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Wed: 12-26-07

NEUROSIS “Given To The Risen”
NEUROSIS “Given To The Risen”

NEUROSIS “Given To The Risen”
Neurot Recordings (2007)

Por Douglas "Life Is A Lie"
 
O Neurosis é um caso raro no mundo da música pesada. Ativo há mais de duas décadas, conseguiu moldar uma sonoridade tão peculiar que nunca foi possível submetê-la a nenhum dos inúmeros gêneros e subgêneros existentes nesse meio. Não dá para dizer que fazem doom metal, sludge, crust, noise-rock ou seja lá o que for sem estar negligenciando algum aspecto de seu trabalho. E mesmo com todo o reconhecimento que recebeu nos últimos anos, nenhuma das bandas que tentou copiá-lo foi realmente capaz de capturar a essência de sua música.


Para quem nunca escutou, imagine a cadência e o peso descomunal dos primeiros álbuns do Black Sabbath, a bateria tribal e o “primitivismo pós-apocalíptico” da primeira geração crust inglesa (Amebix, Deviated Instinct), a desconstrução dos precursores da cena noise-industrial (Swans, Throbbing Gristtle) somados ao descontrole e a urgência do Black Flag. Todos esses elementos reunidos, lapidados, potencializados e transformados numa massa sonora coerente, coesa e absolutamente nova: eis o Neurosis.


Não que esse amadurecimento tenha acontecido da noite para o dia. O primeiro álbum, “Pain Of Mind”, é indiscutivelmente um registro hardcore punk. Repleto de personalidade e boas idéias, justiça seja feita, mas ainda diretamente atrelado a uma cena e um pouco ingênuo. Foi em seu segundo disco, “The Word As Law” que o monstro começou a se formar. No trabalho seguinte, o indispensável “Souls At Zero”, o estrago estava feito, apesar do impacto imediato não ter sido proporcional à grandiosidade desse álbum. Talvez o Neurosis seja realmente o caso de uma banda que esteve à frente do seu tempo. Inevitavelmente, alguns anos e discos mais tarde, a banda deixou de ser idolatrada apenas entre um círculo restrito de aficionados e tornou-se unanimidade na música extrema, consagrando-se como uma das mais influentes e importantes no meio. De lá para cá, mais 5 álbuns foram lançados, todos brilhantes, com alma própria.


Chegamos finalmente a 2007, ano em que o Neurosis apresentou “Given To The Risen” ao mundo. Não se sabia ao certo o que se esperar dele. Seu antecessor, “The Eye Of Every Storm”, é provavelmente a maior polêmica na discografia da banda: dividiu opiniões ao incorporar uma boa dose do clima intimista, reflexivo e melancólico dos trabalhos solos de Scott Kelly e Steve Von Till (guitarristas, vocalistas e principais compositores do Neurosis), contrastando com a tradicional avalanche apocalíptica e catártica pela qual são conhecidos.


“Given To The Risen”, no entanto, é um de seus álbuns mais pesados e diretos. As músicas estão mais cruas e compactas, ao menos para os padrões da banda. Felizmente, não soa como uma simples “volta às raízes”. Ainda que no geral prevaleça o peso, todas as características desenvolvidas durante os anos estão reunidas nele. Quase um compêndio da sua carreira. Nesse contexto, é um disco que prima mais pelo equilíbrio dos elementos do que pela ousadia – o que, considerando a inquietação e a disposição a experimentar que marcam o Neurosis desde o início, chega a ser preocupante. De qualquer forma, o resultado aqui é excelente. Desde a caótica faixa-título, que abre o disco, até a viajante “Origin”, que o encerra, está tudo ali: os timbres inigualáveis dos vocalistas, as bizarras intervenções dos samplers e sintetizadores, a percussão pulsante, a rejeição fanática das melodias fáceis. Tudo, enfim, que os fãs gostariam de ouvir.


Fica no ar, porém, a dúvida: será que a fórmula se esgotou? O tempo irá responder. Por hora, “Given To The Risen” no volume máximo e um feliz pesadelo!