Por Mateus Potumati e Arthur Dantas
Fotos por Fernando Martins
Após 23 anos, o saxofonista estadunidense Sonny Rollins voltou ao Brasil para abrir o Tim Festival 2008. Curiosamente, sua primeira e única apresentação no país, em 1985, abriu a primeira edição do Free Jazz Festival, ancestral do Tim. Considerado o último remanescente da era de ouro de jazz, o mítico saxofonista veio acompanhado por um quarteto formado por Clifton Anderson (trombone), Robert Broom Jr. (guitarra), Kobie Watkins (bateria) e outra lenda do jazz, o baixista Robert "Bob" Cranshaw, o mais antigo parceiro de Rollins no grupo, que já tocou com mestres como Lee Morgan e Horace Silver.
A apresentação, de pouco mais de duas horas, contou com nove temas. O primeiro, “Strode Rode”, é um clássico do repertório de Rollins: a faixa foi lançada em um dos seus mais cultuados álbuns, Saxophone Colossus, de 1956. O disco, um dos mais importantes documentos do hard bop, contou com o acompanhamento do baterista Max Roach e do pianista Tommy Flanagan. No show do Tim, o piano foi reinterpretado pela guitarra ágil de Broom Jr., que se contrapôs aos solos de Rollins e do trombonista Clifton Anderson. Ali, no estilo vibrante e dinâmico de sua melhor fase, estava o que de melhor Rollins legou ao mundo.
Na seqüência, Rollins emendou “Nice Lady”, que ele toca desde 2006, mas lançou apenas este ano no CD Road Shows, Vol. 1. A música, originalmente um calypso, ganhou rapidez e adquiriu contornos quase de um baião, como se estivesse sendo reinterpretada especialmente para a platéia brasileira. Enquanto o trombonista Clifton Anderson – sobrinho de Sonny Rollins e que ganhou seu primeiro instrumento do tio aos 7 anos – conduzia a melodia, Rollins, do alto dos seus 78 anos, se sacodia, batia as pernas e ensaiava um rebolado. Retomou a condução aos poucos, dialogando com o trombone e aumentando o irresistível clima de banda de rua. Em seguida, foi a vez do guitarrista Robert Broom Jr. fazer seu primeiro solo da noite. Com o timbre limpo de sua Hofner semi-acústica, Broom Jr., que toca com Rollins desde 1987, se sobressai não pelo número de notas tocadas por segundo, mas pelos encaixes absurdos e pelos fraseados que brincam entre o consoante e o dissonante – muitas vezes começando em um e terminando em outro.
Depois da catarse, Rollins finalmente foi até o microfone apresentar a banda. Ofegante e com a voz já trêmula da idade, ele brincou: “Vamos continuar assim que eu recuperar o fôlego”. E emendou, diante da reação morna da platéia: “a propósito, isso foi uma piada”. Os risos esperados finalmente apareceram. O próximo tema, “They Say It’s Wonderful”, é uma releitura hard-bop do clássico do compositor americano Irving Berlin, mito da Tin Pan Alley e da Broadway no começo do século XX. É a vez de Kobie Watkins brilhar. O baterista, dono de uma articulação levíssima, exibe seus ataques meticulosos que beiram o minimalismo com marcações simples, evolui para contratempos e culmina em rolos e tercinas mais complexas, com intervenções incidentais do chimbal e dos pratos. O solo é um dos pontos altos do show e arranca reações efusivas da platéia.
A segunda parte da apresentação começa intimista, com o solo misterioso do baixo introduzindo “In a Sentimental Mood”. Em “Someday I’ll Find You”, Rollins entra fundo no romantismo, alternando toques de melancolia e pura sensualidade. Um presente único aos casais – que alguns, com péssimo timing, não souberam aproveitar, deixando a platéia. As notas sinuosas do saxofone de Rollins jogam com a dualidade entre o complexo e o absurdamente simples, e o resultado é apenas um: nos sentimos, ali, como crianças diante de algo que, ao mesmo tempo que contagia o corpo e a alma, nos foge à compreensão.
O clima de festa volta com o samba “Don’t Stop The Carnival”, que a banda já executa em clima de despedida. O ânimo da platéia, porém, leva a um bis ainda em cima do palco: uma jam blueseira que arrasta os presentes à beira do palco. Muitos desobedecem o protocolo e sacam seus celulares para registrar o momento. Daí para a frente, Rollins e seu grupo só conseguem deixar o palco quando ele mesmo, exausto, corre para a coxia, como uma criança que aproveita um descuido da mãe exigente.
O show, por fim, apresentou uma síntese perfeita da carreira de Sonny Rollins. Nela, a aparente distinção entre tradição e vanguarda se tornam obsoletas. Rollins atrai o que de mais irascível há no jazz dos últimos 40 anos para dentro de um espectro tradicional (o que chamamos de standard), harmonizando opostos. Há quem veja isso como um fator negativo – o que justificaria um certo desdém por seu trabalho a partir de meados da década de 1970. O público não pareceu se importar: pelo contrário, pediu e foi consagrado com três bis. Mas, após esta noite (não com exagero nomeada “de gala”), mesmo o espectador mais exigente será forçado a reconhecer a falta que fazem gênios que utilizam (ou domesticam?) seu dom com tamanha perfeição.
Sonny Rollins . dia 21 de outubro de 2008 . 21 horas . Auditório do Ibirapuera . SP
O jazzista faz outro show no sábado, às 11h da manhã, no Parque do Ibirapuera. A apresentação será gratuita e ao ar livre.
Setlist:
1 – “Strode Rode”
2 – “Nice Lady”
3 – “They Say It’s Wonderful”
4 – “In a Sentimental Mood”
5 – “Someday I’ll Find You”
6 – “Don’t Stop The Carnival”
7 – Blues Jam
8 – “Isn’t She Lovely?”
9 – “Tenor Madness”