Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues
Graphic Novel de Arnaldo Branco e Gabriel Góes
Editora Nova Fronteira . 2007
Por Arthur Dantas
Autor homenageado da Festa Literária Internacional de Parati deste ano, Nelson Rodrigues tem aqui uma de suas obras mais polêmicas adaptadas à estética dos quadrinhos. Mas a dupla Arnaldo Branco – o famoso criador do Capitão Presença – e a revelação Gabriel Góes criam uma releitura que não se limita a mero apêndice da obra original ao pesar as cores no lado noir do texto original.
Beijo no Asfalto segue a lei de Murphy, onde o que pode dar errado, dará MUITO errado. Arandir, um homem casado, beija a boca de outro homem agonizante, atropelado no centro do Rio de Janeiro. Tal fato vai servir aos interesses de uma polícia corrupta, um sogro reprimido sexualmente, à sordidez pequena da vida cotidiana e aos preconceitos mil suscitados pela cobertura nojenta da imprensa preocupada em vender jornais a qualquer preço. O texto prende a respiração do leitor e culmina numa conclusão absurda, beirando o tragicômico.
A adaptação dos quadrinistas ganha na medida que, mesmo guiados pelo conselho rodriguiano de seguir o “script” sem grandes estripulias, resolvem investir em uma faceta da obra original que aqui ganha proeminência: o suspense noir.
O clima hitchcockiano é evidenciado até pelas referencias visuais: a narrativa segue enquadramentos cinematográficos, os personagens respondem aos momentos de maior dramaticidade com expressões faciais marcantes e braços e mãos que concentram o ápice dramático de cada situação. Além disso, a caracterização do personagem principal rende homenagem ao Henry Fonda de O Homem Errado.
A obra distancia-se diametralmente de boa parte das adaptações literárias em quadrinhos que inundam as livrarias, na medida que se reconhecem enquanto quadrinhos, respeitam os elementos fundamentais da obra original e ainda acrescentam perspectivas interessantes à obra. Assim, a obra encontra confortável semelhança de propósitos com a adaptação de A Relíquia (de Eça de Queiroz) realizada pelo mestre underground Marcatti.
Acompanhe uma rápida entrevista com Arnaldo Branco a seguir:
É a primeira vez que você produz uma história longa, não? Como foi a experiência? Mais algum projeto do gênero?
Sim, creio que a maior história que tinha feito antes devia ter quatro páginas, e toda à base de gags, com um fiapo de roteiro. Bem, o trabalho mais difícil foi do Nelson Rodrigues, a história já se prestava bem a uma adaptação - aliás, é a idéia básica do texto teatral...
Tenho um roteiro para um filme que talvez adapte para quadrinhos, sobre a atuação do Esquadrão da Morte nos anos 1970. Mas ando realmente enrolado...
Fiquei impressionado com o trabalho do Gabriel Góes, que não conhecia. Você dirigiu os desenhos quadro-a-quadro ou o Gabriel montou cada quadro a partir de indicações mais genéricas?
Fiz marcações de todos os quadros, mas dando liberdade de dispor os personagens em vários - é claro que o Gabriel tomou mais liberdades ainda, para o bem da adaptação devo dizer. Teoria é bom mas a prática é tudo.
Eu li em algum lugar você dizendo que tentou seguir ao máximo o texto original. por outro lado, o álbum tem um clima se suspense noir que não senti ao ler o texto original (nunca vi montagem da peça). De onde partiu a idéia para essa abordagem? Qual a inspiração?
Uma das inspirações visuais, pela temática correlata principalmente, foi "O Homem Errado". Pedi para o Gabriel fazer o Arandir lembrar vagamente o Henry Fonda, inclusive. É um Hitchcock em momento bastante noir. Mas esse elementos já estão na peça, tem aquele motivo da força do destino inescapável ao homem que vitimou mais de um carinha de chapéu e gabardine naqueles filmes dos 1940/50...
Beijo no asfalto conta, basicamente, a história trágica de um homem cuja vida é destruída pela maledicência da imprensa. Você acredita que ela ainda pode destruir uma vida? Afinal, os jornais andam tão desacreditados...
Não só a imprensa - a opinião pública também está bastante desacreditada, veja como foi desconsiderada na questão do Renan... mas essas coisas tem uma força própria. As pessoas querem acreditar na desgraça alheia para não ter que encarar a própria.
Futuros projetos? Fico pensando se ainda é possível fazer algo com o Capitão presença, seu personagem mais famoso. Piada de maconheiro não tem um limite?
Eu também achava que sim, quando fiz a primeira tira já achava que o personagem tinha cumprido sua função - mas daí fiz um livro de 140 páginas. Não subestime um troço que ensina para as velhas sinapses novos truques....