Por Arthur Dantas
É um tremendo de um chavão besta, mas boa definição para o último trabalho de Marcelo MJP, seu álbum Decomposições, seria de trilha-sonora para São Paulo do século 21. Se isso diz muito, por outro lado, deixa muita coisa a ser definida. Afinal, essa abordagem sonora da maior megalópole da América do Sul é lisonjeira? É tranqüila? É uma tese? Um diálogo?
Definindo mais cartesianamente, o trabalho do produtor é o que costuma-se chamar de hip hop abstrato – abordagem da IDM dos anos 90 pelo viés da cultura rap: batidas quebradas, ruídos, cadência algo balançada. Dentro disso, acrescente-se alguma influência de pós-punk americano, jazz, El-P, DJ Shadow, DJ Spooky e outros produtores que usam de batidas não como base para o som, mas para equilibrar as diversos climas elencados dentro de uma mesma canção.
São 17 pequenos fragmentos que acabam criando uma narrativa onde cria-se um inventário de conflitos e do caos da cidade, exemplificados pelo choque intermitente de linguagens díspares a se encontrar. Essa trilha-sonora da cidade não decifra nem elucida nada sobre ela; há sim a tentativa bem executada de propor um rápido exemplo de como pode-se extrair proposições estéticas engenhosas do caos controlado pelo produtor MJP.
Essa idéia de antimúsica contida na idéia de “decomposições” (ironicamente, uma conexão também com a decomposição de materiais, da sujeira, do lixo acumulado na urbe) não é nova e não “dá liga”. O álbum cria um espelho e uma continuação para seu trabalho anterior, Passagenz & Interferênciaz. E os nomes de ambos os trabalhos são exemplares do que há de mais interessante no trabalho do produtor: sua música é a síntese sonora do que vem sendo criado no universo da Arte Urbana brasileira. Explico: tomando como suporte direto dessa geração as ruas, o que temos são pinturas, stickers etc, que criam um diálogo muito reto, direto com a cidade (interferências), no sentido que apenas elencam elementos estéticos novos que se encaixam no espaço urbano. Reflexão sobre esta ocupação não parecer o foco: o importante é o ocupar em si – mesmo que isso venha a se tornar lixo, decomposição. E daí resta pouca discussão estética, não? Posto desta forma, ao contrário do chavão de hip hop ou punk rock como trilhas-sonoras jovens da cidade, o trunfo do trabalho de MJP é sintetizar com sons o que é realizado comumente por imagens. Tal qual. Resta saber se são irmãos gêmeos ou inimigos.
Decomposições são 17 faixas especialmentes produzidas para acompanhar a expo de renan cruz e Bruno Kurru na Sala Cega da Trezeta Muzik em São Paulo. As capas foram projetadas no laboratório Sala Cega da loja a partir de material de reciclagem, contando com trabalho de arte e produção artesanal.
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myspace.com/marcelomjp
mjpsp.blogspot.com