College Dropout)
Golddigger (Late Registration)
Good Life (Graduation)
Jesus Walk (The College Dropout)
Hey Mama (Late Registration)
(pausa) Dont Stop Believing (Journey) – banda hard rock
Stronger (Graduation)
Homecoming (Graduation)
Touch The Sky (Late Registration)