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Mon: 09-24-07

Whoa, Nellie! de Jaime Hernandez

Whoa, Nellie! de Jaime Hernandez

Zarabatana Books

Por Arthur Dantas 

  Sexo Frágil?
Se no cancioneiro brasileiro, Chico Buarque se notabilizou por incorporar personas femininas como ninguém, nas HQs os irmãos Hernandez realizam a mesma equação.

  Os irmãos Hernandez estão entre os 10 maiores acontecimentos das HQs americanas dos últimos 20 anos. Curiosamente, no Brasil, tiveram uma dúzia de revistas publicadas pela Editora Record na década de 1990 e um álbum publicado faz uns 4 anos pela Via Lettera. Todos enfocando o universo de sua criação mais famosa: Love and Rockets.

  Agora chega às livrarias brasileiras, o álbum Whoa, Nellie! , de Jaime Hernandez. O álbum, primeiro trabalho de Jaime pós-Love and Rockets, trata da conturbada passagem da adolescência para a maturidade desde uma perspectiva feminina. A moral da história poderia se resumir à "fábula onde aprendemos o que separa garotinhas de mulheres duronas". Porém, quem conhece o trabalho da dupla, sabe que moral da história é o que menos interessa nas histórias dos Herrnandez...

  Contando a amizade de duas garotas lutadoras - Gina e Xo - o artista usa como pano de fundo o universo da luta livre feminina da comunidade chicana dos Estados Unidos e, usando como metáfora a luta corporal, há uma belíssima saga onde trata-se das diversas etapas pelas quais passa uma amizade afim de se tornar uma GRANDE amizade. A plasticidade da cenas de luta evidenciam o amor de Jaime pelo esporte. Um amor que seduz habilmente o leitor, desmitificando uma aparente rudeza que possa ser atribuída a este meio.

  Como em Love and Rockets, é através de personagens "menores" - freaks, mecânicas, punks ou lutadoras - que os Hernandez conseguem tratar de questões universais com uma aparente despretensão que fascina e aumenta os fãs de seus trabalhos. Em uma mídia famosa por vender ideologia barata, os Hernandez conseguem plantar complexidade e diversidade, o que os torna únicos no universo dos quadrinhos. Outra característica marcante são as personagens femininas fortes e decididas, invertendo uma lógica masculina e exclusivista tão cara aos quadrinhos. Não à-toa que se tornaram de forma automática ícones entre as roqueiras feministas dos anos 1990 ao redor do planeta.  

  Não dá pra deixar de citar, ainda que soe fora de propósito, o fato de Jaime desenhar as mais belas cenas de luta corporal dos últimos anos. Você é pego pelo calor do combate e acaba torcendo em certos momentos para que uma lutadora "vire o jogo".

 

P.S: esse livro é um complemento e tanto para o texto de Guillermo Rivero sobre luta livre mexicana na +Soma #2.